A Morte do Sujeito – Rosana Serena

No mundo moderno ocidental, sob o pretexto de salvaguardar a pureza do sujeito consciente de si, construiu-se uma filosofia oficial apegada à certeza absoluta, princípios intangíveis, e às verdades primeiras totais e acabadas. É a chamada filosofia clássica alemã, ou filosofia idealista do sujeito pensante, que se inicia em Descartes com o “Cogito” racionalismo e encontra sua consagração em Hegel com o idealismo.
Em Descartes o “Eu penso” se impõe como afirmação certa, autocriticamente certa da consciência em ato: em primeiro lugar de sua epseidade (quer dizer do eu), em seguida da sua atualidade viva enquanto puro fato de consciência vale dizer o pensamento revelado pelo Cogito. Este, o homem, se afirma como sujeito pensante consciente do seu objeto de pensamento e consciente de si mesmo. Hegel veio consagrar este ponto de vista, na perspectiva hegeliana o princípio do sujeito consciente se eleva a universalidade da razão não somente como faculdade subjetiva da espécie humana, mas como sistema objetivo de verdade e de realidade verdadeira. O homem se torna certo de si mesmo para além da dúvida metódica e a verdade do consciente se eleva a universalidade da razão.
As três mais importantes críticas para que o homem moderno possa tomar consciência da consciência falsa, ou da consciência como mentira, ou fonte de ilusões, são de MARX, NIETZSCHE e FREUD. Os três podem ser considerados como iconoclastas da consciência na medida em que desmitificam sua ilusão. Instauram uma filosofia da suspeita. O que eles atacam em primeiro lugar é a ilusão da consciência de si. A “consciência de si” retomada por Hegel se constitui no objeto de Marx, nele, a autonomia consciência consciente de si aparece como alienação e passividade, e o discurso dessa consciência pretensamente filosófica, aparece como discurso de uma ideologia dominante. Para Nietzsche o sujeito pensante que consagra e sacramenta uma moral encontra-se habitado não por uma força racional, mas por forças irracionais porque para ele, a moral não é outra coisa senão a linguagem simbólica das paixões; através de sua crítica ele introduz a noção de má consciência ao lado da boa consciência. Freud com o desvelamento do inconsciente, não atinge apenas este ou aquele ponto do projeto filosófico vigente, mas o seu conjunto. A função dessa descoberta é a de propiciar uma ruptura epistemológica no campo das ciências, a partir daí, se instaura uma nova episteme: a verdade não pode mais ser buscada ao nível da consciência, pelo contrário, o saber que contém a verdade é o saber inconsciente.
O corte promulgado pela psicanálise tem função de dupla castração, pois aponta para a falta real como verdade humana, e para o fato de que não há bem que possa cobrir essa falta radical. Esse corte simbólico, no entanto, não se completa, não galga êxito. O homem da ciência, não por acaso, faz um refechamento do inconsciente, uma negação da falta e retorna à sua posição de alienação.
As ciências sociais emergentes oferecem com este intuito seus serviços para obturar, o real como impossível. A falta nominada agora como “problemas sociais” lhes parecem a condição da miserabilidade humana, solucionável pela justiça e igualdade social. A psicanálise, ou dito melhor, sua descoberta, deve cair sob o recalque a fim de salvaguardar a ilusão de preenchimento do vazio e a certeza do sujeito consciente de si mesmo.
As ciências humanas recém-nascidas de um golpe sob o narcisismo humano acabam por constituir-se como um novo significante para dar conta do real da falta tão dolorosamente apontada pela psicanálise e, por isso, acabam por se constituir na aplicação de determinadas técnicas a uma ideologia das relações sociais. O conjunto complexo de tais técnicas tem como objetivo essencial responder diretamente a demanda social, tendo em vista uma adaptação do homem à sociedade. Ou seja, afirmam como possível o bem do homem na forma do bem-estar social. Seu desafio é descobrir o sentido da ação humana e para tanto incorpora a noção de inconsciente como o irracional desconhecido da ação humana, propugna que se busquem as razões inconscientes do ato humano para se descobrir o sentido de tal ação.
Resta-nos perguntar quem é o sujeito de tal ação? Desde Freud há um novo sujeito, aquele que não pode ser um. O sujeito não pode ser concebido como uma unidade única e titular, mas sim como efeito de uma dupla divisão que o constitui, divisão pelo significante e pelo objeto: “Clivado pela linguagem, efeito de linguagem, o sujeito é, também, simples efeito de perda.”l Se trata aqui de definir o sujeito advindo de uma operação do significante em que algo suprime o “ser” do sujeito, operação em que o objeto “a” se destaca para sempre perdido, ao mesmo tempo em que o sujeito cai sob a lei do significante. Sujeito barrado, sujeito do inconsciente, sujeito representado pelo significante, porém impontual e ilocalizável porque não há um último que possa representá-lo.
E em que lugar vamos encontrar o sujeito no campo das ciências humanas?
No lugar do morto, daquele que não fala, pois quando fala não pode ser ouvido, entretanto tal esforço não considera a incidência da linguagem em sua decifração do inconsciente. Inconsciente plasmado por recalques metafóricos, organizado e fundado a partir do Discurso do outro, sob a lei do significante ou para dizer melhor com Lacan (2) “o que se chama o inconsciente são os significantes em ação”.
O sentido então não pode preexistir ao efeito combinatório das cadeias sintagmática e paradigmática, pois o significante define um lugar de cuja confrontação com outros surge o sentido fonte de toda materialidade no inconsciente.
É necessário refazer a cadeia significante para que o sujeito produza um saber a partir da verdade que só se encontra nas formações do inconsciente, e isso só é possível quando o sujeito fala.

Se as ciências ditas humanas em sua evolução desconsideram esse fato, o fato do sujeito barrado poderiam ser consideradas humanas? Se desconsideram a verdade do inconsciente sob a lei do inconsciente significante podem ser consideradas ciências? Seria de se estranhar que se fale em morte das ciências humanas posto que o sujeito nelas só se encontra como ausência?…

BIBLIOGRAFIA

1 JAPIASSÚ, Hilton. Nascimento e Morte das Ciências Humanas, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982

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