Um castelo feudal– por Rosana Serena

E aquele lindo moço sempre foi assim tão esquisito?

Nascido de pais amorosos, mãe decididamente dominadora, nasceu caçula de três irmãos.

Desde sempre o mais bonito e inteligente da família, entregou-se as atividades escolares com certa destreza.

Aos vinte e três anos já engenheiro formado faz a suas primeiras incursões no mundo exterior, fora dos muros da fortaleza familiar…

Como castelão saindo pela primeira vez de seu castelo medieval e fazendo suas primeiras incursões nas cercanias da aldeia ele estaca repentinamente, em estupor mental, imobilizado por minutos que pareceram horas, e lhe parece que se explode em mil pedaços desconexos o pensamento, então recua lentamente em direção de regresso ao feudo familiar.

Transposta a ponte levadiça em torno do fosso protetor ao derredor do castelo a mãe está com suas severas vestes de rígida castelã a lhe esperar.

O pai mais ao longe sem tomar conhecimento deste retorno, em sua grande e tosca mesa de madeira está a se saciar com as carnes de sua última grande caçada.

O lindo e preparado moço é conduzido pela mãe e seus criados a seu aposento feudal.

No início, ele vinha à mesa com os familiares se juntar as grandes atividades comensais.

Aos poucos começou a evitar esses encontros, e com o tempo evitou todo o tipo de contato humano, e seus movimentos restringiram-se a esgueirar-se pelos túneis internos de proteção do castelo feudal. E ninguém jamais o viu novamente!

Hoje limita-se a ficar trancado em seu rude e tosco quarto uma vez que castelos feudais nada tem de belos e majestosos, pois são pensados como verdadeiros fortes de proteção.

A única pessoa com quem mantém contato é com a mãe, quando essa lhe leva alimentos.

A castelã não permite que o pai ou mesmo os familiares mais íntimos dele cheguem perto para não perturbá-lo, pois nessas ocasiões ele torna-se delirante.

Em nada lhe incomoda o aprisionamento do filho sendo ela uma feliz carcereira de seu rebento!

A principal função de um castelo feudal não é a de servir de residência, mas sim proteger o feudo como a construção fortificada que é.

A estrutura defensiva de tais edificações é impressionante. A primeira defesa é a de um fosso que possui uma ponte levadiça, único caminho de acesso até a primeira porta que também é defensivamente construída com túneis para ambos os lados que terminam em grandes bloqueios de pesadas portas.

Ao redor do fosso, sempre há uma muralha intransponível de 10 metros de altura e 8 metros de espessura. Dentro dos muros existem mais muros com a mesma estrutura do externo, e só depois é que se vêem as estruturas nas quais vivem os senhores feudais.

Uma mãe psicotizante é aquela que se apropriará da própria cria. Aquela que se sentindo toda, junto ao seu bebê, não permitirá a entrada do pai real, cuja função seria a de separar essa díade e subtrair a criança da total subjugação ao desejo materno. Função de castração que permitirá a criança-bebê simbolizar uma perda imaginária de uma mãe sempre presente. Operação que permitiria à criança, a entrada no registro simbólico e que fica vetada ao psicótico pelo veto materno a entrada do pai nessa relação simbiótica com seu bebê.

Uma mãe psicotizante é aquela que erige em torno do seu filho, tal como num castelo feudal uma rede defensiva que garantirá a apropriação segura da torre do castelo.

É preciso que se diga que haverá que se ter um pai que corroborará para o sucesso de tal ação materna, sendo ambos dirigidos pelos próprios códigos interno.

E assim será que encerrado este sujeito estará, não na torre do senhor feudal destinada à residência familiar, mas nos calabouços do feudo materno que lhe servirão como prisão perene do seu existir!

E de lá será que ele viverá entre seus delírios e alucinações!…

 

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *