Assim como nossos pais – por Rosana Serena

Diante do espelho, vejo insistente e repetidamente o olhar embaçado e esmaecido de minha mãe que me retorna enganosamente como minha própria imagem refletida.
Capturada incessantemente neste olhar me pergunto o que neles me machucam tanto mais, além de minha saudade?…
Àquela época impaciente e intolerante com seus vacilamentos e reticências, mudamente a acusei de fraqueza. Ao vê-la assim tão hesitante achei que ela podia, mas não queria fazer alguma coisa para se firmar!
Da imaturidade da minha juventude por vivências ainda não havidas, critiquei sua maneira de levar a vida na maturidade, acusando-a sem querer de seu próprio e inevitável esmaecimento.
A convoquei severamente, a seguir adiante no caminho que lhe apontava, mas jamais pensei que ela não poderia seguir tal trajetória, por ser bem uma outra, a sua possível naquele momento.
Jamais pensei na ocasião, que ela simplesmente não podia, ou que não lhe era exeqüível!…
Invoquei sua força furiosamente, com palavras impronunciadas e com olhar de decepção acusadora e ela apenas me olhava sem nada dizer.
– Porque ela havia me deixado tão perigosamente desamparada com aquele seu desamparo, estampado claramente em seu olhar? Onde teria ficado sua força e coragem? Embravecida e raivosa, reconheci ressentida que quando a dela foi embora, levou também grande parte da minha.
Dorida e magoada eu testemunhava o seu alvorecer de cores desmaiadas, sem querer aceitar que o tempo das garantias e certezas para mim havia passado, também levando as dela.
Dentro de mim, a criança que eu fora gritava silenciosamente:
-Onde estaria aquela que diante da minha admiração infantil, firmemente me segurava às mãos quando eu tropeçava no caminho?
– Onde reencontraria a sensação de segurança que sentia quando pequena ela me colocava em seu colo?
– Onde reencontraria suas palavras de garantia que me davam a certeza de mim mesma?
– Onde reencontraria o conforto de seu abraço que aplacavam as angústias da incerteza?
E neste silencio eloqüente ela me ouvia sábia e claramente e por isso, apenas me olhava sem nada dizer, pois compreendia que estávamos ambas diante do inevitável alvorecer de sua vida.
Neste presente, onde ela já não mais está, e o espelho funde insistentemente sua imagem e a minha, fluidas e consistentes, tão passadas e presentes num ir e vir fantasticamente real. E é neste reflexo intermitente de um olhar e outro, que ele impiedosamente revela denunciando que os anos para mim também passaram embaçando o meu próprio olhar!…
Uma porta se abre… E nesse fechar lento, de uma porta que delicadamente se fecha, em sua soleira postada está paralisadamente em comoção minha jovem filha com seus sempre expressivos olhos a me fitar.
E neste instante supremo, de impactante verdade, como são todas as verdades, reconheço nela, o mesmo olhar de mágoa ressentida com que anos atrás olhei para minha mãe!…

1 Comentários

  1. fiverr seo
    abr 8, 2016

    Hello there. I found your blog by means of Google whilst looking for a comparable topic, your web site came up. It looks great. I have bookmarked it in my google bookmarks to come back then.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *