O enigma – por Rosana Serena

Decifra-me ou te devoro! Era o desafio da Esfinge aos viajantes impedindo sua entrada em Tebas.

A Esfinge foi um importante tema mitológico nas antigas civilizações do Egito e na Grécia. Na mitologia grega a Esfinge é um demônio exclusivo de destruição, e da má sorte, e de acordo com Hesíodo, poeta e historiador, a Esfinge é uma filha de Quimera e Ortros.

A Esfinge possuía cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia, era um mostro devorador e foi enviada pela deusa Hera para cidade de Tebas, como punição a Laio, o rei, por seu romance homossexual com Crísipo. A Esfinge trouxe à cidade morte e destruição, arruinou suas plantações afugentando e aterrorizando os moradores da cidade. A criatura, no entanto, propôs se retirar do local se alguém conseguisse decifrar o seu enigma, porém aquele que não o decifrasse seria por ela devorado. O enigma era:

_ Que animal caminha com quatro pés pela manhã, dois ao meio dia, e três à tarde e é mais fraco quando tem mais pernas?

Édipo foi quem solucionou o mistério:

_ O homem, ele respondeu, pois ele engatinha quando pequeno, anda com duas pernas quando é adulto e usa bengala na velhice.

Ao ver seu enigma solucionado a Esfinge suicidou-se lançando-se num abismo. Édipo como prêmio recebeu o Reino de Tebas e a mão da rainha recém enviuvada. Esta história está assim contada na tragédia grega Édipo- Rei[1] de Sófocles, o grande dramaturgo da antiguidade, e remete ao século V antes de Cristo:

Em certa ocasião Laio, rei de Tebas em consulta ao Oráculo de Delfos, foi advertido que haveria perigo para sua vida e seu trono, caso crescesse seu filho recém-nascido, ele então, entrega rapidamente a criança a um servo com ordem de que fosse morta. No entanto, o servo cruelmente acovardado, amarra a criança pelos pés e o deixa pendendo de ponta cabeça do ramo de uma árvore para ser devorado por animais selvagens. O menino assim é encontrado por um camponês e levado por ele aos seus senhores, que eram reis de Corinto, que o adotaram e lhe deram o nome de Édipo (pés distendidos).

Crescido, o jovem Édipo consulta o Oráculo de Delfos como era hábito àquela época, que lhe vaticina tornar-se ele, assassino de seu próprio pai. Horrorizado e a fim de evitar seu destino profetizado, o jovem Édipo abandona a cidade de Corinto onde reinam Pólebo e Merope, que ele acreditava serem seus pais.

Fugindo de seu cruel destino e viajando por uma estrada muito estreita, ele encontra-se abruptamente com um viajante e seu servo. Este senhor agressivamente exige prioridade da passagem pelo caminho, e o jovem Édipo firmemente se recusa. O lacaio revida a firme negação e mata um dos cavalos do jovem viajante, que em represália e defesa, mata o servo e seu senhor. E com este ato, cumpre-se a predição, tornando-se Édipo assassino de seu próprio pai, pois que o viajante era Laio, rei de Tebas, seu verdadeiro pai.

Seguindo despreocupadamente em sua viagem, Édipo chega a Tebas, em cuja entrada ficava a Esfinge, o monstro-devorador que detinha todos os viajantes que passavam pelo caminho, impedindo-lhes à passagem a entrada a cidade passagem, propondo-lhes a solução de um enigma ou a morte por devoração.

Édipo decifra o enigma da Esfinge, conforme está relatado na tragédia grega, ganha acesso a Tebas e a gratidão de seu povo, que faz dele seu rei, oferecendo-lhe a mão da rainha Jocasta em casamento. Torna-se assim o jovem Édipo, assassino de seu próprio pai e marido de sua mãe, e cumpre-se seu destino sem que inocentemente ele nada soubesse.

O jovem reina sobre Tebas com justiça e bom senso e vive em paz, por muitos anos, até o momento em que Tebas assolada pela peste faz com que Édipo agora seu rei, consulte Tirésias, o velho sábio do reino, em busca de solução, para por fim o drama de seu povo. Este, lhe afiança ser a causa das desgraças de seu povo, seu duplo crime: matar o pai, casar-se e ter filhos com a própria mãe. Ao se revelar toda a verdade Jocasta em desespero põe fim a própria vida e Édipo fura seus olhos e foge de Tebas.

A história de Édipo mostra que o homem pode desconhecer o verdadeiro sentido de suas ações, mas que se movimenta e age segundo esse estatuto interior de um inconsciente que lhe mobiliza e lhe dirige predeterminando seu caminho. Supostamente fugindo de seu destino, ele, por não saber a verdade sobre si, cumpre seu próprio destino inconsciente.

Da profundidade e possibilidades de análise do humano ofertadas pela tragédia grega, recortamos a do mais famoso enigma da literatura universal, o enigma da Esfinge, com o seu decifra-me ou te devoro, para fazer uma analogia com o grande enigma para o humano.

