É possível ser feliz? O instinto de agressividade.
O trabalho psicanalítico nos mostrou que as frustrações da vida sexual são precisamente aquelas que as pessoas conhecidas como neuróticas não podem tolerar. O neurótico cria em seus sintomas satisfações substitutivas para si, e estas ou causam sofrimento em si próprias, ou se lhe tornam fontes de sofrimento pela criação de dificuldades em seus relacionamentos com o meio ambiente e a sociedade a que pertence.
O amor sexual constitui-se em um relacionamento entre dois indivíduos, no qual um terceiro só pode ser supérfluo ou perturbador, ao passo que a civilização depende de relacionamentos entre um considerável número de indivíduos. Quando um relacionamento amoroso se encontra em seu auge, não resta lugar para qualquer outro interesse, um casal de amantes se basta para si mesmo. Em nenhum outro caso Eros revela tão claramente o âmago do seu ser, de mais de um, fazer um único.
Até aqui podemos imaginar perfeitamente uma comunidade cultural que consiste em indivíduos duplos como este, que libidinalmente satisfeitos em si mesmos, se vinculem uns aos outros através dos elos do trabalho comum e dos interesses comuns. Contudo esse desejável estado de coisas não existe, nem nunca existiu. A realidade mostra que a civilização não se contenta com as ligações que até agora lhe concedemos. Visa unir entre si os membros da comunidade de maneira libidinal e, para tanto emprega todos os meios. Favorece todos os caminhos pelos quais identificações fortes possam ser estabelecidas entre membros da comunidade e , na mais ampla escala, convoca a libido inibida em sua finalidade, de modo a fortalecer o vínculo comunal através das relações de amizades.
Para que esses objetivos sejam realizados faz-se inevitável uma restrição a vida sexual. Qual necessidade força a civilização a tomar esse caminho, necessidade que provoca o seu antagonismo à sexualidade?
A resposta pode ser fornecida por uma das exigências ideais, tal como denominamos da sociedade civilizada. Diz ela: “Amarás a teu próximo como a ti mesmo”. Essa exigência conhecida em todo o mundo é indubitavelmente, mais antiga que o cristianismo, que a apresenta como sua reivindicação mais gloriosa. Por que devemos agir desse modo? Que bem isso nos trará? Como conseguiremos agir desse modo? Como isso pode ser possível? Meu amor, para mim é algo tão valioso, que eu não devo jogar para fora essa reflexão. Se amo uma pessoa, ela tem que merecer meu amor de alguma maneira. Ela merecerá meu amor, se for de tal modo semelhante a mim, em aspectos importantes que eu me possa amar nela, merecê-lo-á também, se for de tal modo mais perfeita do que eu, que nela eu possa amar meu ideal de meu próprio eu. Terei ainda de amá-la, se for o filho do meu amigo, já que o sofrimento que este sentiria se algum dano lhe ocorresse seria meu sofrimento também.
Mas se essa pessoa for um estranho para mim e não conseguir atrair-me por um de seus valores, me será muito difícil amá-la na verdade, eu estaria errado agindo assim, pois meu amor é valorizado por todos os meus como um sinal de minha preferência por eles e seria injusto colocar um estranho no mesmo plano. Qual é o sentido de um preceito enunciado com tanta solenidade, se seu cumprimento não pode ser recomendado como razoável?
Através de um exame mais detalhado, descubro ainda outras dificuldades. Não meramente esse estranho é em geral indigno do meu amor e honestamente, tenho de confessar que ele possui um direito a minha hostilidade e, até mesmo meu ódio. Não pareceu apresentar o mais leve traço de amor por mim e não demonstra a mínima consideração. Se, ele puder auferir uma vantagem qualquer não hesitará em me prejudicar. Na verdade, não precisa nem mesmo auferir alguma vantagem, se puder satisfazer qualquer tipo de desejo, não se importará em escarnecer de mim, em me insultar, me caluniar e me mostrar a superioridade de seu poder, e quanto mais desamparado eu for, mais posso esperar que se comporte dessa maneira. E há ainda um segundo mandamento, que me parece mais incompreensível ainda e que me desperta uma oposição mais forte: “Ama os teus inimigos” refletindo sobre ele, no entanto percebo que no fundo é a mesma coisa.
