Quase santa… – por Rosana Serena

Eu lhe telefono e lhe pergunto como está…

E com a voz suave e terna que penso terem os seres angelicais ela me diz a que está em paz, na santa paz!

Beatitude transcendental entrecortada por uma grave dispnéia!

Comovida e um tanto surpresa me pergunto como isso é possível em meio a tanto sofrimento físico.

Em sua quase total falência pulmonar ela tira e retira o respirador para poder fumar. Diz que nasceu para isso entre uma tragada e outra que sente-se feliz.

Sua condição cardiológica é grave, os membros inferiores enegrecidos denunciam a falta de circulação sanguínea, mas não faz caso disso. Quase não se movimenta, pois o esforço para as tarefas rotineiras já não pode mais executar devido à dificuldade respiratória, mas isso não lhe afeta, sente-se aliviada do peso da rotina.

Sempre fora um tanto preguiçosa e por isso nunca fizera exercícios ou exercera qualquer atividade profissional.

E fato que alegre e bem disposta sempre gostara de viajar e se relacionar, mas anulara-se na sua posição de dona de casa. Função que exercia contrafeita, mas com certa destreza.

Sempre se rebelara contra a posição feminina que considerava de subjugação total à posição masculina. E, no entanto sempre consentira nas exigências descabidas do marido principalmente no que se referiu ao corte total com sua família de origem.

De aparentemente fortes posições na vida, se rebelou e combateu o julgo do marido sobre ela, até que se aquietou e supostamente aceitou seu domínio.

Há anos fora avisada do princípio de sua doença, mas jamais pensou em abrir mão do que considerava um grande e o único prazer na vida: Fumar!

Recentemente seu estado tem agravado, mas ela diz que sente-se bem, pois passou a fase de questionamentos e de ter que responder a qualquer exigência dos outros e principalmente de seus familiares.

Assustados com seu estado o marido e as filhas tem lhe poupado de qualquer esforço mínimo, e ela vive rodeada desses anjos presentes dos quais sente estar no colo.

Vejo-a como ultimamente a vi, sentada a uma cadeira com os olhos brilhantes entre risos e imensa falta de ar, contando-me histórias engraçadas.

Imediatamente e enquanto conversamos alegremente, se insiste em minha mente a imagem da escultura de Bernini, O Êxtase de Santa Tereza.

Gian Lorenzo Bernini, um dos maiores escultores do século XVII, representa nessa obra de expoente máximo do estilo barroco, a experiência mística de Santa Tereza de Ávila. O conjunto escultórico mostra a Santa languidamente semi- deitada sendo trespassada por uma seta de um anjo em agonia e êxtase.

Essa magnífica obra se encontra em um nicho em mármore e bronze dourado na Capela Cornaro na Igreja de Santa Maria della Vittória em Roma. Experiência mística no limite indistinguível da dor e do prazer, perfeitamente capturada na obra do mestre!

A grandiosidade da obra se mostra para além do perfeito estilo barroco, na exata captura da experiência dessa comoção. Ela própria relata sua experiência:

_ “A dor foi tão grande que gritei e ao mesmo tempo senti uma doçura tão infinita que desejei que a dor durasse para sempre”.

A Madre Tereza de Jesus, nascida Teresa Sánchez de Cepeda y Ahumada, era uma nobre espanhola que abandonou a riqueza para atender aos pobres.

Foi criada pela mãe para ser uma piedosa cristã, era fascinada pela vida de santos principalmente dos mártires, aqueles que morrem pela fé, por perseguições religiosas.

Entrou para o convento Carmelita da Encarnação em Ávila onde nascera, e logo discordou do que considerou uma relaxante do espírito e da prática da oração, exatamente pelo enclausuramento frouxo e visitação livre de figuras ilustres ao convento.

Decidiu fundar um Carmelo reformado, assim chamado um convento Carmelita. Ali o princípio era o da pobreza absoluta pela renúncia de todos os bens materiais.

Ela estabeleceu em seu convento a mais estrita clausura e silêncio absoluto. As religiosas vestiam hábitos toscos e usavam sandálias, daí a denotação de irmãs carmelitas dos pés descalços.

Provavelmente ela sofreu de malária durante muitos anos. Enfrentou sua enfermidade com exames de consciência e contemplação interior e exercícios de oração mental. Quarenta anos após sua morte ela foi canonizada pelo papa Gregório XV.

No estágio final de sua doença ela acreditava na sua própria impotência em confrontar o pecado. Passou a infligir a si própria diversas torturas e outras formas de mortificações, Teresa se convenceu firmemente que Jesus Cristo teria aparecido para ela de corpo presente. Estas visões continuaram por mais de dois anos ininterruptos e, numa delas, segundo ela, um serafim trespassou repetidamente seu coração com a ponta inflamada de uma lança dourada provocando nela uma inefável dor espiritual e corporal:

_ “Eu vi em sua mão uma longa lança de ouro e, na ponta, o que parecia ser uma pequena chama. Ele parecia para mim estar lançando-a por vezes no meu coração e perfurando minhas entranhas; quando ele a puxava de volta, parecia levá-las junto também, deixando-me inflamada com um grande amor de Deus. A dor era tão grande que me fazia gemer; e, apesar de ser tão avassaladora a doçura desta dor excessiva, não conseguia desejar que ela acabasse…

 

No seminário XX, Mais, ainda de Lacan está estampada na capa a imagem fotográfica da escultura de Bernini que não seria por acaso, se não por uma escolha dos editores bem própria para o tema que se propunha Lacan, tratar àquela época.

