É possível ser feliz? A impossibilidade da felicidade.

É minha intenção representar o sentimento de culpa como o mais importante problema no desenvolvimento da civilização, e de demonstrar que o preço que pagamos por nosso avanço em termos de civilização é uma perda de felicidade pela intensificação do sentimento de culpa. Essa afirmação constitui a conclusão final de nossa investigação e pode ser localizada no relacionamento peculiar que o sentimento de culpa mantém com nossa consciência. No caso comum de remorso, esse sentimento se torna claramente perceptível para a consciência. Na verdade, estamos habituados a falar de uma consciência de culpa ao invés de “sentimento de culpa”[1].

Nosso estudo das neuroses nos dá as mais valiosas indicações para compreensão. Numa dessas afecções, a neurose obsessiva, o sentimento de culpa faz-se ruidosamente ouvido na consciência. Entretanto, na maioria dos outros acessos e formas de neurose, ele permanece completamente inconsciente, sem que, por isso, produza efeitos menos importantes. Nossos pacientes não acreditam quando lhe atribuímos um sentimento de culpa inconsciente.

A fim de nos tornarmos Inteligíveis para eles, falamos-lhe de uma necessidade inconsciente de punição, na qual o sentimento de culpa encontra expressão. Mesmo na neurose obsessiva há tipos de paciente que não se dão conta de seu sentimento de culpa, ou apenas o sentem como mal estar atormentador, uma espécie de ansiedade, aqui assinalamos que no fundo o sentimento de culpa nada mais é do que uma variedade topográfica da ansiedade; em suas fases posteriores, coincide completamente como o medo do superego. A ansiedade está sempre presente, num lugar ou outro, por trás de todo sintoma em determinada ocasião, porém toma ruidosamente posse da totalidade da consciência ao passo em que em outra, se oculta tão completamente, que somos obrigados a falar de ansiedade inconsciente. Por conseguinte, é bastante concebível que tampouco o sentimento de culpa produzido pela civilização seja percebido como tal, e em grande parte permaneça inconsciente, ou apareça como uma espécie de mal estar. As religiões pelo menos, nunca desprezaram o papel desempenhado na civilização pelo sentimento de culpa. Elas alegam redimir a humanidade desse sentimento de culpa, o que chamam pecado.

Não é supérfluo elucidar o significado de certas palavras, tais como “superego”[2], “consciência”[3],sentimento de culpa, “necessidade de punição”[4] e remorso. O superego é um agente que foi por nos inferido e a consciência constitui uma função, que entre outras, atribuímos a esse agente.

A função consiste em manter a vigilância sobre as ações e intenções do ego e julgá-las, exercendo sua censura. O sentimento de culpa, a severidade do superego, é, portanto, o mesmo que a severidade da consciência. É a percepção que o ego tem de estar sendo vigiado. O medo desse agente crítico (medo que está no fundo de todo relacionamento), a necessidade de punição, constitui uma manifestação instintiva por parte do ego, que se tornou masoquista sob a influência de um superego sádico, e por assim dizer uma parcela do instintivo voltado para a destruição interna presente no ego, empregado para formar uma ligação erótica como superego. Não devemos falar de consciência até que o superego se ache demonstravelmente presente. Quanto ao sentimento de culpa temos de admitir que exista antes do superego e, portanto antes da consciência também. Nessa ocasião, ele é expressão imediata do medo da autoridade externa, um reconhecimento da tensão existente entre ego e essa autoridade. É o derivado direto do conflito entre a necessidade do amor da autoridade e o impulso no sentido da satisfação instintiva, cuja inibição, produz a agressão. A superposição desses dois estados do sentimento de culpa um oriundo do medo da autoridade externa, outro do medo da autoridade interna dificultou nossa compreensão. Remorso é um termo geral para designar a reação do ego num caso de sentimento de culpa. Contém em forma pouco alterada, o material sensorial da ansiedade que o fere por trás do sentimento de culpa; ele próprio é uma punição, ou pode incluir a necessidade de punição, portanto, ser também mais antigo do que a consciência.

Passemos em revista as contradições que nos confundiram, que alguns têm em determinado ponto o sentimento de culpa era a conseqüência dos atos de agressão de que alguém se abstivera, em outro, porém exatamente em seu começo histórico, a morte do pai constituía a conseqüência de um ato de agressão que fora executado. Encontrou-se uma saída para essa dificuldade, pois a instituição da autoridade interna, o superego, alterou radicalmente a situação. Antes disso, o sentimento de culpa coincidia com o remorso (podemos observar que o termo remorso deveria ser reservado para reação que surge depois de um ato de agressão, ter sido realmente executado). Posteriormente, devido à onisciência do superego, a diferença entre uma agressão pretendida e uma agressão executada perdeu a força. Daí por diante, o sentimento de culpa podia ser produzido não apenas por um ato de violência realmente executado, mas também por um ato pretendido. O conflito entre dois entre dois instintos, ambivalência deixa atrás de si o mesmo resultado. Pode-se pensar que o sentimento de culpa surgindo do remorso por uma ação má deve ser sempre consciente, ao passo que de um impulso mau pode permanecer inconsciente. Contudo, a resposta não é tão simples assim. A neurose obsessiva fala energicamente contra ela.

