Mais que ti!… – por Rosana Serena
Do amor!…
O que é o amor?…
Dizem que não tem explicação! Porque parece que no coração ninguém manda, e que é ele escolhe sem perdão ou permissão!
Mas nosso poeta diria que o “amor é quase uma dor só”, e podemos encontrá-lo assim retratado na canção, mas convenhamos é um pensamento e um sentimento muito masoquista!
E o filósofo muito mais, diz que transcende e se eleva do Espírito à universalidade da Razão, mas é muito filosofal e consideremos que essa tal filosofia como verdade do sujeito, com o desvelamento do inconsciente já sofreu uma grande superação!
A religião nem se discute, e nos ordena uma máxima irrazoável: “amarás ao próximo como a ti mesmo”, que é quase uma condenação, pois que é impossível de cumprir! E é certo que nos sintamos por esse preceito não cumprido, um tanto culpados!
E com Freud1 aprendemos que a escolha é inconsciente e que além do mais e pré-determinada por um estatuto interior, que se amamos, é em conformidade com o tipo narcisista ou o tipo analítico. De acordo com essa teoria construímos em nosso ciclo edipiano um modelo de identificação a seguir e um modelo de objeto libidinal a perseguir. E assim convenhamos que nossa escolha não fosse por mero acaso do destino, ou de nosso coração!
E com Lacan2 devemos reconhecer que “amar é dar o que não se tem”, pois que de fato ninguém pode dar a outro o que não tem para si mesmo, a completude! Amar segundo esse preceito é reconhecer a sua falta e doá-la ao outro, e que, portanto esse encontro entre dois será sempre faltoso. Segundo esse ensinamento só quem sua falta reconhecer poderá verdadeiramente amar, mas isso é bem difícil de aprender!
Há ainda os descrentes que dirão que o amor não existe no que tem razão, pelo menos idealmente, e estes são aqueles que se creem completos sozinhos que não sabem ou não podem amar, porque não reconhecem sua parcialidade. E estes constatarão na solidão essa sentença!
Mas os amores eles existem entrelaçando às pessoas!…
Dos amores, há o dos obsessivos, que são amores sempre exaltados e exigentes, pois quem o outro garante quer a garantia para si! Estes são aqueles que querem ser tudo para o outro, e nesse impossível de concretizar, tornam-se amores para lá de obcecados…
Mas há aqueles insatisfeitos para os quais nada nunca está bom, sempre falta alguma coisa que estão do outro a exigir! E nesses relacionamentos aprendemos duramente que a questão histérica não há como responder…
Ainda há aqueles que amam o amor, pois são muito erotizados e estão sempre apaixonados, e amar e ser amado é um jogo sempre novo a ser jogado! E estes são como caçadores capturados pela caça em uma caçada interminável…
Há ainda alguns piores que só a si mesmos podem amar, e o outro nada mais é do que um espelho a se espelhar! E estes vivem por si mesmos apaixonados, e consigo mesmos estão sempre tão abraçados, que não possam com ninguém mais, se entrelaçar…
Para nem falar dos vorazes e esfaimados, que o parceiro consome de tanto ao outro devorar e estes são tão grudentos que chegam com a própria gosma, um ao outro sufocar…
E há pares mais esquisitos que gostam de se machucar e nessa dinâmica sempre estão, muitas vezes até quase se matar, e estes como cão e gato gostam de se comportar…
Há os amores paranoicos, onde o ciúme doentio com a sombra de um outro imaginário está a relação a assombrar, e estes são amores em que não se podem confiar.
Perguntas e respostas não são fáceis dessa questão elucidar.
Mas esta prosa pode bem se finalizar com uma frase que não é minha, mas de um sábio que não conheço, mas reconheço que a questão do amor pode definitivamente equacionar.
Quem ama ao outro, cuida de si, para com sua própria carga, ao outro não apenar!
E com esta afirmação está encerrada a questão
__________________________
1 FREUD, S., (1914), Obras psicológicas completas, “Sobre o narcisismo: uma introdução”: Edição standard brasileira das obras psicológicas completas de Sigmund Freud, v. XIV, Rio de Janeiro: Imago, pg. 107.
Uma pessoa pode amar:
1) Em conformidade com o tipo narcisista.
a) O que ela própria é (isto é ela mesma)
b) O que ela própria foi
c) O que ela própria gostaria de ser
d) Ou alguém que foi uma vez parte dela mesma
2) A partir do tipo analítico
a) A mulher que alimenta
b) O homem que protege, e a sucessão de substitutos que venham a ocupar o seu lugar.
2 LACAN, J., (1960-1961) “O seminário – livro VIII – A Transferência “, Jorge Jahar editor, Rio de Janeiro: 1992,pg.41
LACAN, J., (1960-1961) “O seminário – livro XVII– O avesso da psicanálise “,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro: 1992, pg.49
LACAN, J., (1960-1961) “Escritos. A direção do tratamento e os princípios do seu poder “,Jorge Jahar editor, Rio de Janeiro, 1998, pg.624
Im thankful for the blog. Will read on…