Ora, é muito provável que meu próximo quando lhe for prescrito que me ama como a si mesmo, responda exatamente como eu fiz e me rejeite pelas mesmas razões. O elemento de verdade por trás disso tudo, elemento que as pessoas estão dispostas a repudiar, é que os homens não são criaturas gentis que desejam ser amadas e que no máximo podem defender-se quando atacadas, pelo contrário, são criaturas entre cujos dotes instintivos devem-se levar em conta uma poderosa dose de agressividade. Em resultado disso, o seu próximo é, para ele não apenas um ajudante potencial ou um objeto sexual, mas também alguém que os tenta o satisfazer sobre ela a sua agressividade, a explorar sua capacidade de trabalho sem compensação, utilizá-lo sexualmente sem seu consentimento apoderar-se de suas posses, humilhá-lo, causar-lhe sofrimento, torturá-lo e matá-lo. Quem em face de toda sua experiência de vida e da história terá coragem de discutir essa asserção via de regra, essa cruel agressividade espera alguma provocação ou se coloca a serviço de algum outro intuito. Quando as forças mentais contrárias que normalmente a inibem (agressividade) se encontram fora de ação, ela também se manifesta espontaneamente e revela o homem como uma besta selvagem a quem a consideração para com a sua própria espécie é algo estranho. Quem quer que se lembre dos horrores da recente guerra mundial, terá de se curvar ante a verdade dessa opinião.
A existência da inclinação para a agressão, que podemos detectar em nós mesmos e supor com justiça que ela está presente nos outros, constitui o fator que perturba nossos relacionamentos com o nosso próximo.
Em conseqüência dessa mutua hostilidade primária dos seres humanos, a sociedade civilizada se vê permanentemente ameaçada de desintegração. O interesse pelo trabalho comum não a manteria unida, as paixões instintivas são mais fortes que os interesses razoáveis.
A civilização tem de utilizar esforços supremos a fim de estabelecer limites para os instintos agressivos do homem e manter suas manifestações sob controle por formações psíquicas reativas. Daí, portanto o emprego de métodos a incitar pessoas a identificações e relacionamentos amorosos inibidos em sua finalidade, daí a restrição a vida sexual e também o mandamento ideal de amor ao próximo como a si mesmo.
A despeito de todos os esforços, esses empenhos da civilização até hoje não conseguiram muito. Chega à hora em que cada um de nós tem de abandonar, como sendo ilusões, as esperanças que, na juventude, depositou em seus semelhantes, e aprende quanta dificuldade e sofrimentos foram acrescentados a sua vida pela má vontade deles.
A agressividade reinou quase sem limites nos tempos primitivos, quando a propriedade ainda era muito escassa. A agressividade, já se apresenta no quarto das crianças, constitui a base de toda relação de afeto e amor entre pessoas “com uma única exceção talvez do relacionamento da mãe com seu filho homem[1]”.
Se eliminarmos os direitos pessoais a riqueza material, ainda permanecem, no campo dos relacionamentos sexuais prerrogativas fadadas a se tornarem a fonte da mais intensa antipatia e da mais violenta hostilidade entre homens. Se permitir a liberdade completa da vida sexual e assim abolirmos a família, célula germinal da civilização, não pode prever quais os caminhos que o desenvolvimento da civilização tomará uma coisa, porém podemos esperar, e que essa característica indestrutível da natureza humana a agressividade seguirá o caminho da civilização.
Se a civilização impõe sacrifícios tão grandes, não apenas a sexualidade do homem, mas também a sua agressividade, podemos compreender melhor porque lhe é difícil ao homem ser feliz nessa civilização. Na realidade, o homem primitivo se achava em situação melhor, sem conhecer restrições de instintos, em contrapartida, suas perspectivas de desfrutar dessa felicidade, eram muito tênues. O homem civilizado trocou uma parcela de suas possibilidades de felicidade por uma parcela de segurança.
Quando, com toda justiça, consideramos falho o presente estado de nossa civilização, por atender de forma tão inadequada as nossas exigências de um plano de vida que nos tornem felizes, e por permitir a existência de tanto sofrimento, que provavelmente poderia se evitado; quando, com crítica impiedosa, tentamos por à mostra as raízes de sua imperfeição, não nos estamos mostrando inimigos da civilização. Podemos esperar efetuar, gradativamente em nossa civilização, alterações tais, que satisfaça melhor nossas necessidades. Mas talvez possamos também nos familiarizar com a idéia de existirem dificuldades, ligadas a natureza da civilização, que não se submeterão a qualquer tentativa de reforma.
Bibliografia:
FREUD, S. (1927-1931). O futuro de uma ilusão (o mal-estar na civilização e outros trabalhos). Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Iamgo Editora Ltda., 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XXI p. 119-128).
I really appreciate this post. IВЎВ¦ve been looking all over for this! Thank goodness I found it on Bing. You have made my day! Thanks again