A Guerra dos Roses (Uma reflexão sobre a agressividade e a violência) – por Rosana Serena
1. Visitação a Freud
Einstein diante da proposta Liga das Nações, para que convidasse uma pessoa e selecionasse um importante tema para abordar, dirige-se a Freud em uma carta datada 1º de 30 de julho 1932 , para segundo ele, discutir o mais importante e urgente problema que a civilização humana tem que enfrentar e lança uma questão:
“Existe alguma forma de livrar a humanidade da ameaça de guerra”?
Como homem da ciência admite a compreensão de que tal assunto adquiriu uma significação de vida ou morte para a civilização. Reconhece o fracasso de todos os esforços no sentido de solucionar o problema. Observa a impotência dos homens da ciência em abordar o tema com sua instrumentação para a compreensão das obscuras regiões da vontade e do sentido humano.
Afirma que existem obstáculos que tornam um leigo em ciências mentais, incompetente para compreender. Está convencido de que Freud mediante seu profundo conhecimento da vida instintiva do homem pode proporcionar a elucidação do problema.
Em suas indagações preparatórias de um diálogo que intercambie e possibilite compreensão, Einstein enumerará as suas proposições assim como as reflete:
a) Afirma ser possível do ponto de vista organizacional criar um organismo internacional para arbitrar legislativamente e judicialmente o conflito entre as nações. Pondera a seguir, sobre os entraves criados pelo próprio humano para que se consolide tal solução; e reconhece que são fatores psicológicos que paralisam tais esforços, pois isso incluiria uma renúncia de liberdade de ação e de soberania de uma nação e que a classe governante, pela limitação de seu próprio poder, vetaria explicita ou implicitamente através de manobras. Considera ainda o poder econômico envolvido em uma guerra quando ela é encarada como uma expansão de interesses pessoais e aumento de poder.
b) Apresenta sua segunda ponderação como forma de indagação:
“-Como é possível uma pequena súcia dobrar a vontade da maioria que se resigna a perder e sofrer com uma situação de guerra a serviço de poucos”?
Refere-se aos soldados como maioria e a classe dominante como a minoria que as usa como instrumento de poder. Mesmo que reconheça que esta classe dominante controla a cultura de um povo, ainda assim isto não explicaria como os homens podem sacrificar suas próprias vidas. Considera haver apenas uma resposta. “É porque o homem encerra dentro de si um desejo de ódio e destruição”.
c) Chega a seu último questionamento:
“É possível controlar a evolução da mente do homem, de modo a torná-lo à prova das psicoses do ódio e da destrutividade?”
Mostra-se, sobretudo impressionado, não apenas com a guerra entre nações de diferentes povos, mas também com as guerras civis entre um mesmo povo de uma mesma nação e muito intensamente com o que considera a mais cruel e extravagante forma de conflito entre homem e homem.
Antes de assinar sua carta, apela para que Freud reflita este problema sob enfoque de suas descobertas.
Em sua carta resposta, datada de setembro de 1932, Freud afirma que Einstein já havia dito quase tudo o que se há para dizer, mas que seguindo seus rastros faria seus comentários. E começa por pedir permissão para substituir a palavra poder, pela palavra mais nua e crua, violência.
Principia sua reflexão afirmando que os conflitos do homem sempre foram historicamente resolvidos pelo uso da violência. Nos diferentes grupos humanos de povos primitivos era a superioridade da força muscular o que decidia sobre quem era vencedor, o mais forte vencia o mais fraco. Esta, a força muscular quando substituída por instrumentos tornava vencedor o que tinha habilidade do manejo das armas e o objetivo da vitória seria total se o vencedor eliminasse fisicamente o adversário. Se, no entanto, tal inimigo fosse preparado ele seria utilizado na realização de serviços úteis e este seria deixado em subjugação. A violência do vencedor aqui contentava-se com o ato de subjugar. “Esta foi, por conseguinte a situação inicial dos fatos a dominação por parte de qualquer um que tivesse o poder maior pela força física”.
