A Mãe da Gente- ( por Lya Luft)
“ Partindo do princípio de que relações são complicadas, ter um filho( a mais incrível experiência humana), ter de criá-lo para que seja feliz, cuidar de sua saúde, seu desenvolvimento, dar-lhe afeto, bom ambiente, encontrar o dificílimo equilíbrio entre vigiar ( pois quem ama cuida) e liberar ( para que se desenvolva) é tarefa gigantesca. Que a mais simples mãe do mundo possa realizar sem se dar conta, e na qual a mais sofisticada mãe pode falhar de maneira estrondosa, dando-se conta disso, ou jamais pensando nisso.
Nesse universo de contradições, pressões, exigências, variedades e ansiedade em que andamos metidos, qualquer tarefa fica mais difícil, que dirá a de manter concreta e emocionalmente uma família numa relação boa dentro do possível. Os comportamentos de pais e mães se avolumam, as necessidades e exigências de filhos e filhas se multiplicam, as ofertas se abrem como bocas devoradoras, o stress, a pressa, a multiplicidade de tudo nos deixam pouco tempo físico para conviver com alegria ou escutar com atenção e pouca disponibilidade psíquica: também pais e mães estão aflitos.
Se antes o pai chegava a casa à noite cansada, querendo jantar, ler o jornal, olhar um pouco os filhos e a mulher descansar, hoje chegam exaustos os dois: a mãe, além disso, pela constituição biopsíquica com que a dotou a mãe natureza ( para preservação da espécie), e pela culpa que nossa cultura lhe impõe ( ou é uma culpa natural e inevitável), chega duplamente sobrecarregada. Exclui aqui tarefas que parecem banais como olhar roupa, comida, questões escolares dos filhos…
A mãe da gente é aquela que nos controla e assim nos salva e nos atormenta; e nos aguenta mesmo quando estamos mal-humorados, exigentes e chatos, mas também algumas vezes perde a calma e grita, ou chora.
Mãe da gente e aquela que nos oprime e nos alivia por estar ali; que nos cuida, à vezes demais, e se não cuida a gente faz bobagem; é aquela que se queixa de que lhe damos pouca bola, não ligamos para seus esforços, e, mais tarde, de que quase não visitamos; é aquela que só dormem quando sabe que a gente está em casa, e chegou bem; a que levanta da cama altas horas para pegar a gente numa festa quando o pai não está ou não existe, ou já fez isso vezes demais.
A mãe da gente é o mais inevitável, infungível, imprescindível, amável, às vezes exasperante e carente ser que, seja qual for a nossa idade, cultura, país, etnia, classe social ou cultura, nos fará a mais dramática e pungente falta quando um dia nos dermos conta de que já não temos ninguém a quem chamar “ mãe”.
LYA LUFT
( Fonte: http://www.veja.com/) pg.. 26 – 09 de maio 2012