Vendo a banda passar… – por Rosana Serena

De forte presença, presente e ativa ela põe tudo para funcionar. E planeja e projeta e põe tudo para executar sem nada para trás deixar.

E se a civilização existe é preciso a ela agradecer que nessa vida ela veio, é mesmo para fazer isto ver acontecer.

Essa garota é aquela com quem você pode sempre contar! Sua vida e bem regrada e com ela é sempre fácil de prever o que irá acontecer, pois ela não permite que da linha bem traçada o imprevisto venha alguma coisa modificar, e o próximo passo sempre saberemos quando e como, e de que jeito vai se dar.

Uma vez com ela combinado nada vai se modificar, pois da palavra dada, ela nunca volta atrás, por isso é que com ela todos podem sempre contar, que jamais irão se decepcionar.

Seu amor é incondicional e quase como um cãozinho está sempre a lhe provar que é fiel a você sem nunca se cansar.

Rigorosa e exigente ela está sempre a lhe cobrar todo o afeto que ela sente que em você está a depositar.

E sempre irritada ela está com alguma coisa que está fora do lugar, e as pessoas parece, que estão sempre a lhe incomodar, pois obrigada ela se sente, sempre com a regra vigente a lhes adequar.

Ela é sempre a primeira em tudo se destacar, e pode na sua mão entregar qualquer tarefa, que se ela se responsabilizar, a qualquer custo irá realizar.

E com ela seu relógio você pode acertar, pois uma vez o compromisso marcado na hora certa ela irá lá estar.

Meticulosa e escrupulosa, por ela você poderá pautar todas as regras e leis de uma vida inteira para viver. O esforço ela não mede se tem que fazer valer uma regra estabelecida para um moralizante bem viver.

E ela nunca para, e está sempre alguma coisa a planejar e já logo em seguida seu plano realizar, outro mais irá executar.

Mas que eficiente ela é! Mas de noite ela mal dorme porque os planos mentalmente se acumulam com a realização do planejamento do novo dia a raiar.

O dever existe e é preciso realizar, mas para ela só o dever existe e é isso que está na vida a lhe direcionar. Ela não sabe bem o que é o prazer, ou se sabe não consegue em sua vida por este sentimento se pautar.

E escondida ela lamenta porque queria tanto ter a alegria do prazer que na vida dos outros vê acontecer. Mas ela esconde muito bem sem deixar transparecer todo mal-estar que sente, sem deixar para ninguém esse sentimento aparecer.

E isso é o que ela pensa, pois que todos bem percebem sempre presente o seu imenso desprazer, pois que ela não consegue desfrutar nem sequer do seu próprio laborar, uma vez que está sempre do peso do dever a se queixar.

E desgostosa ela vive a se perguntar por que na vida está sempre se sentindo como na música, a moça que está na janela vendo a banda passar.

Seu sentimento mais real é que ela sente que a vida é uma festa, ela que não está habilitada a participar, e que está condenada na vida a trabalhar para um outro comemorar.

“O sintoma emerge como um derivado múltiplas vezes distorcido da realização de desejo” [1].

Na neurose obsessiva o sintoma como uma satisfação se constitui de forma complexa e múltipla e se funde com tal sintonia com o eu do sujeito que passa a se tornar traços fundamentais de sua personalidade. Tal construção complexa faz parecer para ele, e para os outros que é superior, pois estas pessoas são especialmente limpas, conscienciosas e organizadas e extremamente eficientes.

No entanto tal satisfação substitutiva implica em uma satisfação do que foi recalcado [2] por não ser aceito pelo eu, e mesmo que estando o desejo sob máscara ou disfarce se apresentando, sua satisfação é sentida como sofrimento, pois é uma rememoração viva do que se pretendeu recalcar.

Podemos mesmo afirmar que o obsessivo acaba por evitar o prazer para não ter que se confrontar com a angústia que lhe traz a realização da satisfação recalcada. “É a face do horror ao prazer todo seu” [3], como se referia Freud ao pior medo do obsessivo

Dessa forma o prazer para o obsessivo será evitado sempre ao ponto em que possa se realizar, e o transformará em um espectador que sofre, vendo a banda alegremente passar.

 



[1] FREUD, S., (1916-1917). Conferências introdutórias sobre psicanálise parte III, Conferência XXIII, “Os caminhos da Formação dos Sintomas”: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XIV, Rio de Janeiro: Imago, 1976, pg.427.

[2] FREUD, S., (1910). Cinco lições de psicanálise, Leonardo da Vinci e outros Trabalhos, Segunda lição: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. XI, Rio de Janeiro: Imago 1970: , pg.25

[3] FREUD, S., (1909). Duas histórias clínicas, O pequeno Hans e o homem dos lobos, extrato do caso clínico, “O grande medo obsessivo“: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. X, Rio de Janeiro: Imago 1970, pg.171

 

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