A seguir, Freud discorre sobre a forma de se enfrentar a força de um indivíduo mais forte, pela contraposição da força de diversos indivíduos fracos. A violência pode ser derrotada pela união, e o poder dos que juntos representem a lei de uma comunidade, mas que segundo Freud ainda é violência a se voltar contra qualquer um, que se lhe oponha. Uma comunidade deve manter-se, através de regulamentos e leis, que sejam respeitadas e cada indivíduo deve abrir mão de sua liberdade pessoal de utilizar a sua força para fins violentos. No entanto, a justiça da comunidade passa a exprimir graus desiguais de poder, pois passa a incluir vencedores e vencidos que se transformam em senhores e escravos.
As leis de uma associação desse tipo é que irão equilibrar e legislar sobre essas relações entre os membros de uma comunidade unida por laços emocionais, e supostamente com a violência suplantada, pela transferência do poder de força individual a uma unidade maior. Mas então nos deparamos com alguns impedimentos que obstam à paz das relações entre humanos:
1º As leis são feitas por detentores do poder, e são feitas tentativas destes se colocarem acima das proibições que se aplicam a todos.
2º Membros oprimidos do grupo fazem constantes esforços para obter mais poder e fazer reconhecidas modificações efetuadas nesse sentido.
3º Uma terceira fonte de modificação da lei é a transformação cultural da comunidade.
De qualquer modo, diz ele, observa-se que a solução violenta de conflitos de interesse não é evitada sequer dentro de uma comunidade. Discorre a seguir sobre os conflitos humanos que têm ensejado soluções violentas, nas mais diferentes e infindáveis guerras, das menores às maiores, da humanidade. Guerras que terminam com o aniquilamento e ou subjugação dos vencidos. Afirma que, em tese se poderia criar uma instância suprema que pudesse arbitrar os conflitos de interesse, mas que precisaria considerar duas forças sendo uma delas a força coercitiva da violência e os vínculos emocionais entre seus membros. Destaca que jamais se viu este funcionamento equilibrado que pudesse livrar o homem da guerra.
Sua próxima reflexão é a mais importante respeito do instinto de ódio e destruição, que é o que de fato coopera com os esforços dos que têm interesses de poder em manter a guerra, confirmando assim a afirmação primeira da Einstein. Pede permissão para apresentar a teoria dos instintos desenvolvida pela psicanálise e afirma:
“De acordo com nossa hipótese, os instintos humanos são apenas de dois tipos: aqueles que tendem a preservar e unir que denominamos “eróticos”, exatamente no mesmo sentido em que Platão usava a palavra Eros em seu Symposium, ou “sexuais” com uma deliberada ampliação da concepção popular de “sexualidade” e; aqueles que tendem destruir e matar, aos quais agrupamos como instinto “agressivo ou destrutivo.””
Freud destaca que nenhum desses dois instintos é menos importante e que estão na vida do humano em ação confluente ou contrária Eles nunca operam isoladamente e estão sempre amalgamados um por uma certa quantidade de outro. Ou seja, um necessita do outro para chegar à consecução de seus objetivos, tal posto que mesmo no amor, puro instinto de vida, é necessário uma certa quantidade do instinto de domínio, ou seja, de uma certa agressividade para que dirigida ao objeto, dele, possa se apossar.
Afirma que o instinto de morte está em atividade em toda a criatura viva e procura reduzir à vida à condição originária de matéria inanimada, ao passo que os instintos eróticos, de vida, representam o esforço de viver. Ressalta que o instinto de morte é apenas destrutivo quando dirigido para fora, para os objetos que seria dessa forma a preservação do organismo pela destruição da vida alheia. No entanto, uma parte deste instinto continuará atuante no organismo e disto derivarão outros fenômenos normais e ou patológicos.
Garante que de nada vale tentar eliminar as inclinações agressivas do homem e que não haverá garantias que se dê de satisfação humana capaz de fazer a agressividade humana desaparecer.
Afirma Freud: aderir à guerra é um efeito do instinto de morte, a recomendação é contrapor-lhe o instinto de vida, pois tudo o que estreita os vínculos afetivos entre homens atua contra a guerra em uma dupla frente: relações entre homens semelhantes aquelas ao objeto amado, e pela via de identificação que leve os homens a compartilharem de interesses comuns e comunhão de sentimentos.
“A situação ideal seria a comunidade humana que tivesse subordinado a sua vida instintual ao domínio da razão. Nada mais poderia unir os homens de forma tão completa e firme, ainda que entre eles não houvesse vínculos emocionais”.
Se de fato a guerra se opõe ao processo civilizatório, este, por sua vez se sustentará na renúncia ao instinto de poder, domínio e subjugação, ou seja, o instinto de morte.
2. Visitação a Lacan
A aporia freudiana
No relatório apresentado no XI Congresso dos Psicanalistas de Língua Francesa , reunido em Bruxelas em 1948, Lacan apresenta o conceito de agressividade.
Considera primeiramente que Freud foi quem abordou e elaborou o conceito a partir do instinto de morte, mas diz que há uma aporia no cerne da noção de agressividade e para tanto propõe algumas teses e as apresenta:
Tese 01: “A agressividade se manifesta numa experiência que é subjetiva por sua própria constituição”.
Lacan fala aqui da experiência psicanalítica e da ação psicanalítica que se desenvolve na e pela comunicação verbal constituída entre dois sujeitos, dos quais um desempenha no diálogo um papel de impessoalidade ideal, ponto que ele discutirá mais adiante.
Tese 02: “A agressividade, na experiência nos é dada como intenção de agressão e como imagem de desmembramento corporal, e é nessas modalidades que se demonstra eficiente.”
Afirma que a agressividade do sujeito em situação de análise é lida no sentido simbólico dos sintomas, aceita pelo analista numa convenção de diálogo. Ela pode ser quase medida na reenvidicação do discurso, bem como em suas hesitações, inflexões, seus lapsos, nas ausências premeditadas às sessões, nos atrasos, nas recriminações, nos medos fantásisticos e nas reações emocionais de cólera e suas demonstrações para fins intimidatórios. Acrescenta que a intenção agressiva é constatada também e frequentemente na ação de um indivíduo sobre as pessoas de sua convivência.
“A agressividade intencional corrói mina, desagrega, ela castra, ela conduz à morte.”
Atribui a imagens o que chama de fenômenos mentais, à base constitutiva da agressividade. Há uma função formadora das imagens no sujeito que determinam quais ou tais tendências na condição da variação das matrizes que constituem para os instintos. Corresponde tal fenômeno a palavra imago e com relação à agressividade destaca a imago do corpo despedaçado.
“Os vetores eletivos das intenções agressivas que elas dotam de uma eficácia que podemos chamar de mágica, são as imagens de castração, emasculação, mutilação, desmembramento, desagregação, eventração, devoração, explosão do corpo.” Isto pode sempre ser encontrado na fantasmagoria dos sonhos, e afirma a este ponto, que estes dados são primordiais de uma gestalt própria da agressão no homem, ligada ao caráter simbólico e que a função imaginária será esclarecida nas colocações a seguir:
Tese 03: “Os impulsos de agressividade decidem as razões que motivam a técnica da análise”
Lacan fala sobre da abstenção do analista em responder ao paciente em análise, em qualquer plano de conselho, embora a cura seja pelo diálogo. Ou seja, é a própria voz do analisante que se tem que fazer ouvir e o analista se oferece desprovido tanto quanto possível de características individuais, sai de campo e se apaga na sua pessoalidade a fim de representar para o analisante um ideal de impessoalidade. É preciso estar em condições de compreender o analisante e por isso é necessário essa apatia, pois a imago só se revela desde que a atitude do analista se ofereça ao sujeito como espelho.
“É a participação em seu sofrimento que o doente espera de nós. Mas é a reação hostil que guia nossa prudência, e que já inspirará Freud contra qualquer tentação de bancar o profeta”. Lacan ressalta aqui o por em jogo a agressividade do sujeito a respeito do analista, e afirma que por em jogo a agressividade compõe a transferência negativa, que é o nó inaugural do drama analítico.
