Refém! – por Rosana Serena

Ela sempre está a toque de caixa, sua família numerosa está sempre alguma coisa a lhe demandar. E ela sentia penosamente, pesar-lhe nos ombros todo o compromisso de uma grande família! Será?…

_ Vamos, vamos! Era o que ela mais ouvia deles a lhe cobrar agilidade rapidez no atendimento de um pedido que tinha sempre o peso de uma exigência.

Ou assim era como ela entendia?…

Atabalhoadamente seguia atendendo pedidos e mais pedidos, ou seria mais correto dizer, cumprindo ordens, pois os tais pedidos tinham para ela a conotação de verdadeiras ordens.

Ou seriam internas essas vozes?…

Tinha o sentido do compromisso! Lá estava sempre ela, extremamente cansada de ser tão responsável por tudo e todos, ao mesmo tempo em que ciosa e zelosa desse especial lugar por todos declarado, ela não queria de forma nenhuma dele abrir mão. E então trabalhava mais ainda arduamente para que mantivesse esse reconhecimento, e de qualquer forma ela acreditava que ninguém poderia lhe dar uma ajuda capacitada para diminuir-lhe o peso das responsabilidades.

Ou seria que era ela quem anulava qualquer possibilidade de auxílio?…

Tinha presente o dever moral! E tinha pavor de se sentir devendo algo a alguém e sendo assim se apressava urgentemente para todos atender e nada dever, mas por mais que se esforçasse para a dívida quitar, sempre o débito com o outro, estava em sua conta a se creditar.

Ou era só um sentimento?…

Tinha o ideal de perfectibilidade das coisas! Era afligida pelo temor intenso que fosse criticada por uma pequena falha dentre tantos deveres que se propunha a cumprir perfeitamente, e então se esforçava ao máximo para não deixar que alguma incorreção na execução da tarefa pudesse esse ideal quebrar.

Ou seriam apenas projeções de ideais?…

Tinha a casa impecavelmente arrumada, os filhos cuidadosamente bem atendidos e ao marido atendia com servidão! Mas ela mesma não compreendia tal posição de servilidade atual, pois fora de seus pais a filha mais mimada e deferida, e por isso não lhe fazia sentido ver-se no inverso da situação.

Ou eram apenas impressões?…

Para a longa lista de deveres finalizar e se põe incansavelmente a trabalhar. Mas já trabalhou tanto e tanto e tão incansavelmente, que chegou o dia que se esgotou, e esgotada como estava já não tinha mais força para sequer fazer minimamente seu limite físico respeitar. Mas de qualquer forma dos abusos e exigência do outro não consegue se livrar, pois deles está refém!

Ou seriam apenas errôneas sensações?…

Os amigos que lhe amam a admoestam e conclamam sua libertação. Os que não a amam usam sua prontidão do dever sempre a cumprir, para servir-se dela um pouco mais e por isso ela é aquela que é a primeira a chegar, é a última a sair e leva o trabalho para casa.

Ela se esgota fisicamente nesse tarefar infindável, porque parar não lhe seria possível, pois se a porta do outro a quem serve se entrefecha, neste vão ela certamente estará paralisada a sentir-se psiquicamente insolvente, num vazio espaço emocional, onde como corpo gasoso em expansão se dilui. Nesse momento crucial ela antevê seu desvanecimento, horror que é laboriosamente evitado, pela corrente de servidão bem atada e nesse momento rapidamente reatada ao outro.

O obsessivo apresenta-se a se constituir como ser tudo para o outro, para que o outro não lhe escape é necessário que ele exerça um controle sobre todas as coisas[1]. Ele escolhe servir para obter esse reconhecimento. O sujeito obsessivo quer ser amado pelo outro por sua inteireza pela qual ele dedica uma vida para mostrar-se como tal. Sua fantasia é que se esforçando para atender a demanda do outro, ele oferecerá reconhecimento e será amado e para tal garantir, ele se coloca numa posição de servidão.

Lacan definiu o sujeito obsessivo como aquele na infância que foi fortemente privilegiado pela mãe e, ou seja, que teve o estatuto de objeto privilegiado do desejo materno[2]. O obsessivo seria então aquele que mantém a identificação ao falo e ele fica amarrado a essa identificação, e esta é a razão de querer ser tudo para o outro e é claro que para tal ele terá que se por ao intenso trabalho de lhe atender as demandas inesgotavelmente.

Temos então alguém que está refém de si mesmo e de um desejo seqüestrado, pois ele não pode confrontar-se com seu próprio desejo que para si mesmo é insuportável uma vez que comporta a dimensão de uma castração estruturante que fracassou!

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] Neurose obsessiva: uma opção pela servidão voluntária –Denise Tinoco Blanc – Corpo Freudiano – Rio de Janeiro

[2] Neurose obsessiva: uma opção pela servidão voluntária –Denise Tinoco Blanc – Corpo Freudiano – Rio de Janeiro

2 Comentários

  1. Rosangela
    ago 18, 2014

    Ainda bem minha amiga que vc e refém de sua inteligência texto maravilhoso como sempre!

  2. seo fiverr
    abr 8, 2016

    Thank you for sharing your thoughts. I truly appreciate your efforts and I am waiting for your next write ups thank you once again.

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