O sujeito pensante – por Hilton Japiassú

O sujeito pensante não é aquele que poderíamos acreditar, vale dizer, não é aquele no que acreditava a filosofia clássica da Consciência, O homem que reflete, que estuda, ultrapassa seus conhecimentos. O sujeito, aquele que é autor do conhecimento percebe que, como sujeito consciente, ele está deposto. O que se quer dizer é que não se nega que a consciência seja capaz de validar o ato do pensamento. O que não consegue fazer é validar o ser do sujeito. A constatação pós hequeliana (Marx -Nietzsche -Freud) é uma comprovação da dissociação estabelecida entre a validade do “penso” e a certeza do “existo”.
A respeito disso, Foucault escreve: “o discurso que no século xvii ligou um ao outro, o “penso” e o “existo” daquele que o empreendia, que tal discurso permaneceu sob uma forma visível, a essência é mesma da linguagem clássica porque o que se vinculava a ele, de pleno direito, eram a representação e o ser. A passagem do “penso” ao “existo” realizava-se sob a luz da evidência, no interior de um discurso de que todo domínio e todo funcionamento consistiam em articular um ao outro, aquilo que nós representamos e aquilo que é. Portanto, não se deve objetar a essa passagem nem que este ser singular, tal como designado pelo “existo”, não tenha sido interrogado ou analisado em si mesmo. Ou antes, tais objeções podem muito bem nascer e fazer valer seu direito, mas a partir de um discurso que seja profundamente distinto e não tenha por razão de ser o elo da representação e do ser. Somente uma problemática capaz de contornar poderá formular semelhantes objeções. Mas enquanto durou o discurso clássico, não podia ser articulada uma interrogação sobre o modo de ser implicado pelo “Cogito”.
O “Cogito” moderno é tão diferente do de Descartes quanto nossa reflexão transcendental está distanciada da análise kantiana. O “penso” não nos leva à evidência do “existo”. Com efeito, a partir do momento que o “penso” mostrou-se engajado em toda uma espessura onde se encontra quase-presente, que ele anima, mas de modo ambíguo de um despertar sonolento, não é mais possível fazermos decorrer dele a afirmação de que “existo”: será que posso dizer que sou essa linguagem que falo e onde se move meu pensamento, a ponto de encontrar nela o penso de sedimentações que ela jamais será capaz de totalizar inteiramente? Posso dizer que sou esse trabalho que faço com minhas mãos, mas que me escapa, mas antes mesmo de tê-lo empreendido? Posso dizer que sou esta vida que sinto no fundo de mim, mas que me engloba simultaneamente pelo tempo formidável que ela carrega consigo e que me empoleira por um instante sobre uma crista, mas também pelo tempo iminente que prescreve minha morte? Também posso dizer que sou e que não sou tudo isso. O Cogito não conduz a uma afirmação do ser, mas abre-se justamente a uma série de interrogações em que se trata do ser; o que é necessário que eu seja, eu que penso e que sou meu pensamento; para que eu não seja o que eu penso, para que meu pensamento seja o que eu não sou? Portanto o que é esse ser que por assim dizer pisca na abertura do Cogito, mas que não é dado soberanamente nele e por ele?
O que vai, de fato nos interessar é mostrar que nas ciências humanas, se necessita depor o homem enquanto sujeito pensante, igual à consciência de si; o quanto isso se torna evidente no discurso psicanalítico.
Foucault é um dos autores que mais contestam a cientificidade das ciências humanas, o plural que as denomina não é acidental, pois constituem uma pluralidade de discursos. Segundo Japiassú, essa problemática é contemporânea, de um ponto de vista epistemológico, que renunciou ao ideal unitário da ciência. Foucault acha inteiramente desnecessário considerar as ciências humanas como sendo falsas ciências. Pelo contrário, não constituem, em absoluto, para ele, ciências. Vai situá-las fora do estatuto de cientificidade, pois seus modelos são tomados de empréstimo às ciências propriamente ditas. Mas julga que as ciências humanas desenvolvem uma estreita relação com as ciências. O que acontece é que, a percepção epistemológica das ciências humanas é muito diferente, posto que vem sempre marcada pela intervenção do componente filosófico. Não nega que tais disciplinas sejam capazes de possuir um caráter de sistematicidade, de atenção aos fatos, de acordo intersubjetivo dos pesquisadores quanto a certos resultados que lhes confere uma inegável especificidade relativamente a outras práticas sociais.
