É possível ser feliz? Conseqüências da renúncia ao instinto de agressividade.

Quais os meios que a civilização utiliza para inibir a agressividade, para torná-la inócua ou talvez livrar-se dela? Podemos estudá-las na história do desenvolvimento do indivíduo. O que acontece neste para tornar inofensivo seu desejo de agressão? Sua agressividade é introjetada, internalizada; ela é enviada de volta para o lugar de onde proveio, isto é dirigida no sentido do próprio ego. Aí é assumida por uma parte do ego, que se coloca contra o resto do ego, como o superego, e que estão sob a forma de “consciência[1] ” está pronta para por em ação contra o ego a mesma agressividade rude que o ego teria gostado de satisfazer sobre outros individuo, a ele estranhos. A tensão entre o servir o superego e o ego, que a ele se acha sujeito, é por nos chamada de sentimento de culpa, expressa-se como uma necessidade de “punição[2]”. A civilização, portanto, consegue dominar o perigoso desejo de agressão do individuo, enfraquecendo-o, desarmando-o e estabelecendo no seu interior um agente para cuidar dele, como uma guarnição numa cidade conquistada.

Quanto à origem do sentimento de culpa, inicialmente perguntaremos como uma pessoa vem a ter sentimento de culpa? Chegaremos a uma resposta indiscutível uma pessoa sente-se culpada quando fez algo que sabe ser “mau [3]”. Reparemos, porém que quando a pessoa não faz uma coisa má, mas apenas, identificou em si uma intenção de fazê-la, ela também pode encarar-se como culpada. Surge então a questão de saber por que a intenção e considerada equivalente ao ato. Ambos os casos, pressupõe que já se tenha reconhecido que o que é mau é repreensível, é algo que não deve ser feito. Como se chega a esse julgamento? Podemos rejeitar a existência de uma capacidade original de distinguir o bom do mau. O que é mau, freqüentemente, não é de modo algum o que é prejudicial ou perigoso ao ego; pelo contrário pode ser algo desejável e prazeroso para ele. Aqui, portanto está em ação uma influência estranha, que decide o que deve ser chamado de bom ou mau. A pessoa deve ter um motivo para submeter-se a essa influência estranha. Esse motivo é facilmente descoberto no desamparo e na dependência dela em relação a outras pessoas, pode ser mais bem designado como medo da perda do amor. Se ela perde o amor de outra pessoa de que é dependente deixa também de ser protegida de uma série de perigos. Acima de tudo fica exposta ao perigo de que essa pessoa mais forte mostre sua superioridade em forma de punição. De início, portanto, mau é tudo aquilo que, com a perda do amor nos faz sentir ameaçados. Essa também era a razão porque faz tão pouca diferença em fazer a coisa má ou ter intenção.  Em qualquer dos casos o perigo só se instaura quando e se, a autoridade descobri-lo, e em ambos, a autoridade se comporta da mesma maneira. Nessa etapa o sentimento de culpa é apenas, claramente, um medo da perda de amor, uma ansiedade social.

Uma grande mudança só se realiza quando a autoridade e internalizada através do estabelecimento de um superego. Os fenômenos da consciência atingem então um estágio mais elevado. Na realidade então devemos falar de consciência ou sentimento de culpa. Nesse ponto, também, o medo de ser descoberto se extingue, a distinção entre fazer algo mau e desejar fazê-lo desaparecer inteiramente, já que nada pode ser escondido do superego. A nova autoridade o superego, ao que saibamos não tem motivos para maltratar o ego, com o qual está internamente ligado, contudo o superego atormenta o ego pecador com o mesmo sentimento de ansiedade e fica à espera de oportunidades para fazê-lo ser punido pelo mundo externo.

Nesse segundo estágio de desenvolvimento, a consciência apresenta uma peculiaridade que se achava ausente do primeiro e que não é mais fácil de “explicar[4]”, pois quando mais virtuoso um homem é, mais servil e desconfiado e o seu comportamento, de maneira que, em última análise, são precisamente as pessoas que levaram mais longe a “santidade[5]” as que se censuram da pior pecaminosidade. Isso significa que a virtude perde direito a uma certa parte da recompensa prometida o ego dócil e continente não desfruta da confiança de seu mentor (superego) e é um vão que se esforça, por adquiri-la.

O campo da ética, tão cheio de problemas nos apresenta outro fato; a má sorte isto é, a frustração externa acentua grandemente o poder da consciência do superego.

Enquanto tudo corre bem com o homem, a sua consciência é lenitiva e permite que o ego faça todo tipo de coisas; entretanto, quando o infortúnio lhe sobrevém, ele busca sua alma, reconhece sua pecaminosidade, eleva as exigências de sua consciência, impõe-se abstinência e se castiga com penitências. Povos inteiros se comportam dessa maneira, e ainda se comportam. Isso, contudo, é facilmente explicado pelo estágio infantil original da consciência, o qual como vimos não é abandonado após a interrogação no superego, persistindo lado a lado, e por trás dele.