Lacan diz: “basta que você vá olhar em Roma a estátua de Bernini para compreender logo que ela está gozando, não há dúvida” [1].

Paroxismo da dor na exacerbação de um júbilo espiritual e dito assim, encontrarmos a similitude da situação psíquica em nossa personagem, que na asfixia mortal diz que está em paz, “na santa paz”. Alegria intensa, júbilo, êxtase tem a característica de um excesso, um excesso que ultrapassa o bem do sujeito.

Comecemos do início:

Em 1911, em Formulações Referentes aos Dois Princípios do Funcionamento Psíquico, Freud descreve que o que governa a atividade psíquica do sujeito está submetido ao princípio do prazer. Principio inconsciente pelo qual o psiquismo se pauta pela operação de evitar o desprazer e buscar o prazer.

Logo se faz necessário reconhecer um segundo princípio, o princípio da realidade que suplantaria o do prazer, na medida em que o sujeito precisará a fazer acertos e adaptações para encontrar seu equilíbrio. O princípio da realidade, portanto se contrapõe, mas não contradiz o princípio do prazer na medida em que a direção ainda é obter prazer, mas encontrando o melhor caminho.

Em Além do Princípio do Prazer, em 1920 Freud descreve a compulsão a repetição, como o que não desaparece e que se insiste, e isso denota que o inconsciente não pode ser reabsorvido na homeostase do prazer, ou seja, o inconsciente não obedece ao princípio do prazer, e que mais que isso, transgride a esse princípio.

“Freud não conceituou o gozo, mais definiu o seu campo, que ele situa mais além do princípio do prazer regulando o funcionamento do aparelho psíquico, no qual se manifestam como prazer na dor, fenômenos repetidos que podem ser remetidos à pulsão de morte.”[2]

Freud nos esclarece que o homem pode procurar a dor como prazer, e ele distingue no Problema Econômico do Masoquismo de 1924, o masoquismo primário erógeno, como modo de excitação sexual caracterizando-se pelo prazer da dor. Ou seja, a dor e o desprazer podem ser fontes de uma satisfação em si mesmo. Cabe ainda ressaltar que prazer e desprazer são sentimentos e, portanto conscientes, essa satisfação que não se rege pelo princípio do prazer é de nível inconsciente.

Daqui para frente é claramente distinguível que o que satisfaz o sujeito no nível consciente não é o que satisfaz no nível inconsciente. Mas fundamentalmente o que satisfaz o sujeito no nível inconsciente é sentido como desprazer pelo eu. Esses sendo sentimentos serão termos ligados ao consciente, e para falar da satisfação inconsciente Lacan utilizará o termo gozo.

Lacan conceitua o gozo a partir do Seminário A Ética da Psicanálise em 1960. Lacan introduz seu conceito de gozo fazendo referência ao que no direito se chama de usufruto, que quer dizer que quando temos usufruto de uma herança podemos gozar dela. O que Lacan chamará de gozo é a satisfação inconsciente que será sempre uma perturbação naquilo que dá prazer ao sujeito, portanto o gozo é sempre problemático para o sujeito.

No caminho indesviável de seu gozo o sujeito se encontrará necessariamente com o seu sofrimento, pois este, o gozo, se opõe a felicidade do sujeito. O que determinará a história do sujeito com seu gozo particular e único é o recalcamento. O sujeito renuncia a suas satisfações pulsionais, e dessa renúncia haverá um retorno recalcado como sintoma, cujo o correlativo é o gozo.

Não é, portanto pela emergência de um prazer que se manifesta legitimamente o inconsciente, mas antes por um sofrimento. No entanto, o sujeito de seu gozo não poderá nada saber. Dele se queixará, sem sequer poder reconhecê-lo. Para bem situá-lo façamos a citação de três frases bastante esclarecedoras:

“O gozo que não é o prazer, é nocivo para o sujeito, porque está no princípio da sua abolição” [3].

O gozo está para o sujeito bem próximo do horror, pois “lá onde você sofre é lá que você mais goza” [4].

“Quem conquistou o gozo torna-se um idiota[5].”

A busca do sujeito de sua verdade refere à compreensão de seu desejo e ao real de seu gozo. Inexoravelmente no caminho da vida o sujeito se deparará com o seu gozo, em cujo labirinto o sujeito se tornará prisioneiro cativo, caso não encontre a saída.

Qual a saída?

O desejo deve ser conquistado e reconhecido pelo sujeito e este caminho deverá ser feito no passo contíguo do gozo para o sujeito ascender inversamente a ele, ao seu próprio desejo.

O reconhecimento da castração será o esvaziamento desse gozo e o que restará e o que se chamará de desejo, que precisará ser conquistado para que o sujeito encontre uma satisfação possível e uma possibilidade de vida, sem que idiotamente precise se entregar a morrer subjetiva e ou objetivamente em nome do gozo.

 

 

 

 


[1] LACAN, J.,  “Mais ainda “,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro, 1985, pag. 103

 

[2] VALAS, Patrick. As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. pag. 07

 

[3] VALAS, Patrick. As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. pag. 34

 

[4] MILLER, Gérard – Lacan – O campo freudiano – Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 1998. pag. 66

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