A segunda contradição se referia à energia agressiva da qual supomos dotado o superego. Segundo determinado ponto de vista essa energia simplesmente continua a energia punitiva da autoridade externa e a mantém viva na mente. De acordo com outra opinião, ela consiste, pelo contrário, na própria energia agressiva que não foi utilizada e que agora se dirige contra essa autoridade inibidora. Uma reflexão mais adequada resolveu essa contradição, o que restou como fator essencial comum foi que, em cada caso, se lida com uma agressividade deslocada para dentro. A observação clínica nos permite de fato distinguir duas fontes para a agressividade que atribuímos ao superego, ou uma ou outra exerceu efeito mais forte em determinado caso, mas em geral operam em harmonia.

Na literatura analítica mais recente, mostra-se uma predileção pela idéia de que qualquer frustração resulta (ou pode resultar) numa elevação do sentimento de culpa. Acho que se conseguirá uma grande simplificação teórica, se encarar isso como sendo aplicável apenas aos instintos agressivos. Como devemos explicar, em fundamentos dinâmicos e econômicos, um aumento no sentimento de culpa que aparece no lugar de uma exigência erótica não satisfeita. Isso só parece possível se supusemos que a prevenção de uma satisfação erótica exige uma agressividade contra a pessoa que interferiu na satisfação e que essa própria agressividade, por sua vez, tem de ser recalcada e transmitida para o superego. Nossa hipótese que os dois tipos de instinto diferencialmente aparecem de forma pura isolados um do outro,

Sinto-me tentado a extrair uma primeira vantagem dessa visão mais restrita do caso, aplicando-as do processo de repressão conforme aprendemos, os sentimentos neuróticos são, em sua essência, satisfação substitutiva para os desejos sexuais não realizados. No decorrer de nosso trabalho analítico descobrimos, para nossa surpresa, que talvez toda neurose oculta uma quota de sentimento inconsciente de culpa, o qual por sua fez fortifica os sintomas, fazendo uso deles como punição. Agora parece plausível formular a seguinte proposição: quando uma tendência instintiva experimenta a repressão, seus elementos libidinais são transformados em sintomas e seus componentes agressivos em sentimento de culpa. Mesmo que essa proposição não passe de uma aproximação mediana da verdade, é digna de nosso interesse.

Alguns leitores desse trabalho podem ainda ter a impressão de que já ouviram de modo demasiado, a fórmula sobre a luta entre Eros e o instinto de morte. Ela foi não só empregada para caracterizar o processo de civilização que a humanidade sofre, mas também vinculada ao desenvolvimento do indivíduo, e, além disso, dela se desse que revelou o segundo da vida orgânica em geral. Só podemos ficar satisfeitos, afirmando que o processo civilizatório constitui uma modificação, que o processo vital experimentava sob a influência que uma tarefa que lhe é atribuída por Eros e incentivada por Ananke pelas exigências da realidade e que, essa tarefa é de unir indivíduos isolados, numa comunidade ligada por vínculos libidinais. O processo da civilização da espécie humana é naturalmente uma abstração de ordem mais elevada do que a do desenvolvimento do indivíduo, sendo, portanto, de mais difícil apreensão em termos concretos, tampouco devemos perseguir as analogias a um extremo obsessivo. Contudo, diante da semelhança entre os objetivos dos dois processos num dos casos, a integração de um indivíduo isolado num grupo humano, no outro, a criação de um grupo unificado a partir de muitos indivíduos, não podemos nos surpreender com a similaridade entre os meios empregados e os fenômenos resultantes entre dois processos. No processo de desenvolvimento do indivíduo, o programa do princípio do prazer, o que consiste em encontrar a satisfação da felicidade, é mantido como objeto principal. No processo de desenvolvimento individual, como dissemos a ênfase principal recai, sobretudo nas premências egoísta ( ou a premência no sentido da felicidade) , ao passo que as outras premências no sentido da união com os “outros altruístas”[5]pode ser descrita como cultural e geralmente se contenta com a função de impor restrições. No processo civilizatório, porém as causas se passam de modo diferente. Aqui de longe, o que mais importa é o objetivo de criar uma unidade a partir dos seres humanos individuais. É verdade que o objeto da felicidade ainda se encontrará aí, mas realizado ao segundo plano. Quase parece que a criação de uma comunidade humana seria mais bem sucedida se não levasse de prestar atenção a felicidade do indivíduo. É apenas na medida em que está em união com a comunidade como objetivo seu, que primeiro desses processos precisa coincidir com o segundo.

As duas premências, a que se volta para felicidade pessoal e a que dirige para união com os outros seres humanos, devem lutar entre si em todo indivíduo, e assim também os dois processos de desenvolvimento individual e cultural têm de colocar-se numa oposição hostil um para com o outro e disputar-se mutuamente a posse do terreno. Contudo essa luta entre o indivíduo e a sociedade não constitui derivado da contradição irreconciliável entre os instintos de Eros e morte. Trata-se de uma luta dentro da economia da libido entre o ego e os objetos admitindo uma acomodação final no individuo.

