Um fora da lei – por Rosana Serena

Bebezinho ele encantara a todos com sua beleza e vigor. Sua mãe contava que fora muito exigente. Sempre esfaimado, berrava por alimento e era tão erguido e forte o seu berro, que era preferível atendê-lo de imediato. Em brados, irrequieto e manhoso estava sempre a exigir atenção e era preciso lhe pegar no colo antes que ele perdesse o fôlego.
Seu pai não fazia caso se a mãe com seu lindo bebê estivesse sempre às voltas, posto que estava ele mesmo voltado para outras coisas. Ademais seu sonho fora de ter um filho varão e como menino pobre havia sido, tinha jurado ao seu sucessor não faltar nada.
E assim sendo nessa fase de vida não lhe privaram de nada!
Seus primeiros passos foram uma condenação ruinosa para móveis e objetos. E a si mesmo, punha em perigo escalando as paredes. Era sempre o epicentro de pequenas tragédias domésticas cotidianas. À mesa não se sentava, estava sempre em desabalada correria ao derredor, enquanto todos tentavam comer, entre fazê-lo parar. Parado não parava e tão pequeno ainda os pais já não lhe podiam com a vida. Ele exauria emocionalmente, esgotava a cota afetiva que era também por direito dos outros, tomando para si a energia de vida familiar. Mas para mantê-lo apaziguado era sempre preferível atendê-lo em tudo!
Entre suas tapas e mordidas e o riso de seus pais mostrou-se tarefa impossível socializá-lo na escolinha. Sua vida escolar arrastou-se assim por anos entre várias trocas de colégio que não queriam e não lhe podiam conter entre seus muros. Aprender, não aprendera nada, pois até hoje mal sabe escrever, mas teve seu diploma garantido.
Sua adolescência arrastou em turbulência a pouca paz da família. Viveu-a como viveu seu entorno à mesa, com os seus pais sempre lhe correndo atrás concertando seus estragos. Mas era sempre preferível pagar por todos os seus débitos!
Em sua juventude tortuosa lhe foram oferecidos todos os possíveis objetos de prazer e alegria que pudesse o dinheiro comprar, mas a sua aclamante exigência era sempre maior que o bem oferecido.. Mas não lhes era possível vê-lo frustrado!
A juventude se passou em estórias mal vividas de complexos relacionamentos amorosos com trágicos e tristes finais. Foram mal postadas vivências de todos os mais amplos sentidos. Mas era sempre preferível julgá-lo inocente!
A maturidade só veio no entrar dos anos, pois que ele ainda é o mesmo a correr em torno da mesa derrubando coisas, quebrando cadeiras e arrasando vidas. Sua destrutividade se estende as pessoas. Sua contrariedade explode em grandes crises de violenta agressividade. Não tem amarras morais e por isso avança sempre nos limites do que é do outro tomando para si tudo o que puder tomar. Não cumpre compromissos porque não reconhece nenhum que lhe seja pertinente. Nada construiu, pois destruiu uma a uma todas as possibilidades sempre responsabilizando em prantos convulsivos aos outros o seu fracasso. Alguns ainda lhe têm pena por o verem assim tão falsamente magoado, mas os espertos lhe passam ao largo. Hoje ninguém lhe pode com a vida!
Para que o sujeito se constitua é imprescindível a transmissão da falta. Está transmissão é o eixo fundamental da constituição de um sujeito.
Os três tipos de falta com relação aos objetos são: a privação, a frustração e a castração. São operações que deverão ser agenciadas pelos pais ou por quem desempenha a função. Operações que devem ser adequadas para promover o crescimento que levará a criança a achar soluções para os problemas das falhas e das faltas criadas pela realidade humana e que vai propiciar gradativamente a capacidade de crescer, pensar e agir como adulto sendo responsável pelos seus atos.
Não lhe privaram de nada!
Não lhe permitiram frustrar-se com nada!
E não lhe possibilitaram ter acesso ao um bom e adequado final de processo chamado de castração que é o que dá a estrutura fundamental do sujeito.
Desejaram criá-lo fora da lei da falta a que está submetido todo humano e criaram de fato um fora da lei!

1 Comentários

  1. eebest8 seo
    abr 8, 2016

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