É possível ser feliz? A civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto.

Há três fontes de nosso sofrimento: o poder da natureza, a fragilidade de nossos próprios corpos e a inadequação de regras que procuram ajustar os relacionamentos mútuos dos seres humanos, na família, no Estado e na sociedade. Quando as duas primeiras fontes não se podem hesitar nosso julgamento nos força a reconhecer que são inevitáveis. Nunca dominaremos completamente a natureza, e nosso organismo corporal, ele mesmo parte dessa natureza, permanecerá sempre como uma estrutura passageira, com limitada capacidade de adaptação e realização. Quanto à terceira fonte a fonte social do sofrimento, nossa atitude é diferente. Não podemos conceber porque os regulamentos estabelecidos por nós mesmos não representam proteção e benefício para cada um de nós. Contudo, quando consideramos o quanto fomos mal sucedidos nesse campo de prevenção do sofrimento, surgem em nos a suspeita, de que aqui também jaz por trás uma parcela de nossa própria constituição psíquica.

Quando começamos a considerar essa possibilidade, deparamo-nos com um argumento espantoso. Esse argumento sustenta que o que chamamos de nossa civilização, é em grande parte responsável por nossa desgraça e que seriamos muito mais felizes se abandonássemos e retornássemos as condições primitivas. Chamo esse argumento de espantoso, por que afinal seja qual for a maneira porque passamos definir o conceito de civilização, constitui fato incontroverso que todas as coisas que buscamos a fim de nos protegermos contra as ameaças oriundas das fontes de sofrimento fazem parte dessa mesma civilização.

Como foi que tantas pessoas vieram a assumir essa estranha atitude de hostilidade para com a civilização? Acredito que se construiu uma condição dela ocasionada por certos acontecimentos históricos específicos. Penso saber quais foram as últimas e penúltimas dessas ocasiões. A penúltima dessas ocasiões se instaurou quando o progresso das viagens de descobrimento conduziu ao contato com povos e raças primitivos. Em conseqüência de uma observação insuficiente e de uma visão equivocada, eles parecem aos europeus como se levasse uma vida simples e feliz, com poucas necessidades, um tipo de vida inatingível com sua civilização superior.

A última ocasião nos é especialmente familiar, surgiu quando as pessoas tomaram conhecimento do mecanismo das neuroses, que ameaçam solapar a pequena parcela de felicidade desfrutada pelos homens civilizados. Descobriu-se que uma pessoa torna-se neurótica porque não pode tolerar a frustração que a sociedade lhe impõe.

Existe ainda um fator adicional de desapontamento. Durante as últimas gerações, a humanidade efetuou um progresso extraordinário nas ciências naturais e em sua aplicação técnica, estabelecendo seu controle sobre a natureza, contudo, o poder adquirido sobre o espaço, o tempo, a subjugação da natureza, não aumentou a quantidade de satisfação prazerosa e nãos os tornaram mais felizes. Gostaríamos de perguntar; não existe então, nenhum ganho no prazer, nenhum aumento de felicidade, se posso quantas vezes me agrade, escutar a voz de um filho meu que está morando a quilômetros de distância? Ou saber, no tempo mais breve possível depois de um amigo ter atingido seu destino, que ele concluiu incólume a longa e difícil viagem? Não significa nada que a medicina tenha conseguido não só reduzir a mortalidade infantil, o processo de infecção para mulheres no parto, como também prolongar consideravelmente a vida média do homem civilizado? E o “prazer barato[1]” das anedotas. Se não houvesse ferrovia para abolir distâncias, meu filho jamais teria deixado a cidade natal e eu não precisaria de telefone para ouvir a sua voz. Se as viagens marítimas transoceânicas não tivessem sido introduzidas meu amigo não teria partido e eu não precisaria de um telegrama para aliviar minha ansiedade a seu respeito.

Enfim, de que nos vale uma vida longa se ela se revela difícil e estéril em alegrias, e tão cheias de desgraças que só a morte é recebida por nós como liberação?

Parece certo que não nos sentimos confortáveis na civilização atual, mas é muito difícil formar uma opinião sobre se, e em que grau os homens de épocas anteriores se sentiram mais felizes. A felicidade, contudo é algo essencialmente subjetivo. Parece-me improdutivo levar adiante esse aspecto do problema.

