A princesa que não vestiu o sapatinho de cristal – por Rosana Serena

Irascível, diríamos dela!
Insuportável em sua grandiloqüência que se aproxima de um solilóquio. Ela de fato fala de si e para si o tempo todo. Sua fala é sempre uma acusação explicita ou implicitamente. Condenatória em sua cobrança de atos de solidariedade que não sabe ter. Solene em suas reivindicações amorosas de um amor que não sabe dar. Beligerante na exigência de um reconhecimento que não sabe trocar. Esgota-se nessas exigências!Vive cansada!
Imaginariamente se vê em um palco onde é a atriz principal, mas cuja platéia inadvertidamente não lhe aclama a interpretação. Encena como que diante de um espelho no qual mantém fixo o olhar. Encenação desgastante a espera de um reflexo que não vem, pois o que procura é ver refletida a sua imagem de princesa.
Enraivecida ela insiste na interpretação exagerada da cena. Entre um ato e outro, entra e sai do palco aos trambolhões, batendo a porta da coxia, fazendo temerariamente balançar todo o cenário. Histriônica que é, faz questão de empostar sua voz de forma estridente e dramática, a fim de ficar bem entendida a sua fala. Protagonista canastrã, má atriz de um drama escrito por ela mesma.
Sua pequena platéia vai deixando o teatro aborrecida que está, em assistir a mesma repetida tragicomédia que se desenrola nesse palco imaginário. Quem pagou para ver pede reembolso do ingresso. Resta-lhe como público assistente, cadeiras vazias e seus pares familiares que não puderam encontrar a porta da saída de seu próprio mal-estar. Em seu último ato, condena a má conduta do pequeno público ainda presente e exige seu aplauso.
Desce o pano!Voltemos ao começo desse drama teatral. Qual é o enredo?
Ela nasceu princesinha em um castelo encantado numa mágica nuvem amorosa. E foi tão amada, e foi tão excessivamente presenteada por todos que faziam parte dessa corte imperial de seus pais.
“Princesinha”, lhe diziam mesmo que com a boca não o fizessem. Você é a mais bela personificação do perfeito. Você há der ser reconhecida em toda essa dimensão de gloriosa de sua perfectibilidade. A você, nada lhe faltará! E ela acreditou em todas essas profecias que ficaram fortemente encravadas em seu “coração-psíquico de princesa.”
E a profecia se concretizou em sua infância de quartos ricamente decorados com todas essas fantasias coloridas. Sentia-se a girar, tonta como pião, nesse mundo de sonhos e encantamento, com os súditos paternos sempre a lhe fazerem a corte.
Sua juventude, no entanto, teve outras cores, foi se desfazendo a estorinha infantil na medida em que lhe ruía o castelo, desaparecia-lhe a sua corte e o seu trono de princesa. Mas é preciso que se diga que ela não desistia nunca de se reencontrar com esse seu lugar, desde onde sempre se viu a reinar.
E a maturidade se fez mais amarga ainda esboroando-se como as remanescentes ondinhas na areia da praia, sua ilusão de ser o que nunca fora. Não existiam castelos! Não existiam princesas!Nem sequer um pequenino trononinho! Apenas o mundo real tão feio em suas cores.
Lhe restou uma saída, um último recurso: reescrever sua versão do real. Montou o seu cenário se fez protagonista e encenou seu próprio script. Do centro do seu “palco – palácio” ela interpreta a cena, fixada no olhar do público desde onde espera uma confirmação, mas nesses olhos não vê refletida a sua imagem de princesa. Imagem invertida de como se vê, espelho quebrado, despedaçando sua alma se irrompendo em ira. Impossibilidade imagética que ativam o vulcão donde lavas incandescentes se atiram sob seu pequeno público familiar que corre em fuga de auto- preservação.
A majestosa interpretação de si mesma lhe faz ridícula atriz de uma peça ruim. E o teatro, fica completamente esvaziado, quem sai apaga as luzes e fecha a porta, e ela fica absolutamente só, trancada no teatro vazio. Sentimento de dor, abandono geral é seu aplauso final.
É chegada a hora de descer do palco imaginário, desmantelar o cenário, despir as vestes egóicas de princesa, desvestir o manto dos ideais narcísicos de perfeição para personificar-se como simples humana que é! Ou, será sempre a amarga e infeliz princesa em quem não coube o sapatinho de cristal.

3 Comentários

  1. sandra
    mar 28, 2014

    Nossa que lindo, como vc escreveu,tem palavras que eu nem conheço. Mas a história,tão verdadeira,que vi na minha frente,uma pessoa que cabe bem este post. Continue escrevendo,assim vc lava a alma.Triste,mais encantador.
    bjosss

  2. Roberta Serena
    mar 28, 2014

    Mãe, que texto mais lindo e amargo! Será que entendi? Acho que sim! Estou aos prantos!! Amo vc e amo sua sabedoria!!
    Bjoo

  3. Rosemary
    mar 30, 2014

    Rosana… que perfeiçáo sua descriçáo do imaginário papel que ás vezes todos nós nos colocamos, nos esquecendo que o que somos e para que somos, está diretamente conectado ás demais pessoas com quem convivemos e dependemos tanto…Lindo texto!!!!!! Amei…

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