O destino é encarado como um substituto do agente parental. Se um homem é desafortunado, isso significa que não é mais amado por esse poder supremo, e, ameaçado por essa falta de amor, mais uma vez se curva ao representante paterno em seu s origens do sentimento superego.

Conhecemos, assim, duas origens do sentimento de culpa: uma que surge de modo de uma autoridade, e outra posterior que surge do medo do superego. A primeira insiste uma renúncia as satisfações instintivas, segunda, ao mesmo tempo em que faz isso exige punição, uma que a continuação dos desejos proibidos não pode ser escondido do superego. Originalmente, a renúncia ao instinto constituía o resultado do medo de uma autoridade externa: renunciavam-se as próprias satisfações para não perder o amor da autoridade. Se efetuava essa renúncia, ficava-se por assim dizer, quite com a autoridade e nenhum sentimento de culpa permanecia. Quanto ao medo do superego, porém o caso é diferente. Aqui a renúncia instintiva não basta, pois o desejo persiste e não pode ser escondido do superego. Assim, a despeito da renúncia efetuada, ocorre um sentimento de culpa. Aqui a renúncia instintiva não possui mais efeito liberado, a continência virtuosa não é mais recompensada com a certeza do amor.

Uma ameaça de infelicidade externa, perda do amor e castigo por parte de uma autoridade externa, foi permitida por uma permanente infelicidade interna, pela tensão do sentimento de culpa.

Ao risco de me repetir, abordarei ainda essa questão de outro ângulo. A seqüência cronológica, então seria a seguinte. Em primeiro lugar, vem à renúncia ao instinto, devido ao medo de agressão por parte da autoridade externa. Depois vem a organização de uma autoridade interna e a renúncia ao instinto devido ao medo dela, ou seja, devida ao medo da “consciência[6]”.

Nessa segunda situação as más intenções são igualadas as, mas ações e daí surgem sentimento de culpa e necessidade de punição. Até aqui as coisas são claras, mas aonde é isso deixa lugar para a influência reforçada do infortúnio (da renúncia imposta de fora) e para a extraordinária servidade da consciência nas pessoas melhores e mais dóceis? A consciência (ou a ansiedade que depois se torna consciência) é na verdade, a causa de renúncia instintiva, mas que, posteriormente, o relacionamento se inverte. Toda renúncia ao instinto torna-se agora uma fonte dinâmica, e cada nova renúncia aumenta a servidade e a intolerância dessa última.

A consciência é resultado da renúncia instintiva ou que a renúncia instintiva imposta a nós de fora, ora a consciência a qual, então, exige mais renúncias instintivas.

A contradição sobre a gênese da consciência, não é na realidade, tão grande, e vimos uma maneira de reduzi-la mais.

Temos como, por exemplo, o instinto agressivo e suponhamos que a renúncia em estudo seja uma renúncia a agressão. O efeito desta renúncia instintiva sobre a consciência, então é que cada agressão de cuja satisfação o indivíduo desiste é assumida pelo superego e aumenta agressividade deste contra-ego. Isso não se harmoniza bem com o ponto de vista segundo o qual a agressividade original da consciência e uma continuação da suavidade da autoridade externa, não tendo, portanto, nada a ver com a renúncia. Mas a discrepância se anulará se postularmos uma derivação diferente para essa primeira instalação da agressividade no superego.

É provável que, na criança, se tenha desenvolvido uma quantidade considerável de agressividade contra autoridade, que a impede de ver as suas primeiras satisfações, não importando o tipo de privação instintiva que dela possa ser exigida. A criança é, obrigada a renunciar a satisfação dessa agressividade vingativa e encontra a saída com o auxilio de mecanismo familiar. Atrás da identificação incorpora a si a autoridade inatacável. Esta transforma-se então em seu superego, entrando na posse de toda a agressividade que a criança gostaria de escrever contra ele. O ego da criança tem de contornar-se com o papel infeliz da autoridade o pai que foi assim degradado. A situação real é invertida. “Se eu fosse o pai e você a criança, eu a trataria mal. O relacionamento entre o superego e o ego constitui um retorno deformado por um desejo, dos relacionamentos reais existentes entre ego, ainda indevido, e um objeto externo.

A diferença essencial é a severidade original do superego, não se presta tanto a severidade que dele (do objeto) se experimentou ou se lhe atribuiu. Representa antes, nossa própria agressividade para com ele. Podemos verdadeiramente afirmar que de início a consciência surge através da repressão de impulso agressivo, sendo subseqüentemente reforçada por novas repressões do mesmo tipo.

Qual desses dois pontos de vista é correto. O primeiro, que geneticamente parecia tão inexpugnável, ou o último, que apara arestas da teoria. Ambos se justificam se contradizem mutuamente e, até mesmo coincidem em determinado ponto, pois a agressividade vingativa da criança será em parte determinada pela quantidade de agressão punitiva que espera do pai.  A experiência mostra, contudo, que a severidade do superego que uma criança desenvolve de maneira nenhuma corresponde à severidade de tratamento com que ela própria se defrontou. Uma criança criada de forma muito suave, pode adquirir numa consciência muito estreita.

