O Sal da Terra! – por Rosana Serena
Sobre o filme, destaca-se o homem!
O que nos dizem o olhar de Sebastião Salgado pode ser apreendido através de sua impressionante obra artística. Sobre a obra nada há a dizer apenas sideralmente contemplar!
Do documentário ressalta o homem mesmo que não houvesse sido essa a intenção. Ele surge majestoso e imponente em sua humildade, destacando-se sobre o cenário, destacando-se com o mesmo esplendor de sua própria obra! Sua figura escultórica, quase que fantasmagoricamente emergida, ora sobre um fundo negro sem horizontes, ora entre véus de imagens de sua própria obra, impressiona tal como nos impressionaria a fala sobrenatural de um faraó egípcio, divindade e homem em harmonia. A fala mansa, contida, quase engolida e recuada assim como que escondendo e represando a força da paixão. A testemunha, e seu testemunho de um percurso, observando o humano em sua condição existencial. O caçador, que tal como animal que espreita a caça pacientemente, caçando momentos em sua lente para serem eternizados. Um gigante em sua humildade que fala de si e seu trabalho sem a pretensão de ser grande, uma figura exoticamente reservada, que quase aprisiona seu brilhantismo. Seus trabalhos refletem o olhar profundamente comovido com a condição humana. Sua trajetória é o registro do humano em toda a dimensão de sua humanidade.
Comovente o documentário é uma obra prima entanto sua categoria cinematográfica, mas é, sobretudo a obra prima da vida de um homem, tão grandioso quanto sua própria obra, O Sal da Terra traz a dificuldade de traduzir o homem e a obra!
Tal desafio é relatado por ambos os diretores Win Wenders e seu co-diretor Juliano Salgado, que finalmente decidem por fazer um filme com as histórias que o próprio artista conta de suas jornadas. A narrativa do filme intercala os depoimentos de Sebastião Salgado e as narrações alternadas dos dois diretores. O acerto dessa decisão de direção pode ser prazerosamente saboreado enquanto somos levados por essas vozes, a fazer essa viagem juntos. A fotografia esplendorosa reitera o convite ao percurso. O cenário é o próprio cenário da vida e obra do artista, que deste modo se revela mais profundamente. Justificadamente o documentário concorreu em 2015 ao Oscar de Melhor Documentário de Longa Metragem, e a surpresa de que não tenha vencido!
Sebastião Salgado, o promissor economista de carreira, exilado na França desde 1969, decide deixar a carreira bem sucedida para dedicar-se a fotografia. Suas primeiras fotos são sobre a seca no Niger, em 1973, e desde aí, ele defini-se como fotógrafo social e é assim que nessa trajetória ele se torna personagem de sua própria vida e deste documentário.
1- Outras Américas – 1977 – 1984
Tomemos como nosso ponto de partida o retorno de Sebastião a América, após oito anos de exílio na França, para onde ele havia partido como forma de fugir da represália dos governantes brasileiros, uma vez que havia se envolvido em movimentos políticos considerados de esquerda.
A saudade de seu país fez com que ele decidisse desenvolver seu trabalho de fotógrafo social pela Américas. Faz sua incursão para o coração dos povos e sua vida pelas mãos de um jovem padre que lhe dá a via de acesso, ao que ele chama de “América Profunda”, ocasião em que visita Equador, Bolívia, Peru e os Andes.
Suas fotos dos saraguros refletem o registro precioso da cultura, vida e emoção desses povos.
Sebastião aqui é o fotógrafo social por excelência como apreciador dos povos e civilizações, alguém que empaticamente, simpatiza com os humanos em sua humanidade.
2- Brasil – 1981 – 1983
Com a queda da ditadura em 1979, ele finalmente pode voltar à sua pátria, e a emoção desse reencontro com seu país é exposta nesta comovente obra em que destaca o sofrido povo de nosso nordeste. Retrata a vida e a morte, justapostas muito proximamente como um processo natural do fenômeno da natureza humana.
Ficam impressos em seu trabalho a força moral e física de um povo sofrido, a ideologia e políticas regionais, bem como a religiosidade, e a migração para o sudeste por causa da seca. As imagens das crianças no caixão são as que definem melhor a natureza deste trabalho, e as imagens do cotidiano dos nordestinos. É preciso destacar as fotos dos movimentos dos sem-terra.