A palavra “civilização” descreve a soma integral das realizações e regulamentos que distinguem nossas vidas das de nossos antepassados animais e que servem a dois instintos, a saber: o de proteger os homens contra a natureza, e o de ajustar seus relacionamentos mútuos. A fim de aprendermos mais, resumiremos os diversos aspectos singulares da civilização, tal como se apresentam nas comunidades humanas.

Agindo desse modo, não hesitaremos em nos deixar guiar pelos hábitos lingüísticos.

A primeira etapa e fácil. Reconhecemos como culturais todas as atitudes e recursos úteis dos homens por lhe formarem a teoria proveitosa e por protegerem-nos contra a natureza. Se remontarmos as origens, descobriremos que os primeiros atos de civilização foram a utilização de instrumentos, a obtenção do controle sobre o fogo e a construção de habitações. Através de cada instrumento, o homem recria seus próprios órgãos, motora ou sensorial, ou amplia os limites de seu funcionamento.

Essas coisas que através de sua ciência e tecnologia o homem faz surgir na Terra, essas coisas não apenas soam como um conto de fadas, mas também constituem uma realização efetiva de todos. Todas essas vantagens, o homem, as pode reivindicar como aquisição cultural sua. Há muito tempos atrás, o homem formou uma concepção ideal de onipotência e onisciência que corporificou em deuses. A estes, atribuía tudo o que parecia inatingível aos seus desejos ou lhe era proibido. Pode-se dizer, portanto, que esses deuses constituíam ideais culturais. Hoje, ele se aproximou bastante da consecução desse ideal, ele próprio quase se tornou um deus. As épocas futuras trarão com elas novos e provavelmente inimagináveis grandes avanços nesse campo da civilização e aumentarão ainda mais a semelhança do homem com Deus. No interesse de nossa investigação, contudo, não esqueceremos que atualmente o homem não se sente feliz em seu papel de semelhante a deus.

Reconhecemos, então que os países atingiram um alto nível de civilização quando descobrimos que neles tudo o que pode ajudar na exploração da Terra está disponível e é possível de ser conseguido. Os rios que ameaçam inundar as terras são regulados em seu fluxo, e sua água e irrigada através de canais onde ela é escassa. O solo é cuidadosamente cultivado e plantado. Os meios de comunicações são amplos rápidos e dignos de confiança. Os animais selvagens foram exterminados.

Exigimos, além dessas, outras coisas da civilização. Reconhecemos como sinal de civilização, verificar que as pessoas também orientem suas preocupações para aquilo não possui qualquer valor prático, para o que não é lucrativo, como por exemplo, os espaços verdes necessários a uma cidade, como playground, reservatórios de ar fresco, jardins e casas decoradas com flores. De imediato, constatamos que essa coisa não lucrativa que esperamos que a civilização valorizasse é a beleza. Exigimos que o homem civilizado reverencie a beleza. Esperamos ademais ver sinais de asseio e ordem. A observação que o homem fez das grandes regularidades astronômicas não apenas o muniu de um modelo para a introdução da ordem, mais também lhe forneceu os primeiros pontos de partida pra proceder desse modo. A ordem é uma espécie de compulsão a ser repetida, compulsão que, ao se estabelecer um regulamento de uma vez por todas, decida quando, onde e como uma coisa será efetuada, e isso de tal maneira que, em todas as circunstâncias semelhantes, a hesitação e indecisão nos são poupadas Os benefícios da ordem são incontestáveis. Ela capacita os homens a utilizarem o espaço e o tempo às forças psíquicas delas. Os seres humanos revelam uma tendência inata para o descuido, a irregularidade e a irresponsabilidade em seu trabalho, e é necessário um laborioso treinamento para que aprendam a seguir o exemplo de seus modelos celestes.