“Esse fenômeno representa, no paciente, a transferência imaginária, para nossa pessoa, de uma das imagos mais ou menos arcaicas que, por um efeito de subdução simbólica, degredada, desvia ou inibe o ciclo de uma dada conduta, que por um acidente do recalque, excluiu o controle do eu, uma dada função e um dado segmento corporal, que por uma ação de identificação, deu sua forma a tal instância da personalidade”.
Quer dizer com isto que “basta o pretexto mais fortuito para provocar a intenção agressiva que reatualiza a imago, instalada permanentemente no plano da sobre- determinação simbólica a que chamamos o inconsciente do sujeito, com sua correlação intencional”.
Longe de atacar de frente ao paciente o psicanalista adota a maiêutica analítica que consiste em levar o analisante a tomar consciência daquilo que está em jogo.
Tese 04: “A agressividade é a tendência correlativa a um modo de identificação a que chamamos narcísico, e que determina a estrutura formal do eu do homem e do registro de entidades característica de seu mundo”.
Sustentado em sua experiência e no conhecimento implícito das psicoses paranóicas onde a tendência agressiva se revela fundamentalmente, Lacan sustenta sua tese:
a) O primeiro plano mostra-nos que a experiência de si próprio, na criança desenvolve-se a partir de uma situação vivida a princípio como indiferenciada.
b) Há uma captação pela imagem, onde se esboça o momento da dialética das identificações, desde os primeiros meses da criança.
c) O que demonstra o fenômeno de reconhecimento que implica a subjetividade são os sinais de jubilação triunfante que caracteriza o sexto mês, no encontro da criança com sua imagem de espelho, que é o que Lacan chamou de estádio de espelho.
d) Assim por volta dos oito meses, nos confrontos entre crianças pode-se observar que a criança acompanha e repete o gesto do outro e, é nessas ocasiões está conquistando a unidade funcional de seu próprio corpo.
e) É essa captação pela imago humana que domina entre os seis meses e os dois anos e meio, toda a dialética do comportamento da criança. A criança chora se o outro chorar bate e diz que bateram nela, são estas reações que testemunham o fenômeno.
f) É essa relação em que o indivíduo humano se fixa numa imagem que o aliena em si mesmo, e onde se origina a organização passional que ele irá chamar de seu eu. É um processo de identificação primária.
g) Essa forma se cristalizará na tensão conflitiva interna ao sujeito, a tríade do outro, do eu e do objeto inscreve-se no sujeito. E determina o despertar de seu desejo pelo objeto do desejo do outro e é aqui que se instala a agressividade contra o outro, pela pertença do objeto. Desde a origem o eu se afigura marcado por essa relatividade agressiva, pois o outro ao qual me identifico, e com quem disputo o objeto, sou eu mesmo pela própria identificação.
h) Há uma estrutura paranóica do eu, pela escansão dos momentos em que o sujeito nega a si mesmo e acusa ao outro, mas a quem está intrinsecamente identificado sendo este parte dele mesmo.
i) O nó central da agressividade se dá na forma dominante do ressentimento e a reativação das imagens da frustração primordial são as coordenadas psíquicas e somáticas da agressividade, bem como elucida Santo Agostinho em sua experiência relatada: “Vi uma criancinha que não falava e já contemplava pálida e com expressão amarga o seu irmão de leite”.
j) “A agressividade está ligada à relação narcísica e às estruturas de conhecimento e objetivação sistemáticos que caracterizam a formação do eu”.
k) “Nenhuma dúvida de que ela provém da paixão narcísica, desde que se conceba o eu segundo a noção subjetiva que aqui promovemos por ser conforme ao registro de nossa experiência”.
l) No complexo de Édipo, há uma reformulação identificatória do sujeito por uma identificação secundária, pela introjeção da imago do genitor do mesmo sexo.
m) “A identificação edipiana é aquela através do qual o sujeito transcende a agressividade constitutiva da primeira individuação subjetiva”, como efeito de neutralização do conflito dos filhos com o pai tão elucidativamente colocado no Mito da Horda Primitiva.
n) A agressividade está implicada em todo o desenvolvimento do sujeito, e especialmente no plano da realização sexual.