O sujeito encontra-se com seu desejo como o seu mais pujante e cruel enigma, decifra-me ou te devoro, é o que parece dizer o desejo inconsciente enquanto incógnita. São dois enigmas, para serem equacionados, um puramente intelectual que não dá acesso ao sujeito do inconsciente, outro puramente psíquico, permitindo ao sujeito, o saber de si.

O sujeito encontra seu próprio desejo como desejo do Outro (outro grande), o tesouro dos significantes[2], e nessa conceituação encontramo-nos aqui com um duplo questionamento, o que quer dizer o desejo do Outro (outro grande)? E então se anteriorizará a pergunta, o que é o Outro (outro grande)?

O desejo do humano precisa do Outro (outro grande) para se constituir como tal. O Outro (outro grande) é prévio ao sujeito. Ao vir ao mundo à criança encontra uma organização que preexiste ao seu nascimento, e nela um lugar prescrito, cabendo a criança ocupar esse espaço de desejo que lhe foi predestinado e no qual está previamente inscrito, cabendo ao sujeito ocupar esse espaço que lhe é destinado.

O Outro (outro grande) é aquele que recebendo a criança mediatiza-lhe o mundo oferecendo-lhe significantes e a possibilidade de apreender e compreender tal realidade, a que estará assujeitado. Em verdade, O Outro (outro grande) que é aquele que nos fundou psiquicamente, é aquele que nos oferece uma chave de interpretação de quem somos, e do que se constitui o nosso desejo, pois o sujeito se oferece como aquilo que falta ao Outro (outro grande).

Esta afirmação também alude ao fato de que o sujeito precisa em primeiro lugar modelar-se a imagem de um outro, o seu semelhante, para se hominizar, ou seja, identifica-se a uma imagem pra constituir seu eu, que deverá ser homologado pelo Outro (outro grande) através de seu assentimento e a ele caberá a função de oferecer as coordenadas desde onde o imaginário do sujeito se organizará.

E então a próxima questão é o que é desejo?

O desejo é sempre inconsciente, é uma força motriz do sujeito que o impele, e dirige suas ações em busca de satisfação. É uma falta que nos põe em movimento, em busca de procurar o objeto que nos falta! O desejo busca o objeto que lhe falta e este só poderá ser encontrado como desejo do Outro (outro grande),

O desejo do homem é encontrado como o desejo do Outro (outro grande) que nos fundou como desejantes, e pode ser como um enigma indecifrável e por uma vida toda nos levar a labirintos inexpugnáveis e dos quais não se possa escapar tornando-nos prisioneiros de nós mesmos. Condenados incessantemente e repetidamente a realizá-lo, tornando-nos inexoravelmente vítima de nós mesmos, atônitos e surpreendidos, com ações próprias aonde não nos reconhecemos  como agentes.

Édipo decifra o enigma da Esfinge e tem inadvertidamente o acesso ao seu trágico e predestinado destino inconsciente. Édipo traça seu caminho no traçado de uma história que o constituiu como sujeito, mas da qual ele nada sabia. Acesso negado a uma possibilidade de tomar outra direção. Destino cruel, inflexível, imutável e fixado em uma estória que o edificou, mas a qual não teve via de entrada. Destino inescapável, cumprindo-se!

O enigma do desejo não pode ser resolvido por uma questão intelectual, trata-se de lançar uma questão ao Outro (outro grande), esse que de cujos significantes recebidos estruturamos nosso inconsciente, única via de acesso possível que conduzirá o homem ao caminho de saber de seu próprio desejo. Esse percurso tem que ser feito com um par chamado psicanalista e a pergunta, o que desejo, e qual é meu destino, terá que subordinar-se à pergunta, o que esse Outro quer de mim?

Trata-se de uma questão reiterada e abalizada por uma transferência com um analista. A pergunta nesse percurso deve ser repetidamente reiterada até o ponto que seja possível para o sujeito fazer o desenhamento dos contornos do seu próprio desejo.

Não se curará do próprio desejo, mas dele se poderá estar advertido, pois este, como enigma não decifrado, fará com que na medida em que não, nos reconheçamos em nossas próprias ações, entre surpresos e assustados nos convertamos bobos de nós mesmos!

É então preciso escolher, se como heróis da tragédia grega ficaremos predestinados a cumprir ingenuamente um destino cuja tragédia é cumpri-lo por dele nada saber, ou, se vamos nos inquirir lançando em um processo de análise a pergunta:

_ O que esse Outro quer de mim?

 

 


[1] http://pt.wikipedia.org/wiki/%C3%89dipo_Rei – É uma peça Grega, em particular uma tragédia, escrita por Sófocles, por volta de 427 AC Aristóteles, na sua Poética considerou esta obra o mais perfeito exemplo de tragédia Grega, Freud levou o mito de Édipo a um dos pilares da psicanálise clássica, remonta a uma carta enviada por Freud a seu amigo Feliz, em que discute relações de poder e saber num drama encenado tipicamente, por pai, mãe filho.

[2]  LACAN, J. (1901 -1981). Escritos, São Paulo, Perspectiva, 3ª edição, pg. 285

1 Comentários

  1. seo fiverr
    abr 8, 2016

    Enjoyed every bit of your article post. Fantastic.

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