Melancolia – por Rosana Serena

Para onde ela olhava fitando o infinito?
Onde estava assim tão perdida?
Que mundo distante era esse onde não a podíamos alcançar?
Desde sempre me intrigou como mistério insolvido, aquele seu olhar. Era como que afogado em profundos mares de incompreensíveis mágoas. Era desviado e distante da cena presente que se desenrolava diante dela.
Em sua reclusão silenciosa por trás de seus olhos, onde estaria ela? E lá, distante onde estivesse o que estaria vendo dela? E vendo o que via o que estaria sentindo ela?
Era toda dor e agonia de uma alma ressentida. Mas de que? Dava de ombros desgostamente quando lhe insistiam saber a razão, como se ultraje fosse não lhe reconhecerem o valor de sua dor, e respondia silenciosamente com maior mágoa em seu olhar.
Vivia cansada e exaurida embora raramente se levantasse da cadeira onde passava quieta e quase imóvel o seu dia-a-dia. Não tinha gosto por nada e para nada. Havia anos não saia de casa.
Não se esforçava muito para estar entre os seus e lhes cobrava mudamente a presença como uma carga extra a carregar. E era tão afogado em mágoas aquele seu olhar!
Convocada em sermões enfezados o seu ânimo à vida, ela apenas olhava com aquele seu olhar. Mas se lhe acusava fraqueza de espírito, e de ser sua própria condenação se via acender uma pequena luz naquele olhar fazendo-se reparar num certo regojizar em assim se ver condenar.
Cada vez mais e maior sua quietude passiva me fez desesperançar. E um dia ela sumiu inteiramente atrás daquele seu olhar! Onde estaria ela que nos havia deixado apenas com aquele seu magoado olhar?
Procurei-a em recantos longínquos e nos recônditos escondidos, mas dela apenas encontrei aquele seu olhar. E nos arrabaldes da subjetividade de minha própria vida desisti de tanto lhe procurar. E finalmente esgotou-se o tempo, em que de fato, em algum canto eu a pudesse encontrar.
E foi então que anos depois, emocionadamente, mas não surpresa, reencontrei-me com ela inteira em leituras de textos tão mágicos quanto precisos na elucidação do suceder psíquico de qualquer sujeito humano.
“Os traços mentais distintivos da melancolia são um desânimo profundamente penoso, a cessação de interesse pelo mundo externo, a perda da capacidade de amar, a inibição de toda e qualquer atividade, e uma diminuição dos sentimentos de auto-estima a ponto de encontrar expressão em auto-recriminação e auto-envilecimento, culminando com uma expectativa delirante de punição ”1.
“A melancolia também pode constituir uma reação a perda de um objeto amado. Ainda em outros casos nos sentimos justificados em sustentar a crença de que uma perda dessa espécie ocorreu, não podemos ver claramente o que foi perdido sendo de todo razoável supor que o paciente não pode perceber conscientemente o que perdeu ”2.
E foi assim que se desfizeram um a um os véus do mistério que encobriam, revelando-a penosamente por inteiro. Seu estado era de comoção, profundamente doída, de sofrimento pela mais pura perda, e o espectro fúnebre do que ela nem sabia o que, tomava-lhe inteira pesando-lhe a alma e retirando-a da vida. Sua perturbação consigo mesma, seu desagrado com seu próprio eu, o desinteresse pelo mundo exterior somavam-se ao conjunto e davam-lhe uma particular posição subjetiva.
E lá onde estava fixada firmemente na identificação mortífera com o objeto que perdera, ninguém, jamais a poderia alcançar.
Mas dela ainda trago em meu coração fundamente cravado, aquele seu olhar!…

1 Freud,S., (1914-1916) A história do movimento psicanalítico e artigos sobre metapsicologia, Edição standard  das obras completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, 1974, Imago Editora, v. XIV, p.276

2 Freud,S., (1914-1916) A história do movimento psicanalítico e artigos sobre metapsicologia, Edição standard  das obras completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, 1974, Imago Editora, v. XIV, p.277

5 Comentários

  1. Lelia Camargo
    abr 12, 2014

    Texto perfeito, parabéns.
    Lembrei de pessoas que conheci , a cada linha uma lembrança do olhar, da cadeira do seu dia a dia…..

  2. duwwsoj
    maio 8, 2014

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