Senhor ou servo? – por Rosana Serena
E ele a todos atendia sem sequer pestanejar e era um tal de dar e comprar e as contas dos outros acertar, que só de olhar dava para bem cansar.
Um a um, todos pediam e se serviam sem sequer se envergonhar, e ele com seus agradecimentos nunca se cansava de se ver adular e já tantos outros novos pedidos se via essa gente rogar para seu novos favores conquistar.
Mas de graça é que não era, sua graça oferecida, pois no alto desse monte ele estava como grande deus a se ver por todos venerar. E não fizessem o que ele quisesse para vê-lo alguns com sua força contra a parede se ver jogar, ou no fogo se ver atirar ou ao inferno se ver condenar.
E parece que é ele quem manda e que é tudo como ele quer, mas acontece que nesse jogo não se sabe bem quem creditar, pois parece que o que todos querem mesmo é um ao outro dominar.
E uns dos outros estão a se servir, pois quem é que serve quem, quando estão todos a se usar. E é tão feio de se ver que até chega a enojar, pois se lanham e se batem e logo estão a se abraçar.
E entre eles se devoram e nem parecem se desgastar, mas é sempre bem difícil de contemplar, chega mesmo a horripilar, principalmente por que a você, chamam e insistem a participar.
Que gente mais esquisita nessa forma de amar, é mesmo de se arrepiar de ver essa gente desse jeito se relacionar. Essa gente é literalmente de prejudicar por isso é melhor dela se distanciar.
E prometem o que não cumprem, e dizem e desdizem e nem parecem se lembrar, e se você insiste na verdade parece que é você que está a falsear. E para eles e tão crônica essa forma de operar que a transgressão cotidiana é o seu principal tarefar.
E o pastor está o seu rebanho a pastorear, mas esses carneirinhos que às vezes parecem tão mansinhos no pasto a pastar deixem a porta aberta e você vai ver que na sua casa de vizinho, vão tudo devorar.
Mas olhe bem, que você poderá reconhecer o Monte do Olimpo, onde habitam esses deuses, Zeus (Outro)[1] o deus dos deuses em desconforto se contorcer para seu lugar poder manter, pois desde Hera a esposa até o mais dileto filho ele precisa se esforçar para poder subjugar.
De artifícios e artimanhas, e entre divindades paralelas e semideuses por ele mesmo bem criados, ele precisa saber viver para seu lugar poder manter, pois ele sabe muito bem que ninguém pode dominar sem uma plêiade para lhe sustentar. Mas cruel é seu ofício, pois todos acabam pelo poder de gozar[2] se digladiar e ele pobre Zeus não é ninguém sem o outro nesse lugar a lhe sustentar.
E nessa plêiade de deuses é Zeus que todos querem bem servir, que o perverso[3] bem sabemos fará tudo para uma divindade agraciar.
Mas que trabalho mais difícil o tempo todo a tomar essa gente que não quer crer que a castração[4] existe e não é possível nesse incessante desmentir ela se desmantelar. E, na verdade, bem parece que Zeus é assim quem mais está a trabalhar, pois além de toda essa gente ele tem seu próprio deus para venerar.
[1] Lacan, J. (1960) Escritos,Editora Perspectiva S.A , 3ª edição,São Paulo, 1992,p.308.
O perverso se imagina ser o Outro para assegurar seu gozo
[2] Gozar é um sofrimento que promove satisfação. E esta aí a marcação de gozo.
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0102-73952004000100006&script=sci_arttext-
[3] Perversão nomeia uma posição ante a castração e cuja estratégia fundante é o desmentido, um ato psíquico que consiste em tratar uma percepção como impensável.
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S0102-73952004000100006&script=sci_arttext-
[4] Castração- operação pela qual se desimaginaria o falo como mito de toda potência, perda imaginária da completude.
Ro!!!! Que orgulho de vc sogrinha! Um texto melhor que o outro. Parabéns!!!! E que você continue alegrando nossos olhos e aquecendo nossos corações com suas lindas palavras!
Já sou sua fã número um