Tese 05: “Tal noção da agressividade como uma das coordenadas intencionais do eu humano, e especialmente relativo à categoria do espaço, faz conceber seu papel na neurose moderna e no mal-estar da civilização.”
Lacan destaca que há uma preeminência da agressividade em nossa civilização por ela estar confundida na moral com a virtude da força.
Indica que Hegel forneceu a teoria perene da função própria da agressividade do conflito entre o Senhor e o Escravo do qual ele deduziu todo o progresso subjetivo e objetivo de nossa história.
Lacan afirma:
“Não obstante o instinto de conservação do eu tende a enfraquecer na vertigem da dominação do espaço e, sobretudo o quanto o medo da morte, do “Senhor Absoluto”, suposto na consciência por toda tradição filosófica desde Hegel, está psicologicamente subordinado ao medo narcísico da lesão do próprio corpo”.
“No homem liberado da sociedade moderna, eis que esse despedaçamento revela, até o fundo do ser, sua pavorosa fissura. É a neurose de autopunição, com sintomas históricos hipocondríacos de suas inibições funcionais com as formas psicanalíticas de suas desrealizações do outro e do mundo, com suas sequências sociais de fracasso e de crime”.
A Guerra dos Roses – por Rosana Serena
3. A Guerra Dos Roses
Considerado uma comédia de humor negro, o filme A Guerra dos Roses , conta a história de um casal comum, em um casamento rotineiro, que como qualquer outro par, prosaicamente se constituí na formação de uma família em busca de conquista e segurança afetiva e material, até o ponto em que se rompe o dique da normalidade e entram em um jogo de agressividade escancarada e descontrolada, chegando ao final trágico da morte de ambos, pela violência como ponto de transposição externa da agressividade.
De fato, este é um filme muito sério por seu conteúdo, e se encararmos com a seriedade que merece ,veremos que se trata da tragédia do humano no que tange ao tema da agressividade e violência, que eclode explosivamente a um momento da vida do casal e desreprimidamente, corre solta como um rio furioso arrastando tudo em sua corrente caudalosa. O filme marca o ponto em que a agressividade humana toma a forma de violência em todas as suas formas, e de como é possível a violência se suceder e se manifestar no mais comum da realidade humana!
O jovem casal Oliver e Barbara, se encontra em um evento no qual disputam uma pequena estátua japonesa e desta primeira aproximação se origina a relação do casal que terminará em casamento. Esta disputa inicial quiçá sutilmente, queria nos indicar a trajetória desse afeto marcado pela rivalidade narcísica do outro com o seu semelhante, desde o seu princípio.
Casados, o casal tem dois filhos Josh e Carolyn e trabalha arduamente para conquistar sua realização material. Oliver tem uma carreira bem sucedida, Barbara é uma garçonete e vive as voltas com as crianças que são mimadas e indolentes.
O marco manifesto do ressentimento subjacente, e que revela a marca de agressividade que permeia a relação do casal, se demonstra no jantar com os sócios de Oliver aos quais ele quer impressionar, ocasião em que Barbara é muitas vezes deselegantemente e intencionalmente interrompida por Oliver. Ato contínuo, como um disparador emocional de sua agressividade, ela passa a implicar expletivamente com riso do marido. E o despertar desta raiva que lhe parece irracional e incontrolável, é o ponto que marca definitivamente a denegação de sua agressividade, por lhe ser tão incompreensível.
A vida segue seu curso e o casal progride financeiramente, compra e decora lindamente uma mansão, e com os filhos crescidos, Barbara monta seu próprio negócio. Tudo parece estar indo muito bem, não fosse à grande e constante irritação que lhe causa o marido e que vai gradativamente aumentando e aumentando sua agressividade dirigida ao marido. Oliver por outro lado, mostra-se aparentemente alienado de sua própria situação afetiva emocional do relacionamento, no entanto, observamos que a anulação de seu par em forma de descaso é um modo bastante expressivo de sua agressividade.