Sebastião está profundamente impactado com a força física e moral de povos que embora fracos e mal alimentados, mantém dignos em seu destino. A dignidade do humano é a força motriz que faz clicar o botão de sua máquina.
3- Sahel – 1984 – 1986
End of the road
Comovido com as notícias internacionais de povos desterrados de seu país de origem e dizimados pela fome, ele decide que deveria mostrar ao mundo o que considerava a, “desonestidade política brutal”, como causa do problema na região africana do Sahel, mais especificamente na Etiópia.
Seguindo com Médicos Sem Fronteiras, percorre campos de refugiados e constata que ali “morrer é uma continuação da vida, e que as pessoas acostumam-se a morrer”.
Suas fotos registram as pessoas em profunda agonia morrendo pela fome e seca, e ele pretende, com tais registros, levantar questões sobre essas causas, que afirma “não são por catástrofe natural, são por questões de partilha”.
Suas fotos, todas aqui registram a dor infligida de um humano, sobre o outro por questões de interesses político-financeiros. Destaca-se a foto do menino com seu cachorro, magros e desnutridos, ambos mantêm-se eretos e dignos em uma comovente cumplicidade. Uma imagem solitária na savana a mostrar a capacidade de resistência do humano e a solidariedade e parceria como força mantenedora.
Observamos um Sebastião esperançoso de que, sobre o humano, vença esta força interior, a do amor!
4- Workers – 1986 – 1991
Para fazer uma homenagem aos homens que constroem o mundo e talvez reforçar sua esperança na espécie humana, Sebastião visita mais de vinte países.
Aqui estão seus registros da vida de uma horda de mineradores em Serra Pelada, interatuando em uma desordem que nada tinha de caótica em busca de uma ilusão de riqueza, desde onde se tornavam prisioneiros de si mesmo e da condição subumana existencial a que se impunha em nome desta ilusão. Este registro fotográfico é um dos mais impressionantes trabalhos da captação, do imaginário de um humano e até onde ele pode levar!
Nesta obra estão também os seus trabalhos de registro da insana ação humana de apagar o fogo dos poços de petróleo no Kwait em 1991, cujos poços haviam sido incendiados por Saddan Hussein em represália a sua derrocada no país. São comoventes as fotos de pássaros, cavalos e homens cobertos de petróleo, bem como poços ardendo em chamas e os cenários de fogo e fumaça.
Sebastião aqui demonstra a sua imensa esperanças na condição humana e sua força interna construtiva!
5- Êxodos – 1993 – 1999
Este é o seu mais longo e doloroso depoimento. Sua figura projetada na tela atinge uma fantástica e etérea imagem! É a mais impressionante imagem do documentário e faz frente a sua própria obra como fotógrafo.
Trata-se do testemunho, do deslocamento de populações inteiras devido à guerra, fome e ou perseguições políticas. É uma viagem pela Índia, Paquistão, Tanzânia, mas é em Ruanda na África que ele se defronta com a catástrofe do genocídio.
Assiste e registra um êxodo de dois milhões de pessoas fugindo de Ruanda, e nessa fuga, a morte de doze mil a quinze mil pessoas diariamente. Assiste chocado a um mesmo povo de um mesmo país, tais como os tutsi e hutus, matando-se uns aos outros em ondas de movimentos políticos.
Observa, entretanto que entre povos considerados mais ricos e culturalmente mais evoluídos, existe o mesmo comportamento, quando registra na Iugoslávia a luta mortal entre sérvios e croatas, onde vizinhos de anos passam a atacar e matar vizinhos, em um confronto inter-racial ilógico.
Ferido mortalmente em sua crença no humano, Sebastião Salgado afirma: “todo mundo deveria ver essas fotos para ver como é terrível a nossa espécie.”
Seu rosto contra o fundo preto em sua fala mansa e dolorida dá o testemunho de sua profunda desilusão com os humanos. É uma desilusão que não é mais somente política, é uma desilusão abrangente e contundente com a espécie humana.