No entanto, seria errado exagerar essa independência, não é difícil nos convencermos de que a severidade da criação também escreve uma forte influencia na formação do superego da criança. Isso dignifica que fatores constitucionais inatos e influencias do ambiente real atuam de forma combinada. O que de modo algum é surpreendente, ao contrário trata-se de uma condição ideológica universal para todos os processos desse “tipo[7]” Se passarmos do desenvolvimento individual para o desenvolvimento filogenético, as diferenças entre as duas teorias da gênese da consciência ficam ainda menores. Por outro lado, uma nova e importante diferença apareceu entre esses dois processos de desenvolvimento. Não podemos afastar a suposição de que o sentimento de culpa do homem se origina no complexo edipiano e foi adquirido quando da morte do pai pelos irmãos reunidos em bando. Naquela ocasião o ato de agressão não foi suprimido, mas executado; foi, porém o mesmo ato de agressão cuja repressão na criança se imagina ser a fonte de seu sentimento de culpa. Nesse ponto não me surpreenderei se o leigo exclamar com raiva “Então não faz diferença que se mate o pai ou não se fica com um sentimento de culpa do mesmo jeito.

Tudo isso é verdade, quando se fica com o sentimento de culpa depois de ter praticado uma má ação, o sentimento deveria, mais propriamente, ser chamado de remorso. Este se refere a um ato que foi cometido, e pressupõe que uma consciência, já existia antes que o ato fosse praticado. Um remorso desse tipo, portanto jamais pode ajudar-nos a descobrir a origem da consciência e do sentimento de culpa em geral. O que acontece nesses casos cotidianos e que uma necessidade instintiva adquire intensidade para alcançar satisfação, a despeito da consciência, que afinal de contas é limitada em sua força e com o debilitamento natural da necessidade, devido a ter sido satisfeita, o equilíbrio anterior é restaurado.

“Mas, se o sentimento humano de culpa remete a morte do pai primitivo trata-se afinal de um caso de remorso”. Esse remorso constituiu o resultado da ambivalência primordial de sentimentos para com o pai. Seus filhos o odiavam, mas também o amavam. Depois que o ódio foi satisfeito pelo ato de agressão, o amor veio para o primeiro plano, no remorso dos filhos pelo ato. Criou o superego pela identificação com o pai, deve a esse agente o superego, o poder paterno, com uma punição pelo ato de agressão que haviam cometido e criou restrições destinadas a impedir uma restrição destinada a impedir uma rejeição do ato. E visto que a inclinação a agressividade contra o pai se repetiu nas gerações seguintes, o sentimento de culpa também persistiu, cada vez mais fortalecido por cada parcela de agressividade que era reprimida e transferida para o superego.

Matar o próprio pai ou abster-se de fazê-lo não é realmente a coisa decisiva. Em ambos os casos todos estão fadados a sentir culpa, por que o sentimento de culpa é uma expressão do conflito de vida a ambivalência, quanto da eterna luta entre Eros e o instinto de destruição ou morte. Esse conflito é posto em ação tão logo os homens se defrontem com a tarefa de viverem juntos. Na família, o conflito está fadado a se expressar no complexo edipiano, a estabelecer a consciência e criar o primeiro sentimento de culpa.

Que começou com relação ao pai é completado com relação ao grupo. Se a civilização constitui um caminho necessário de desenvolvimento, da família a humanidade com um todo, estão em resultado do conflito surgido da ambivalência, da eterna luta entre as tendências de amor e morte, acha-se a ele inexplicavelmente ligado a um aumento do sentimento de culpa, que talvez antigas alturas que o individuo considere difíceis de tolerar.

“Os dois principais métodos patogênicos de criação super rigidez e mesmo foram acuradamente avaliados por Franz Alexander em seu livro The Psychoanalises of the total Personality (1927), em vinculação com estudo da delinqüência efetuado por Aichhoron, Wayword Youth (1925). E o pai indevidamente fraco e indulgente que constitui a causa de as crianças formarem o superego excessivamente severo, porque sob a impressão do amor que recebem não possuem outro escoadouro para sua agressividade que não voltá-los pra dentro. Nas crianças delinqüente, criadas sem amor, a tensão entre ego e superego esta ausente, e a totalidade de sua agressividade pode ser voltada para fora.

A parte um fator constitucional que se pode supor presente, é possível dizer, portanto, que uma consciência severa surge da operação conjunta de dois fatores a frustração do instinto, que desencadeia a agressividade e a experiência de ser a agressividade de se amado que volta a agressividade para dentro e a transfere para o superego.[8]

 

 

 

Bibliografia:

FREUD, S. (1927-1931). O futuro de uma ilusão (o mal-estar na civilização e outros trabalhos). Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Iamgo Editora Ltda., 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XXI p. 139-145).

 



[1]  Grifo do autor

[2]  Grifo do autor

[3]  Grifo do autor

[4] Grifo do autor

[5] Grifo do autor

[6] Grifo do autor

[7] Grifo do autor

[8] Totem e tabu – 1912-1913 vol XIII – coleção Standard Brasileira das obras completas de Segmund Freud

 

1 Comentários

  1. fiverr seo
    abr 8, 2016

    Very good post.Really thank you! Great.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *