Nosso senhor, do Glória – por Rosana Serena

Ele era um sábio, sem saber que era como são todos os sábios!

Cientista de formação e médico por vocação!

Não se considerava um corajoso, mas o era na medida em que, em um tempo de fechamento total, abriu os portões de uma muralha inexpugnável e deixou entrar os jovens revolucionários porta adentro.

Teve a ousadia de nesse grupo incluir alguns que outros guerrilheiros, de guerrilhas intelectuais que haviam sido expulsos de seu país de origem.

Humanista que era, sem saber do seu real valor, inovou a orientação do momento, como tratamento daqueles considerado doentes mentais, para a terapia medicamentosa usando seu conhecimento científico. Criou o que na época ele chamava “três por um”, um composto medicamentoso para acalmar os grandes surtos agressivos, perigosos principalmente para o próprio paciente que necessitava de uma contenção psíquica. Atitude terapêutica usada sempre como último recurso.

Em sua honradez humanitária e em primeira opção de amparo terapêutico, criou um atendimento de suporte onde sete pessoas recebiam e acolhiam o paciente, dando continente físico e emocional para o surtado.

Por trás dos grandes portões de entrada libertou os pacientes da prisão em que viviam paralisados, estagnados no tempo, criando as unidades terapêuticas funcionais compostas por equipes multiprofissionais, que tomavam ao seu cargo o tratamento de um determinado grupo de pacientes.

A abordagem era o que hoje se chamaria multiprofissional, mas à época chamava-se de abordagem da psiquiatria social ou dinâmica. Eram os ideais da comunidade terapêutica!

Impacto total de inovação aquela época nos idos dos anos setenta, em plena ditadura!

Subversão total de conceitos arcaicos e ultrapassados da medicina psiquiátrica!

Conceito de comunidade terapêutica, conceito um tanto subversivo se considerasse as políticas da época.

A equipe somavam-se quarenta pessoas entre musicoterapeutas, praxisterapeutas, assistentes sociais, psicólogos e médicos psiquiatras.

Coesos e integrados cada grupo multiprofissional, representava e atendia um número de pacientes separados por setores. Havia as discussões de casos diárias previamente a entrada em campo.

Seus ideais eram nobremente e eficientemente alinhavados por sua herdeira intelectual, como coordenadora geral.

Semanalmente as discussões de cada grupo profissional alimentavam a também semanal discussão da equipe inteiramente reunida, para alinhavar os ideais e práticas de atendimento.

Eram todos dirigidos por um supervisor institucional que vinha de outras fronteiras de fora do estado, mensalmente para os encontros gerais.

E ele, na direção geral, este senhor de cabelos cor de prata e tipo sanguíneo se comprazia de todos os pequenos ganhos que se conquistava no grande desafio que sempre é tratar os doentes mentais. E afirmava e confirmava seus ideais, dando o poder de mudança a seus jovens revolucionários.

Hoje, diante do quadro geral de retrocesso nessa abordagem pode-se com certeza afirmar: foram tempos de glória! A glória do respeito à dignidade humana! A glória de tratar humanamente os pacientes que necessitavam realmente desse estágio de paragem em uma instituição.

Não qualquer instituição, mas àquela que podia reconhecer que “o doente mental era o elo mais fraco de uma corrente que se arrebentou”, Dr. Laing, e que este o doente mental era o representante de um mal-estar difuso na família e na sociedade. Porta-voz de disfuncionalidades localizadamente da civilização humana.

Foram tempos de muito aprendizado e amor, e por vezes muita dor, diante dos impasses da doença mental e seus desafios de tratamento.

Não se sabe cientificamente os resultados desse trabalho uma vez que pesquisa nenhuma foi aplicada.

Mas foram momentos de glória e bem-aventurança, e respeito vivido e sentido principalmente por aqueles em que todos os recursos psíquicos e sociais falharam na tentativa de torná-los um sujeito consideradamente normal.

Sobretudo foram momentos de glória para os que no entorno desses ideais acreditaram que o amor e dedicação poderiam ser uma salvaguarda à doença mental.

Foram momentos de glória suprema do afeto humano engendrado e dirigido pelo de cabelos prateados, nosso senhor, do Glória[1].

– Glória Patri!…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] Hospital Psiquiátrico Nossa Senhora da Glória, dirigido pelo Prof.Dr. Menotti Pannunzio Filho de 1965 até1985.

 

1 Comentários

  1. seo fiverr
    abr 8, 2016

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