Garoto Bonito – por Rosana Serena

Ei psiu, garoto bonito olha para mim!

Sim você, garoto bonito, de fundos olhos verdes, cravados na pele morena, o que não dá certo?

Sim, é com você mesmo… Sempre em feroz atividade, por que não foi dessa vez?

Você mesmo, tão belo e atraente, por que ela te deixou?

Mais uma vez é com você, fiel e solidário amigo, por que se foram todos?

Você rapaz de tantas possibilidades perdidas e não realizadas, o que te aconteceu?

O que foi da promessa de ser um grande esportista, não cumprida?

O que foi do sucesso profissional, nunca concretizado?

O que foi do caminho de ser um grande músico, não trilhado?

E, por que aquele outro com tão poucas habilidades alcançou o sucesso, que você tanto almeja?

_ Destino, determinação divina, sorte! Você magoadamente me responderia, aliás, a mágoa raivosa que você conhece tão bem, é o que sempre se concretiza.

Menino bonito eu quero te dizer, que aí onde você fracassa, fracassaram tantos outros, na possibilidade de alcançar o sucesso.

Aqueles tantos, para quem o sucesso traz uma dimensão neurótica da repetição do fracasso; incessante fracasso que está a dizer algo.

O que garoto, você não pode suportar no sucesso?

Por que, garoto bonito, o sucesso é tão temido?

Por que você nem sequer sabe disso?

A resposta tem que ser procurada no reverso do caminho, caminho árduo a ser trilhado.

Olhe para dentro de você, e tente saber por que você não pode sustentar nenhum sucesso.

Garoto de tantas possibilidades, que se concretizam em nenhuma.

Sinto tanto, e nada posso por você fazer!

A não ser pedir! Olhe para dentro de você.

E eu fico aqui, torcendo para te ver bem um dia.

Em Inibição, Sintoma e Ansiedade no estudo da neurose obsessiva encontramo-nos de maneira mais evidente o sintoma como a significação “de uma satisfação substitutiva que amiúde aparecem como disfarce simbólico” [1].

O que vale dizer neste caso, que as experiências da infância de satisfações pulsional, serão acompanhadas de um intenso prazer e que haveria por isso um recalcamento como defesa a fim de manter o equilíbrio do aparelho psíquico.

A formação de sintoma na neurose obsessiva logra seu triunfo ao combinar proibição com satisfação, e o que era originalmente uma ordem defensiva ou proibição, acaba adquirindo também a significância de uma satisfação.

O sintoma é um sinal substituto de uma satisfação instintual que permaneceu em estado jacente, é uma conseqüência do processo de repressão[2]·. Ou seja, a satisfação pulsional encontra um substituto, o sintoma, que mesmo sob máscara ou disfarce, provocará a luta continuada contra a demanda pulsional de satisfação.

Para o neurótico obsessivo o sucesso pode comportar um quantum de prazer que perigosamente, poderá pô-lo em contato com o que ele laboriosamente e cuidadosamente recalcou.

Enfrentamento que ele não poderá suportar!

Sucesso que ele não poderá sustentar a não ser como revogação de sua satisfação pulsional!

Fracasso repetido que sustenta a denegação!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] FREUD, S., (1925-1926). Inibições Sintoma e Ansiedade: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XX. Rio de Janeiro,1976, pg. 135

[2] FREUD, S., (1925-1926). Inibições Sintoma e Ansiedade: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud. v. XX. Rio de Janeiro,1976, pg.112

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