A analogia entre o processo civilizatório e o caminho do desenvolvimento individual é passível de ser ampliada sob um aspecto importante. Pode-se afirmar que também a comunidade desenvolve um superego sob cuja influência se produz a evolução cultural. O superego de uma época ou civilização tem origem semelhante ao superego de um indivíduo. Ele se baseia na impressão deixada atrás de si pelas personalidades dos grandes líderes homens de esmagadora força de espírito. Essas figuras, ainda que não sempre, mas com bastante freqüência, foram escarnadas e maltratadas por outros e até mesmo liquidadas de maneira cruel. Outro ponto de concordância entre o superego cultural e o individual é que o primeiro, tal como este último estabelece exigências ideais estreitos, cuja desobediência é punida pelo medo da consciência.

No indivíduo quando a tensão cresce, é apenas a agressividade do superego que, sob a forma de censuras, se faz ruidosamente ouvida, com freqüência, suas exigências reais permanecem inconscientes no segundo plano. Se as trazemos ao conhecimento consciente, descobrimos que elas coincidem com os preceitos do superego cultural predominante. Nesse ponto os dois processos o do desenvolvimento cultural do grupo e do desenvolvimento cultural do individuo, se acham sempre interligados.

O superego cultural desenvolveu seus ideais e estabeleceu suas exigências. Entre estas, aquelas que tratam das relações dos seres humanos uns com os outros estão abrangidas sob o titulo da ética.  A ética deve, portanto ser considerada como uma tentativa terapêutica como um esforço por alcançar através de uma ordem do superego, algo até agora não conseguindo por meio de quaisquer outras atividades culturais. O problema que temos pela frente è saber como livrar-se ao maior estorvo à civilização isto é, a inclinação constitutiva dos seres humanos, para a agressividade mútua, por isso mesmo, estamos particularmente interessados naquele que é provavelmente a mais recente das ordens culturais do superego, o mandamento ou amor ao próximo como a si mesmo. Em nossa pesquisa de neurose, somos levados a fazer duas censuras contra o superego do indivíduo. Na severidade de sua ordem e proibições, ele preocupa muito pouco com a felicidade do ego, as forças instintivas id (em primeiro lugar) e as dificuldades apresentadas pelo meio ambiente real (em segundo).

Por conseguinte, somos freqüentemente obrigados, por propósitos terapêuticos, a nos opormos ao superego e nos esforçarmos por diminuir suas exigências. Exatamente as mesmas objeções podem ser feitas contra as exigências éticas do superego cultural. Emite uma ordem não pergunta se é possível as pessoas obedecê-las. Pelo contrário presume que o ego de um homem é psicologicamente capaz de tudo que lhe é exigido, que o ego desse homem dispõe de um domínio ilimitado sobre seu id. Trata-se de um equivoco e, mesmo naqueles que são conhecidos como pessoas normais, o id não pode ser controlado além de certos limites. O mandamento “Ama a teu próximo como a ti mesmo” constitui a defesa mais forte contra agressividade humana.

É impossível cumprir esse mandamento, uma inflação tão enorme de amor só pode rebaixar seu valor, sem se livrar da dificuldade.  A civilização não presta atenção a tudo isso, ela meramente nos adverte que quando mais difícil é obedecer ao preceito, mais meritório é proceder assim. Contudo, todo aquele que na civilização atual, siga tal preceito, só se coloca em desvantagem frente a pessoa que despreza esse mesmo preceito. Que poderoso obstáculo a civilização a agressividade deve ser, se a defesa contra ela pode causar tanta infelicidade quanto à própria agressividade.

Por uma ampla gama de razões, está muito longe de minha intenção exprimir uma opinião sobre o valor da civilização humana. Esforcei-me por resguardar-me contra o preconceito entusiástico que sustenta ser a nossa civilização a coisa mais preciosa que possuímos ou poderíamos adquirir, e que seu caminho necessariamente conduzirá a ápices de perfeição imaginada.

Não tenho coragem de erguer diante de meus semelhantes com um profeta, curva-me a sua censura de que não lhes posso oferecer consolo algum no fundo, é isso que todos estão exigindo e os mais arrebatados revolucionários não menos apaixonados do que virtuosos crentes.

A questão fatídica para a espécie humana parece saber se, e até que ponto seu desenvolvimento cultural conseguirá dominar a perturbação de sua vida comunal causada pelo instinto humano de agressão e autodestruição.

 

Bibliografia:

FREUD, S. (1927-1931). O futuro de uma ilusão (o mal-estar na civilização e outros trabalhos). Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Iamgo Editora Ltda., 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XXI p. 146-171).

 

 


[1] Grifo do autor

[2] Grifo do autor

[3] Grifo do autor

[4] Grifo do Autor

[5] Grifo do autor

1 Comentários

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    abr 8, 2016

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