Assim como nossos pais – por Rosana Serena

Diante do espelho, vejo insistente e repetidamente o olhar embaçado e esmaecido de minha mãe que me retorna enganosamente como minha própria imagem refletida. Capturada incessantemente neste olhar me pergunto o que neles me machucam tanto mais, além de minha saudade?… Àquela época impaciente e intolerante com seus vacilamentos e reticências, mudamente a acusei de fraqueza. Ao vê-la assim tão hesitante achei que ela podia, mas não queria fazer alguma coisa para se firmar! Da imaturidade da minha juventude por vivências ainda não havidas, critiquei sua maneira de levar a vida na maturidade, acusando-a sem querer de seu próprio e inevitável esmaecimento. A convoquei severamente, a seguir adiante no caminho que lhe apontava, mas jamais pensei que...

Ai de mim! – por Rosana Serena

Ela é aquela que está sempre a se queixar de todos os males do mundo que estão a lhe assombrar, mesmo quando sendo tão jovem e bonita tudo ela teria para estar a se maravilhar. Seu enorme sofrimento não tem como aplacar, pois não há nada que você possa lhe dar, para esse sentimento se alterar, pois ela é aquela que está sempre de uma dor de alma a se lamuriar. Os amigos estão sempre a lhe amparar e se desgostam e se desgastam de tanto tentar lhe apoiar, e quanto mais essas dores querem aplacar tanto mais ela estará a se judiar. Por que ela sofre se você tenta com seu amor lhe consolar, porque aí parece que ela fica sem ter do que sofrer, e isso, um dano a mais, irá lhe causar. Sofre de tudo essa menina!…Do que vê na TV, do cãozinho...

Rosebud (Cidadão Kane) – por Rosana Serena

Estamos em 1941, em um quarto ricamente mobiliado, em seu leito o personagem mansamente morre, deixando cair delicadamente das mãos um pequeno globo de neve com seus flocos agitando-se na queda, enquanto o pequeno objeto rola pelo chão espatifando-se, ele pronuncia em um sussurro sua última palavra: “rosebud”. As próximas cenas mostram a cobertura jornalística do evento, com cortejo fúnebre do cidadão Kane saindo de Xanadu. A mais rica mansão já construída, o locutor reporta, enquanto descreve Xanadu como um monumento do prazer, construída por Kubla Kan[1] assim também chamado Kane, o magnata. A maior mansão privada já construída, ele afirma, enquanto descreve-a como uma montanha particular construída no deserto da Costa do Golfo, na Flórida,...

Apresentação

Ensaio, por definição é um texto literário, breve, situado entre o poético e o didático, expondo idéias, críticas e reflexões filosóficas a respeito de certo tema. Consiste na defesa de um ponto de vista pessoal e subjetivo sobre temas existenciais. A característica do ensaio é fazer algo de literatura fácil e rápida, sem compromisso de dizer uma verdade científica ou provar algo. E como ensaio comum, é  como estes textos se definem, são subjetivos e caprichosos em fantasias. O objetivo aqui é o de provocar nos leitores a reflexão sobre a temática proposta, que é sempre a do humano a sua subjetividade. As palavras, no entanto, teimosamente tomam quase forma de uma fabulação, e tomado um tema real ou fictício, o ensaísta se comporta na...

O enigma – por Rosana Serena

Decifra-me ou te devoro! Era o desafio da Esfinge aos viajantes impedindo sua entrada em Tebas. A Esfinge foi um importante tema mitológico nas antigas civilizações do Egito e na Grécia. Na mitologia grega a Esfinge é um demônio exclusivo de destruição, e da má sorte, e de acordo com Hesíodo, poeta e historiador, a Esfinge é uma filha de Quimera e Ortros. A Esfinge possuía cabeça de mulher, corpo de leão e asas de águia, era um mostro devorador e foi enviada pela deusa Hera para cidade de Tebas, como punição a Laio, o rei, por seu romance homossexual com Crísipo. A Esfinge trouxe à cidade morte e destruição, arruinou suas plantações afugentando e aterrorizando os moradores da cidade. A criatura, no entanto, propôs se retirar do local se...