A escavadeira recolhendo corpos nas colinas, o massacre na Igreja e na escola são fotos que ele quer que todos vejam, para ver o “quão terrível é nossa espécie”. Ferido mortalmente em sua crença no humano ele finaliza:
“Eu sai de lá sem acreditar em mais nada. Sem acreditar na salvação da humanidade. Não se podia sobreviver a algo assim”.
É o registro do humano à sua humanidade, a agressividade e ferocidade como parte de sua essência.
6- Genesis – 2004 a 2013
Em um recuo de si mesmo diante do que vê como essência do humano, Sebastião Salgado volta para o Brasil, para suas origens, às terras de sua família. No lugar da verdejante e vicejante fazenda de sua infância, encontra uma terra ressequida e árida roubada da beleza e riqueza da Mata Atlântica.
Sua mentora e sempre parceira, tal como em toda obra do marido lança-se com ele em um novo projeto, o de replantar a Mata Atlântica nestas terras.
Tal empreendimento limpa e cura as feridas e o relança de novo à crença na vida pela integração do homem com a natureza, e o lança a este novo projeto.
O casal viaja durante dez anos há cerca de trinta países e resulta nessa grandiosa obra, atualmente exposta no Mon e cuja curadora a divide em cinco partes:
a) Planeta Sul
b) Santuários
c) África
d) Terras do Norte
e) Amazônia e Pantanal
É um projeto que se inicia com a idéia de denunciar a destruição e se torna uma homenagem ao planeta. É o registro de mundos que quase certamente só conheceremos através de seu olhar, um olhar que resgatou a paixão, a paixão pela natureza. É um emocionante registro da vida de povos e animais. A majestosidade dos animais, a pata da iguana tal como um guerreiro medieval, o gorila em seu olhar doce e amoroso, a baleia em sua dança amistosa! O esplendor da natureza no registro do mundo branco e sem horizonte do Círculo Polar Ártico. A imponência dos Nenets em seu primitivismo sublime!
Sua salvação, nossa salvação, o belo ressurgido em sua obra, o belo da vida, de nossas vidas! Homens e natureza integrados em harmonia majestosa, o ápice da criação, o fim essencial do humano, seu apogeu! O redespertar de sua esperança, de nossa esperança! A esperança da vitória do bem e do belo!
“Persona”, personagem e narrador se fundem e refundem e sua fala mansa anuncia; saída de uma impressionante figura que se projeta tal como se um fantascópico a houvesse projetado, e se crava diretamente em nossa mente, para sempre!
“Somos animais ferozes!
Somos extremamente violentos!
Nossa história é uma história de guerra!
História sem fim!
História de repressão!
História Louca”!
Sebastião salgado – O sal da terra 2014
Uma outra voz, através dos tempos de sua obra perene se faz ouvir claramente:
“Os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que, no máximo, podem defender-se quando atacadas; pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos devem-se levar em conta uma poderosa dose de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é para ele não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta satisfazer sobre ela a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem seu consentimento apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Quem em face de toda sua experiência de vida e de história terá coragem de discutir essa asserção via de regra essa cruel agressividade espera alguma provocação ou se coloca a serviço de um outro intuito. Quando as forças mentais contrarias que normalmente a inibem (agressividade) se encontram fora da ação, ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem a quem a consideração para com a sua própria espécie é algo estranho. Quem quer que se lembre dos homens da recente guerra mundial, terá de se curvar ante a verdade dessa opinião”.
“A existência da inclinação para agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo. Em conseqüência dessa mútua hostilidade primaria dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração”.
Freud 1927-1931 – O mal estar da civilização
Dois homens, dois tempos, um mesmo percurso, parceiros atemporais na observação da dimensão do humano em sincronia perfeita, desde onde do humano a sua humanidade se mostra como a sua mais verdadeira faceta, a da agressividade. A mesma fala, enquanto um registra fotograficamente seu testemunho, o outro testemunha e interpreta a luz de uma única teoria possível de compreender a dimensão do humano, à agressividade como um destino da pulsão, para a qual não haverá fuga, senão pelo reconhecimento e enfrentamento de sua própria verdade entanto humano!
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