E agora?… – por Rosana Serena

Destaca-se entre o grupo de jovens empresários que sentados em festa à mesa, comemoram a vida!
Eloquente ele conta estórias de aventuras vividas em seus mil giros pelo mundo.
Concentra a atenção pelo discurso fluído articulado e espirituoso de onde se tiram sempre valiosas informações da geografia, raças e culturas dos lugares de onde esteve.
Estivera sempre tão seguro de si, de suas escolhas de seus acertos. Tivera sempre uma forma mais que otimista radiante de, por assim dizer, de ver e viver a vida.
Estivera sempre tão certo de suas lutas, da certeza de suas vitórias que tornava-se incansável no movimento incessante de combate.
Era sempre tão decidido que tornava-se arrogante, e algumas vezes impiedoso com os mais frágeis.
Deste modo se lançara às perigosas aventuras de barco, avião ou trem, por mares, ares e terras desconhecidas.
Mas houve um momento em que a engrenagem emperrou e ele viu-se como a parte de uma correia avariada desde onde o movimento não lhe era mais possível. Estacou, não podia mover-se estava emperrado, como o elo empenado de uma corrente que se travou.
Estacou emperrado, observando o fluxo de transito livre que parecia que todos os outros tinham à exceção dele, num ir e vir que lhe zonzeava. Enquanto olhava, surpreendeu-se porque viu o mundo tingir-se de cinza e anunciar uma grande tempestade no horizonte enquanto ele se sentia a mercê do fenômeno de paralisação. O que mais lhe surpreendeu é que ele sentiu medo!
Desamparadamente só, observou passivamente, crescer dentro de si uma sensação de vazio imenso que se lhe tragou por inteiro!
Sumiu em si mesmo e não sabia ou mesmo se reconhecia nesse lugar onde estava travado. Horrivelmente, não sabia como sair, não via acesso ou possibilidade nenhuma de movimento que lhe pudesse alçar desse lugar.
Os do seu entorno perceberam claramente esta parada abrupta de si mesmo, uma vez que sua característica era a do movimento. Estivera sempre tão seguro de suas escolhas e direções, e nelas do seu acerto, no entanto, neste momento não tinha capacidade para tomar as decisões mais banais.
Tudo isso pertencia a um passado tão distante, tanto mais era recente seu travamento. Precisava desemperrar-se dali, para seguir adiante no movimento de vida, mas como peça avariada não conseguia-se autorregenerar.
Via o fluxo da vida, de sua vida seguindo e seguindo, à revelia de sua intenção e sua direção e não conseguia desemperrar dali.
E agora? Ele se perguntou, por não ter mais nenhuma outra coisa a dizer…
E agora?… Ele se perguntou por nada mais saber…
Tal fenômeno já se anunciará levemente em três ou quatro situações anteriores que ficaram devidamente justificadas por alguns acontecimentos, em sua vida, tais como separações de seres amados e traumas físicos de acidentes pessoais sofridos.
Emoções que vieram e se foram como fortes ventos cálidos que entanto não prenunciavam tempestade por vir e desse modo passaram quase desapercebidamente.
Deste ponto de travamento mecânico desde onde ele não podia mover-se, deixou-se ficar emperrado em avaria por nada mais poder fazer.
Oscilações psíquicas, olho da mente que se abre e fecha como o diafragma da máquina fotográfica registrando a realidade em todos os tons de cinza e negro com a s quais seu mundo havia se tingido, tomando o lugar das alegres e fortes cores anteriores.
Senhor de si, sabedor de respostas, mestre dos movimentos viu-se como que entrouxado ou fortemente amarrado desde onde não podia se mover, por de mais nada saber. Tomava-lhe uma terrível sensação de desprazer e desapreço com tudo e por tudo!…
Começamos por afirmar que a angústia é um sinal visível, sentido como difuso e profundo desprazer e mal-estar pelo sujeito.
O eu é uma estrutura complexa que se constrói primeiramente na relação com o outro (semelhante) o que erige uma identificação primária, desde onde o sujeito é cativo de uma imagem que lhe é constitutiva, Eu ideal, a partir de uma imagem corporal, o que Lacan denominada de operação de alienação. A seguir, na medida em que o sujeito é introduzido no universo da fala e da linguagem pelo Outro- A – (Grande Outro), se funda a identificação simbólica, que está ligada aos significantes do Outro e constitui o Ideal do Eu. Nesse momento o sujeito se depararia com a falta inscrita no Outro e presentificaria a perda do objeto absoluto, capaz de preencher a falta.
“Para Lacan a falta é simbólica e por isso a posição do sujeito no mundo simbólico depende da simbolização da falta inscrita no Outro.”
“A questão do eu, a angústia e a constituição da realidade para a psicanálise.”
http://www.psicopatologiafundamental.org/uploads/files/v_congresso/mr_21_-_joana_souza.pdf
