Pessimista! – por Rosana Serena

Pessimista! Você diria dela para em uma palavra lhe bem definir.

Atualmente era comum que repentinamente suas mãos gelassem, e que lhe faltasse o ar, e que se sentisse atemorizada que da crise não iria se salvar. Imediatamente acendia um cigarro e isto lhe trazia uma certa calmaria…

O que se passava com ela? Sentia-se tão diferente e sentia todos tão indiferentes ao seu pesar.

Não viajava, pois seu temor de avião era maior que o de transitar pelas estradas de carro. Trancava-se em casa, superava-se todos os dias, por que seu desejo era no quarto se isolar e proteger-se de todos os perigos, tão absurdamente previsíveis, mas ela tinha responsabilidades e então mexia-se…

Ademais, não queria mostrar seus sentimentos, pois sabia que diante do outro a sua fragilidade emocional se  revelaria e ela teria que ouvir que era uma pessoa negativa que só pensava o pior. Ela não queria ser vista desta forma. Ela não queria ser como era!

Envergonhava-se e procurava esconder o que sentia, mas nem sempre lhe era possível escamotear. Acusavam-na de pessimista e ela magoava-se com a conotação de acusação moral do seu pensar e agir.

Estava sempre terrivelmente com todos preocupada, assolava-se um sentimento de perigo eminente a atingir aos que amava. Não se cansava de lhe fazer as preleções costumeiras de cuidados os mais detalhados ao dirigir, viajar, passear. Faziam-lhe troça de suas preocupações e ela se magoava, e mais ainda se preocupava com a despreocupação deles.

Acordava à noite suando, e seus pensamentos eram desagradáveis e ameaçadores, pois intuía que todos que amava poderiam estar em risco. Fazia a chamada mental de cada um de seus amores e procurava apaziguar-se, pensando que àquela hora eles deveriam estar protegidos no conforto de uma cama em seus lares. Mas como já fora muitas vezes despertada para atender a algumas situações de emergência, isso não lhe assossegava. Com o clarear do dia vinha uma certa calmaria, mas aí ela precisava agir, e de um a um, ia se certificando que todos estavam bem.

Com o dia também lhe chegava uma sensação de irritabilidade geral, tudo lhe incomodava e principalmente os barulhos diurnos de uma casa em pleno funcionamento, música alta, som da televisão ao fundo, a tagarelice matinal dos familiares. Passava o dia como quem enfrenta uma luta desgastante.

Sentia-se terrivelmente cansada, sempre cansada e sem energia e justificava-se da sensação com seu excesso de atividades diárias, mas sabia que não era isso, por que não sentia-se descansar mesmo quando estava descansada.

Não se sentia nunca a vontade em nenhuma situação, sentia sempre o perigo à espreita, o mal-estar como sua companhia mais fiel. Não havia um minuto que ela não estivesse preocupada com alguma coisa. Ela sempre se preparava para o pior!

Sentia-se controlada por pensamentos e idéias sempre ligadas a coisas desagradáveis que podiam acontecer com ela ou qualquer um dos seus.

Mas que pessoa é essa que está sempre a presumir que o mal estará sempre a lhe apontar?

Pessimista, você a acusaria!

E exortando-a a mudança, moralmente você a repreenderia.

“A expectativa ansiosa é o sintoma nuclear da neurose de angústia.” [1] Seu quadro clínico compreende os seguintes sintomas:

a)      Irritabilidade geral e em especial atenção a hiperestesia acústica

b)      Expectativa ansiosa, uma tendência a assumir uma visão pessimista das coisas estando o perigo sempre a espreita, sendo esse sintoma o principal

c)       O sentimento de ansiedade pode estar ligado ao distúrbio de uma ou mais funções corporais, tais como a atividade cardíaca, a inervação vasomotora e a atividade glandular. O sentimento de ansiedade pode aparecer como o sentir-se mal ou não estar à vontade.

d)      Ataques de ansiedade que podem aparecer como distúrbio cardíaco respiratório, suores, tremores, calafrios e vertigens locomotoras

e)      Acordar com medo à noite

f)       A vertigem propriamente dita, a sensação de que o solo oscila, de que as pernas cedem.

g)      Dois grupos de fobia que se destacam o primeiro relacionado a riscos fisiológicos gerais, medo de cobras, tempestades, escuridão insetos etc. O segundo refere-se em relação à locomoção como agorofobia e outras formas similares

h)      As atividades digestivas são comprometidas com sensações de náusea, vômitos e ataques de fome avassaladora

i)        As parestesias, sensações corporais anormais, não causadas por qualquer estímulo real

j)        Sensação permanente de cansaço e assim por diante.

E agora, compreendendo um pouco mais este penar, será que um pouco de sua compaixão humana nossa pessimista poderia contar?

 



[1] FREUD, S., (1893-1899). Primeiras publicações psicanalíticas, Sobre os escritos para destacar da neurastenia uma síndrome particular intitulada “neurose da angústia”: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud. v.III. Rio de Janeiro: Imago, pg. 110

FREUD, S., (1893-1899). Primeiras publicações psicanalíticas, Uma réplica as críticas do meu artigo sobre “neurose da angústia”: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud, v. III Rio de Janeiro: Imago, pg.146

 

 

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *