Um Aporte Reflexivo à Leitura do Inconsciente – Arte de Salvador Dali – por Rosana Serena
O inconsciente fala?
O inconsciente fala em sonhos, atos falhos, chistes e sintomas. Fala segundo a sua lei de condensação e deslocamento, a serviço do recalcamento, portanto, cifradamente. Sua mensagem está aprisionada a significantes, que deslizam incessantemente, ora um tomando a carga da representação de outro, ora outro pesadamente carregado de um conjunto de representações. O resultado é uma aparente balbúrdia, incoerente e irracional, onde de fato não se pode desde um interpretação, segundo uma lógica formal compreender o sentido da mensagem. Porém, se tomarmos a própria lei de funcionamento do inconsciente, poderemos a partir dos significantes e suas associações a outros significantes, percorrendo a cadeia mentonímica, fazendo as paradas obrigatórias no ponto de entrelaçamento deste puro e infinito deslizamento com a cadeia metafórica, recuperar passo a passo a significação elidida.
O equivalente onírico inconsciente está na arte de Dali como o sonho para o sonhador. Ele mesmo define sua arte: “minha pintura não é mais do que uma fotografia a cores e a mão de imagens superfinas extrapictóricas de irracionalidade concreta”. Encantado com a teoria freudiana se compromete teoricamente e tecnicamente com o que chama de automatismo -do- inconsciente, e , quer em sua obra sem indagar o por que ,ou como, produzir pictoricamente imagens que lhe ocorram. De fato constrói suas telas como cenas de um sonho e devido ao caráter impactante de suas elaborações imagéticas somos convidados a partilhar com Dali, um pouco mais além do conteúdo onírico de suas obras. Ele dá a pista, arma a cilada, quando sobre o Enigma de Guilherme Tell afirma: “Guilherme Tell é o meu pai e eu a criança que ele tem no colo e que em vez da maçã na cabeça tem uma costeleta que ele quer comer”. Esta interpretação pessoal é rara em sua vida e obra, mas este é o exato ponto de captura, de uma interlocução ao outro, desde onde somos convidados a participar da possibilidade de deciframento de sentido.
O caráter de suas produções é pleno de alusões sexuais e escatológicas e ao longo de toda a sua obra, há signos que se repetem insistentemente, que se deslocam e se condensam perceptivelmente, na composição de cada trabalho. Os temas tipicamente dalinianos sempre presentes em sua obra são o gafanhoto, o leão, seixos, caracol, lábios, formigas e alimentos. Poderíamos então, tomar esses signos como ponto de partida para uma interpretação do inconsciente do artista, ou do sentido de uma única produção artística? Poderíamos dizer mais, além da própria interpretação racional que ele faz disso? Esse passo mais além nos é possível mesmo a convite do artista?
Dali monta a cena e o cenário, monta armadilha e nos convida a supostamente partilhar com ele seu inconsciente, que ele magnificamente parece escancarar. e oferecer à interpretação do sentido. E quase impossível não ouvirmos que algo em sua arte grita demandando sentido, mas poderíamos por isso compreender além do próprio grito ensurdecedor?
A escuta de sempre tão particulares signos, não pode ser efetuada sem o sujeito do inconsciente, dirigido a um Outro, em um trabalho árduo de transferência, traduzindo imagens em signos, de significante a significante, em busca da significação, verdade do sujeito que está em jogo e sobre a qual este deve se indagar.
Dali não se submete a tal esforço, não se indaga e nem permite tal indagação, se ausenta como sujeito de sua própria cena, fecha o acesso ao simbólico, e refecha seu inconsciente em seu sintoma do qual nada quer saber, quando toma posição: “Gala me curou”… “Não me perguntem o sentido do que faço. Só o que toco e o que como faz sentido para mim”.
Cenas de um sonho, imagens magnificamente construídas, legítimo material para a análise carregado de sentido eclipsado mas cuja via de acesso está bloqueada pelo próprio sujeito.
E, da promessa de se vir a decifrar algo, fica uma impossibilidade, e do sentido resta uma ausência.
Sim! O inconsciente fala, ou até mesmo grita desesperadamente como na produção daliniana mas nem por isso ele pode ser ouvido.
BILBIOLGRAFIA:
Freud, S.(1900) A Interpretação dos Sonhos, Edição Stander das Obras Completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro 1972,Imago editora, vol. IV e V
minha amiga que qualidade de artigos e com seu intelecto fica leve a leitura espero ler muitos parabéns pela nova etapa blogueira.bjos
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