Asas para voar! – por Rosana Serena
E ele nasceu preenchendo todas as expectativas familiares. Varão primeiro de uma segunda geração nasceu forte e vigoroso!
Vestiu todos os sonhos dos seus. Era menino, era belo e tão moreno como lhe almejavam aos de tons branco-sanguíneos de sua família.
Era tranqüilo e guloso bastava-lhe a mamadeira e seu ursinho musical pendurado em seu bercinho.
Teria sido um menino quieto e calmo, mas a mãe tão presa em sua prisão particular lhe desejava personagem de aventuras tão prazerosas e libertárias quanto lhe pudesse o mundo oferecer.
Para seu menino acalentar escolhera especialmente uma dentre tantas outras poesias, que em sua infância deleitadamente ouvira sua própria mãe declamar:
“Não chores meu filho;
Não chores, que a vida
É luta renhida:
Viver é lutar.
A vida é combate,
Que os fracos abate,
Que os fortes, os bravos
Só pode exaltar.
E, pois que és meu filho,
Meus brios reveste;
Tamoio nasceste,
Valente serás.
Sê duro guerreiro,
Robusto, fragueiro,
Brasão dos tamoios
Na guerra e na paz.
As armas ensaia,
Penetra na vida:
Pesada ou querida,
Viver é lutar.
Se o duro combate
Os fracos abate,
Aos fortes, aos bravos,
Só pode exaltar.”
E ela lhe contou estórias de aventuras de grandes feitos de grandes guerreiros e suas vitórias, e assim cedo o despachou em viagens inimaginadas para um garoto de sua idade, e a cada retorno ele se fazia mais forte e valente.
Chegou o tempo em que ele vestiu suas vestes de guerreiro e foi lutar suas próprias lutas trazendo em seu cinturão símbolos da vitória sobre os inimigos. Mas ele também enfrentou Timbiras em florestas selvagens que lhe saquearam a caça e quase lhe tiraram a vida, e assim ferido quase mortalmente e enfraquecido ele hesitou!…E nesse instante fugidiu, retumbou em pensamento a voz de sua mãe com seus acalantos claramente a lhe alentar.
E neste seu retorno como em tantos outros, a cada vez sua mãe com ungüentos tratou suas feridas e com lágrimas doloridas, mas jamais renunciou ao seu desejo de fazer do seu menino um grande guerreiro, porque sabia que era dele este destino.
E assim que mais tarde fortalecido e valente fundou sua própria tribo e ficou sua ausência na oca materna preenchida somente pelo amor de sua mãe.
E com sinais de fumaça ela convocou-lhe a presença, mas chorou solitária, porque sabia que ali, ao lado dela, ele não poderia mais estar, pois tinha seu próprio destino a lhe fadar.
E com seus mensageiros ela enviou oferendas e recebeu de retorno as mais belas mensagens de agradecimento e ambos sabiam que assim estava mantido o laço concreto do amor especial entre uma mãe e seu filho.
E um dia muito feliz, quando todas as tribos em uma só nação assim reunidas em torno de uma única fogueira, sentada ao seu lado, ela vislumbra em seus olhos uma grande emoção contemplando o céu rasgado por um imenso avião, e então suavemente tocando em seu braço lhe diz:
– Meu filho!…Desejaria ainda poder lhe legar um grande pássaro voador para que em suas asas ele pudesse você levar para os mais lindos verdes campos onde a paz da sua vitória você pudesse desfrutar!
E ela ouviu vindo da imagem do guerreiro tremeluzindo entre a fumaça, sua voz forte afirmar:
-Não será necessário minha mãe! Você me deu asas para por mim mesmo eu poder voar!
E ela chorou de alegria, pois sabia que estava cumprido o seu desejo de mãe.
O desejo de uma mãe, que não é qualquer coisa posto que predetermina o sujeito mesmo antes do seu nascimento, pois há um espaço no desejo da mãe para ser preenchido por este o filho, o pequeno infans, desde muito antes e que remete a sua feminilidade construída pela sua própria passagem pelo complexo de castração.
Fonte: Gonçalves. Dias A. (1823-1864) Os últimos cantos, Canção do Tamoio, Rio de Janeiro