Evidentemente, a beleza, a limpeza e a ordem ocupam uma posição especial entre as exigências da civilização nenhum aspecto, porem parece caracterizar melhor a civilização do que sua estima e incentivo em relação as mais elevadas atividades mentais do homem suas realizações intelectuais, científicas e artísticas e o papel fundamental que atribui às idéias, na vida humana. Entre essas idéias em primeiro lugar se encontram os sistemas religiosos. A seguir, vêm as especulações da filosofia. E finalmente o que se poderia chamar de “idéias” do homem suas idéias a respeito de uma possível perfeição dos indivíduos. O fato de essas criações do homem não serem mutuamente independentes, mas, pelo contrário se acharem entrelaçadas aumenta a dificuldade não apenas de desservi-las, como também tratar de sua derivação psicológica. A força motivadora de todas as atividades humanas é um esforço no sentido de duas mentas conflitantes, a de utilidade e obtenção do prazer.

Resta avaliar o último, mas decerto não menos importante dos aspectos característicos da civilização a maneira pela qual os relacionamentos mútuos dos homens, seus relacionamentos sociais, são regulados, relacionamentos estes que afetam uma pessoa como próximo, como fonte de auxílio como objeto sexual de outra pessoa, como membro de uma família e de um Estado. Talvez possamos começar pela explicação de que o elemento de civilização entra em cena com a primeira tentativa de regular esses relacionamentos sociais. Se essa tentativa não fosse feita, os relacionamentos ficariam sujeitos a vontade arbitrária do indivíduo, o que vale a dizer que o homem fisicamente mais forte decidiria a respeito deles no sentido de seus próprios interesses e impulsos instintivos.

A vida humana em comum só se torna possível quando se reúne uma maioria mais forte, do que qualquer individuo isolado e que permanece unida contra todos os indivíduos isolados. O poder dessa comunidade e tão estabelecido como “direito”[2] em oposição ao poder do indivíduo, condenado como “força bruta”[3]. A substituição do poder do individuo pelo poder de uma comunidade constitui o passo decisivo da civilização. Sua essência reside no fato de que os membros da comunidade se restringem em sua possibilidade de suas satisfações, ao passo que o individuo desconhece tais restrições. A primeira exigência da civilização, portanto, é a da justiça, ou seja, a garantia de que uma lei, uma vez criada não será violada em favor de um indivíduo.

A liberdade do indivíduo não constitui um dom da civilização. Ela foi maior antes da existência de qualquer civilização. O desenvolvimento da civilização impõe restrições à liberdade, e a justiça exige que ninguém fuja estas restrições. O impulso de liberdade é dirigido contra formas e exigência específica da civilização ou contra a civilização em geral. Grande parte das lutas da humanidade centraliza-se em torno da tarefa única de encontrar uma acomodação que traga essa felicidade entre a reivindicação do indivíduo a liberdade e as reivindicações culturais do grupo. Um dos problemas que incide sobre o destino da humanidade é o de saber se tal acomodação pode ser alcançada ou se esse conflito é irreconciliável.

O desenvolvimento da civilização nos aparece como processo peculiar que a humanidade experimenta. Podemos caracterizar esse processo referindo-se as modificações que ele ocasiona nas habituais disposições instintivas dos seres humanos. O exemplo mais notório desse processo e o erotismo anal das crianças. Seu interesse original pela função excretora, por seus órgãos e produtos, transforma-se em discurso do crescimento, num grupo de traços tais como parcimônia o sentido da ordem e da limpeza. Não há dúvida sobre a exatidão da descoberta. Outros instintos além do erotismo anal são induzidos a deslocar as condições de sua satisfação, a conduzi-las para outros caminhos.

Na maioria dos casos, esse processo coincide com o da sublimação. A subestimação do instinto constitui um aspecto particularmente evidente do desenvolvimento cultural, é ela que torna possível a atividade psíquicos superiores científicas artística ou ideológica. A sublimação constitui uma vicissitude que foi imposta aos instintos de forma total pela civilização. A civilização é construída sobre uma renúncia ao instinto, é impossível desprezar o quanto ela pressupor a não-satisfação (pela opressão, repressão) de instintos poderosos. Essa “frustração cultural” domina o grande campo dos relacionamentos sociais entre os seres humanos (não é fácil entender como pode ser possível privar de satisfação um instinto. Não se faz isso impunemente.

 

 

Bibliografia:

FREUD, S. (1927-1931). O futuro de uma ilusão (o mal-estar na civilização e outros trabalhos). Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Iamgo Editora Ltda., 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XXI p. 92 -104).

 



[1] Grifo do próprio autor

[2] Grifo do próprio autor

[3] Grifo do próprio autor

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