Freud afirma que o eu é também a sede real da angústia indicando seu caráter de desprazer que é sentido no corpo.
Lacan por sua vez aponta que a angústia é um momento de quebra da imagem corporal e perda de referências identificatórias que constituem o sujeito.
Angústia que se anuncia como fenômenos de despersonalização quando o sujeito vacila ao não reconhecer sua própria imagem especular.
Para Lacan a “angústia é um afeto” (Lacan, seminário X, pg. 28),” e que a verdadeira substância da angústia é aquilo que não engana” (Lacan, seminário X, pg. 88), um afeto que não engana, pois refere-se ao objeto a, e nesse sentido a angústia é uma tradução subjetiva de a.
Mas então o que é o objeto a? Primeiramente é preciso que se diga que do seu ponto de corpo fragmentado, o bebê no estádio do espelho, organiza o caos de fragmentação pela aquisição do eu, através da imagem unificada de seu corpo, agenciada pelo seu encontro com o outro. Esse outro, geralmente a mãe, que o segura e ampara diante do espelho, representará também o grande Outro, aquele para qual o bebê se volta interrogativamente buscando assentimento e ratificação dessa imagem, e será esta essa a sua entrada no campo simbólico.
No entanto, nessa operação nem tudo é simbolizável, há algo que escapa que não é abarcado pelo significante. Essa parte do indivíduo, anterior ao sujeito e que fica fora do simbólico é o objeto a, que é totalmente inapreensível pela via significante.
A angústia só poderá ser compreendida na sua interdependência com o desejo e o objeto a.
A questão da angústia, Lacan aborda pela via do que ele chama a chave, sobre a subjetividade, desde onde estabelece que, o surgimento de afeto da angústia está atrelado ao momento em que o sujeito se vê diante do desejo do Outro, da demanda do Outro, que aparecerá em forma de uma pergunta. Que queres?
Ou seja, a abordagem de um conceito tão precioso em psicanálise, à angústia, deverá ser feito por essas duas vertentes, de um lado o desejo e de outro o objeto a. Desejo do sujeito que se constitui a partir da demanda do Outro. Objeto a, como o que não poderá ser incorporável pelo simbólico do encontro com o Outro, resto que não será apreensível pelo significante, o objeto a, causa do desejo.
E é a angustia que surgirá quando aparece o objeto a no lugar onde deveria estar à falta no Outro. Outro que deveria apresentar-se como faltante, para que o desejo se constitua apreendendo a falta em A.
Repisemos, a falta em A é necessária para fundar o desejo.
“O que há de mais angustiante para a criança é que justamente, quando a relação com base na qual essa possibilidade se institui, pela falta que a transforma em desejo, é perturbada, e ela fica perturbada ao máximo quando não há possibilidade de falta, quando a mãe está o tempo todo nas costas dela”.
(Lacan, Seminário X, pg. 64)
“A angústia não é sinal de uma falta, mas de algo que devemos conceber num nível duplicado, por ser a falta do apoio dado pela falta”.
(Lacan, Seminário X, pg. 64)
Talvez possamos não compreender bem o que é a angustia, qual sua origem e constituição, mas sabemos que ela é um sinal visível, do mal-estar no eu, e tem a sua função própria, que é a de ser esse sinal!
E é nesse campo da consciência que aparecerá como sinal, certamente este para que o sujeito seja avisado de alguma coisa de seu próprio desejo, ou seja, uma manifestação do desejo do Outro, na dimensão do Outro.
A saída da angústia para o sujeito só será possível, pela apreensibilidade de seu desejo, o que só poderá ser feito a partir do lugar em que o sujeito se perguntará:
_ O que quer o Outro de mim?
E agora meu rapaz?
Agora, é o iniciar de um processo, desde onde você deverá se defrontar com seu próprio desejo, um movimento de desemperramento em direção ao seu próprio desejo, reiterando sucessivamente a questão em um processo de análise.

Bibliografia:

LACAN, J. (1962-63) O Seminário livro 10-A angústia-Rio de Janeiro: Zahar,
2004.

http://www.psicopatologiafundamental.org/…/files/…/mr_21_-_joana_souza.pd..
A questão do eu, a angústia e a constituição da realidade para a psicanálise –
Joana Souza

http://docslide.com.br/documents/o-conceito-de-angustia-em-lacan-doris-rinaldi.html
O conceito de angústia em Lacan. Doris Rinaldi

http://www.unifor.br/index.php?option=com_content&view=article&id=1504&Itemid=1021
Revista Mal-estar e Subjetividade – Ano 2009/ Número 3 – A formulação do objeto a partir da teorização lacaniana acerca da angústia. Daniela Teixeira Dutra Viola Ângela Maria Resende Vorcaro

 

 

1 Comentários

  1. seo fiverr
    abr 8, 2016

    I think this is a real great blog.Really looking forward to read more. Cool.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *