K-Pax – O caminho da luz – por Rosana Serena

Ele sempre fora um menino limitado, calmamente estranho. Nunca reagia a nada!

Filho do meio de um casal abastado e intelectualmente privilegiado nasceu sem fazer barulho algum, custou para chorar!

Era um bebê calado e aparentemente tranqüilo, mas logo foi atropelado pelo nascimento de uma irmãzinha que foi para os pais a festa da casa.

Quieto, calmo e bem humorado fora sempre pouco inteligente e perspicaz e talvez sentisse pesar-lhe a sombra que lhe faziam as suas irmãs.

A mãe dizia que o nascimento determina o que os filhos serão, e ele já nascera preguiçosamente sentado, tendo preciso ser ajudado a nascer com “fórceps”.

Cresceu assim sem marca nenhuma de sua individualidade a não ser esta com a qual pela mãe fora marcado.

Nunca ousou nada como fazem os meninos. Nunca reagia com entusiasmo a nada.

Não ia bem na escola, e nem em coisa alguma!

Disléxico nunca aprendera a ler e escrever e resistia a ir à escola.

O pai percebendo tais limites colocou-o debaixo de seu poder protetor. Era preciso insistir muito para fazê-lo se movimentar, era levado à escola, senão não ia. Era ajudado a fazer os deveres diários de cuidados consigo mesmo, se não, não fazia.

Mais que tudo era preciso insistir para que saísse da cama onde poderia dormir o dia inteiro se o pai permitisse, faria de lá seu ninho perene.

Vencer sua resistência aos movimentos na vida foi para o pai sua grande tarefa. Deu-lhe carros velozes, motos potentes que lhe davam certa mobilidade, por certo tempo! Mas sempre voltava a se aninhar no leito familiar.

Cedo deixou de estudar, pois não havia como evitar a sua evasão diária da escola, não completou o secundário e não demonstrava interesse especial por nada.

Mas era um bom rapaz, com um senso de humor especial que fazia dele muito agradável. Ademais com ele não se podia brigar, na medida em que manso e imutável não reagia nem mesmo com as palavras.

Casou-se jovem com a única namorada de infância. Amparado financeiramente e protegido profissionalmente pelo cargo exercido ao lado do pai, teve uma vida quase normal…

O pai, as irmãs recomendava: “se eu faltar cuidem de seu irmão”, mas crítica nenhuma acrescentava, pois hoje suponho que aquela época do limite do filho ele bem sabia, e bem aceitava.

Ademais de tudo o que dele podia se dizer é que era um bom moço! Brando, calmo e sossegado era um manso!

Teve três filhos dos quais a primogênita lhe saiu muito mais estranha do que ele fora.

Sua vida seguiu mansamente até a morte do pai, cuja função de incitá-lo à vida foi pelas irmãs herdada em cumprimento do pedido paterno, e assim parecia que a ausência pai não pesou-lhe a vida.

Acomodou-se aninhado na relação materna e iam bem os dois nessa parceria sem cobranças até a morte da mãe, perda da qual também não se tem notícia do impacto sobre ele, pois como de praxe ele não reagiu.

Mas a vida gira como um pião mesmo para aqueles que se mantém paralisados. E nesse giro ele perde repentinamente a mulher, única namorada de uma vida inteira e aí foi notável sua reação de recolher-se em si mesmo. Deixou de movimentar-se pela vida, seguiu pesadamente alguns poucos protocolos de pai-viúvo.

O filho, se via que tinha problemas, mas ele não agia, porque não saberia como, mesmo que quisesse. O golpe final vem-lhe com a morte do filho, vida jovem violentamente ceifada por parceiros de droga. Perdeu com isso a única força de vida que lhe existia na existência, seu filho varão idealizado!

E mansamente ele foi embora, sem choro tal como havia nascido…

Hoje recolhido irremediavelmente para dentro de si permanece imutavelmente – imóvel na casa silenciosamente esvaziada.

Não se tente com ele comunicar. Não há caminho!

Ninguém que o ama lhe exige uma saía dessa posição, por compreender que para ele foi a única possível!

Ele foi para o planeta “ K-Pax”[1], lá onde ele absorto e recolhido da vida terrena encontrou o seu caminho de paz, e a paz de seu caminho.

Lá onde ele está, deve ver-se feliz ao lado do filho da mulher e dos pais em grandes e alegres aventuras que nunca foi capaz de aqui nessa vida viver.

Ele encontrou o caminho da luz e está agora em paz!

 

 

 

 

 

 

 

 



[1]  K-Pax – O caminho da luz, dirigido por Iain Softley, estrelado por Kevin Spacey, roteiro adaptado do livro homônimo escrito por Gene Brewer, filme precursor de um subgênero chamado “psicodrama Scifi”, filme esquecido injustamente pela crítica americana. É um drama que se passa em um hospital psiquiátrico em torno de uma dúvida: se a personagem que se denomina Prot é um ser do planeta K-Pax ou um psicótico.

A dúvida se mantém pelo argumento das mais sofisticadas teorias da astrofísica que Prot sustenta com louvor, apresentando soluções de equações matemáticas consideradas impossíveis para um humano.

Seu psiquiatra não se deixa impressionar e segue firme no desvendamento enigmático de pistas procuradas na estória de vida de Prot.

E na própria estória de vida que se torna compreensível o drama!…

De fato Prot que atribuiu dia e hora para retornar ao seu planeta, K- Pax desaparece em si mesmo em estado de catatonia nesse dia e nessa hora que é comemorativa de seu trauma pessoal.

Um estado catatônico é aquele que coloca a pessoa indiferente ao mundo exterior, vive nos seus pensamentos como se criasse um mundo só para ele.

 

 

3 Comentários

  1. Rosangela
    maio 29, 2014

    RO tive o prazer de habitar com ele alguns momentos memoráveis de trabalho e humor! Tenha certeza que ele está bem excelente texto sempre.

  2. Lelia
    jun 2, 2014

    Rosana,

    Li, uma…duas…várias vezes e em cada leitura, chocada o vi em seu estado atual.
    Confesso que levei um choque, pensei que ele nos havia deixado sem aviso,mas……..acabei entendendo que isso realmente aconteceu ,porém não fisicamente. Vi o vazio em que se encontra e fico mais triste ainda ,pois seu ” carma” é pesado demais.
    Esse texto é perfeito, como todos os que você escreve.

  3. seo fiverr
    abr 8, 2016

    Major thankies for the article post.Really looking forward to read more. Really Cool.

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