É, portanto, significativa a cena em que Oliver com um contrato na sua mão que Barbara lhe pedira para analisar, displicentemente mata com ele uma mosca. Ela responde a esse descaso, como forma de anulação, raivosamente ligando todos os aparelhos da cozinha ao mesmo tempo, o que nesse momento manifesta mais claramente a sua agressividade contida. Nesta mesma noite começam as manifestações físicas das agressões entre o casal, que chega a lutar corporalmente na cama, apontando para o ponto de rompimento da contenção da agressividade.
Após um suposto fatal ataque cardíaco em que Oliver é deixado à sua própria sorte no hospital, e o sentimento de Barbara de alívio com esta suposta morte, ficar denotadamente claro, o casal decide separar-se.
Começa a luta do casal pela posse da casa e dos bens, como pano de fundo de uma disputa de velhos rivais narcísicos, reatualizada e reiniciada desde o ponto inaugural do primeiro encontro.
Poderíamos com certeza afirmar qual dos parceiros será o responsável pela avalanche dos efeitos da agressividade de um contra o outro, que se seguirá, uma vez que o que se rompe é o dique de represamento interno e individual de cada um dos parceiros!?
As cenas do filme são a partir daí, da mais pura violência de um contra o outro. Violência produzida pela impossibilidade do se fazer dizer, que aparecerá no esplendor de sua forma moral, emocional e física. Convidados a participar da emoção, os espectadores podem sentir todo o desconforto de uma revelação do absurdo da violência entre parceiros, entremeada por um aumento de potência mortífera, por não poder ser contida por nenhuma simbolização mediadora e apaziguadora dessa relação, de cada um com sua própria agressividade.
Curto-circuito da palavra não-dita se esparramando destrutivamente até consumação final, que traz a morte como coroamento para ambos os jogadores desse combate mortal!
Destruição emocional tornada física, temos muito o que aprender com essa suposta comédia de humor negro a respeito do humano!
4. Uma conclusão em sua tentativa de algo a concluir
Tomamos alguns pontos conceituais que nortearão nossa reflexão a partir das leituras das cartas trocadas entre Einstein e Freud, em 1932 e do relatório apresentado por Lacan no Congresso de Psicanalista em Bruxelas de 1948.
1) A agressividade e violência são dois conceitos diferenciados embora possam estar interligados.
2) Para Freud o ódio é mais antigo que o amor e acontece na etapa de diferenciação do eu e não eu.
3) A constituição de um ideal pelo eu, o narcisismo, comporta a agressividade do sujeito, que é, portanto constitutiva do eu.
4) A agressividade para Freud está no campo dos efeitos da pulsão da morte.
5) Para Lacan o fundamento da agressividade é a identificação narcísica e a estrutura do eu.
6) Vinculada a estrutura do eu a agressividade assume caráter permanente.
7) Lacan demarca uma violência diante do impossível de dizer por falta de simbolização que pode levar à passagem ao ato.
8) “O que se pode produzir em uma relação inter-humana é a violência ou a palavra Lacan (1957-58/ 1999:468).”
9) A agressividade pode ser recalcada e ou sublimada desde a mediação simbólica.
10) E finalmente a agressividade e violência exigem sempre uma renúncia por parte do sujeito de sua própria satisfação, tanto no que se refere ao sintoma quanto ao gozo.
Nesta reflexão sobre a agressividade e violência, vimos que a agressividade humana é inerente e interna do humano, quer seja pelo destino pulsional de sua organização libinal, quer seja como constitutiva do eu a partir de sua própria matriz organizacional de identificações.