Afirma, ainda que, restam apenas duas disciplinas, desenvolvidas recentemente, mas que ocupam um lugar privilegiado em nosso universo de conhecimento.
a) A psicanálise.
Enquanto “discurso do inconsciente” e porque toma o homem em sua alienação, enquanto constitui alguém distinto de si. Ela se situa nos limites das ciências humanas que permanecem sempre no espaço do
representável.
b) A etnologia.
Porque se debruça sobre os povos cuja história nos é mais ou menos inacessível e procura os invariantes de estrutura a fim de reencontrar, por detrás das representações, normas, regras e sistema.
Ambas as disciplinas não dizem respeito diretamente ao homem, referem-se a seus limites, podem prescindir de conceito de homem. Dissolvem o homem. E é neste sentido que podem ser apresentadas como contra ciência. Segundo Foulcault, precisamos libertar-nos do sono antropológico, do psicologismo e o sociologismo atual. E é assim que psicanálise e etnologia constituem um princípio de inquietação de questionamento, de crítica do conhecimento que se apresenta como adquirido.
Tentaremos precisar, no que a Psicanálise desempenha o papel de contra- ciência, para tanto voltemos a Foulcault. Para ele, Isso se deve à relação particular que a psicanálise mantém com o que Lei chama de “finitude humana”. Trata-se de uma condição por assim dizer filosófica da psicanálise, “que avança na direção dessa região fundamental, onde se tecem as relações de representação e da finitude”. Quer dizer que a psicanálise vai ao inconsciente “como aquilo que está presente e que se furta que existe com a solidez muda de uma coisa, de um texto fechado sobre ele mesmo, ou de um espaço em branco num’ texto visível e que, assim, defende-se”. O que vai encontrar nessa tentativa, enquanto mensageiras dessa finitude humana, são as figuras da Morte, do Desejo e da lei. Tais figuras não podem encontrar, no interior do saber que prossegue em sua positividade, O domínio empírico do homem. E a razão é porque a Morte, o Desejo e a Lei desejam as condições de todo saber sobre o homem.
Assim, a psicanálise seria menos um saber, que “uma relação com aquilo que torna possível todo saber em geral na ordem das ciências humanas”. Se trata de uma relação “de animação crítica que inquieto, do interior, todo o domínio das ciências humanas” é essa relação que faz da psicanálise uma disciplina que dissolve o homem, não porque descobri-lo melhor e como que liberado, mas “porque remonta àquilo que fomenta sua positividade”.
E neste sentido que a psicanálise se afirma como contra ciência. Não quer dizer que seja menos racional ou menos objetiva que outras ciências, mas que as tomas a contra corrente e as conduz ao seu sulco epistemológico. Em suma, a psicanálise intervém no campo das ciências humanas como portadora de um fator de dissolução quilo que constitui a ideologia, das ciências humanas.
Assim, a psicanálise combate a psicologia, enquanto esta tem a pretensão de ser ciência humana. Porque ao fazer isso ela matematiza o seu objeto, ao qualificá-lo perde sua significação.
Ao instaurar uma crítica a todas as instâncias que se aplicam à idéia de homem, crítica ‘da consciência, crítica do sujeito, crítica do indivíduo, crítica da normalidade, a psicanálise, mais do que faz parte das ciências humanas, tem a missão de situá-las. Segundo Japiassú, “ela atravessa as ciências humanas, mas sem tentar justificá-las. Ela vem mostrar que cientificidade das ciências do homem não pode ser ainda definida de modo unívoco”.

1 Comentários

  1. eebest8 seo
    abr 8, 2016

    Thanks for sharing, this is a fantastic blog.Thanks Again. Fantastic.

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