Podemos por esta conceituação, afirmar com certeza que a agressividade é um “mal” de todos nós, que nos habita como parte de nós mesmos. E é exatamente a este ponto, que nos permitimos questionar por que uns a transpõe para fora como forma de agressão ao outro que, lembrando Freud, é quando ela se torna destrutiva, e pura pulsão de morte? E porque outros, a contém internalizadamente represada, ou ainda tem a capacidade se utilizá-la como uma das forças que coalizada à outra, a pulsão de vida, impulsionam o indivíduo para a vida e mesmo para a conquista do objeto de amor?
Dando um passo mais adiante nessa reflexão podemos captar no sentido de compreender, o exato momento em que por uma incapacidade do sujeito de simbolização, haverá uma passagem ao ato, em que tal agressividade num curto-circuito se transformará em violência, pelo ato em si de agressão?
No entanto, é preciso destacar que a violência encontra sua forma e razão, não apenas na forma de agressão física. A violência moral das ameaças e acusações contra o outro encontra a mais genuína e violenta de suas formas. A violência emocional é a mais destrutiva de todas as violências, pois atrapa o outro no âmago de sua própria questão como sujeito, esboroando com seu suposto arranjo de equilíbrio emocional.
Violência física, violência atuada, traz também a dimensão da destruição moral e emocional. E é preciso aqui ressaltar com a importância que merece o tema que a ameaça de violência é tão violenta quanto à atuada, por seu efeito psicológico devastador. Corpo psíquico, atingido mortalmente!
Violador e violado, jogo jogado a dois! O violador é quem violenta o outro, no ponto certeiro da sua questão de ser humano onde sua própria agressividade dessabida é convocada, e, o faz vacilar de sua certeza de si mesmo, de seu amor, e sua ética. Bicho humano pego na armadilha de sua própria humanidade!
Jogo de agressividade e violência jogado num turbilhão de emoções ambivalentes e desconexas postas em ação, sem a mediação de uma simbolização pacificadora. Seria preciso saber de si, dessa internalização inconsciente da própria agressividade para poder recuar do jogo de agressividade e violência mortífera. Sem contenção, ou recuamento, a pena é quebrarmos a casa e nos ferirmos mortalmente em combate.
Nesse jogo, jogado pelo jogo da própria agressividade e violência irreconhecível, a princípio, pela denegação, é preciso se advertir de que cada um se permitirá ou não jogar, com suas peças, legislado que estará pelo seu próprio inconsciente.
De qualquer modo nos permitimos questionar, por que alguns têm a chave dessa porta fechada à violência e outros não?…
E a esse ponto deveríamos entrar pelo caminho de repensar a organização estrutural do sujeito, o que deixaremos como um novo ponto de partida desta reflexão.
Say, you got a nice post.Really looking forward to read more. Much obliged.
Amazing story, reckoned we could incorporate quite a few unrelated files, nevertheless really worth taking a research, whoa does just one locate in relation to Middle of the Eastern side has got extra problerms while doing so.
I am very happy to read this. This is the kind of manual that needs to be given and not the random misinformation that’s at the other blogs. Appreciate your sharing this best doc.
I’m just writing to let you know of the superb encounter our girl undergone reading through your web site. She discovered a lot of pieces, most notably how it is like to have a great coaching nature to let certain people with no trouble learn about specific complex topics. You really exceeded people’s expectations. Thanks for supplying such invaluable, trusted, explanatory as well as easy thoughts on that topic to Janet.
I always was interested in this topic and still am, regards for putting up.
Nem minha própria agressividade eu sinto mais??????
Really enjoyed this blog post.Much thanks again.
Thanks so much for the blog post.Really looking forward to read more. Really Great.
9GolxF That is a really good tip particularly to those fresh to the blogosphere. Simple but very precise informationaаАабТТаЂааАТаЂа Many thanks for sharing this one. A must read post!
BW7gQZ I cannot thank you enough for the article post. Want more.
A round of applause for your blog post.Really looking forward to read more. Will read on…
A round of applause for your post.Really thank you! Keep writing.
aRhu4d Muchos Gracias for your article.Really thank you! Want more.
Im thankful for the blog.Really thank you! Fantastic.
Very neat post.Really looking forward to read more.
Im obliged for the blog post.
Really informative article post.Really thank you!