Borboletas no jardim – por Rosana Serena
É sempre extremamente agradável e simpática a todos. Os convites surgem aos borbotões, seu colorido temperamento sempre acrescenta às festas um tom especial. Mas ela sempre pensa, para que me serve isto! Nada mais tem sentido! Mas entre o batom vermelho-vivo caprichosamente passado à boca e o pensamento, ela atravessa a porta rapidamente em direção ao convite.
Cheirosa e bonita ela chega sempre emprestando seu brilho ao lugar. Sua melhor qualidade é que com seu jeito despojado, irrequieto quase ao inadequado ela aquece corações. Sua saída sempre deixa um vácuo e todos se sentem um pouco abandonados.
E ela vem e vai o tempo todo, sempre emprestando aos lugares seus matizes fulgurantes. Mas ela sempre pensa: Para quê? É tudo tão sem sentido! Onde estava para si mesma o sentido que ela dava de graça aos outros?Fazia tempo que nada lhe fazia muito sentido!
Independente e segura que sempre fora, havia se despojado de todas as amarras possíveis de uma mulher comum, porque isso àquela época lhe fazia sentido, hoje destituída das convenções sociais se pergunta, mas qual o sentido?
Desde pequena fora e se sentira com diz em sua fala, “a cereja do bolo” para assim se referir ao que de si sempre fora muito especial, mas houve o momento, e ela não sabe precisar bem quando, em que essa especificidade com que ela se revestia imaginariamente havia se desfeito, lhe fazendo um não sentido.
Seu grande engano é o de procurar um sentido do sentido que jamais poderá ser reencontrado desde que nela se fez uma “desinflação fálica” [1] [2]. Esse estatuto desse objeto, que nomeia a falta e que é apenas um suporte do imaginário, aonde nos vemos como possuidores de algo muito especial como um tesouro único. O que lhe resta agora e refazer essa passagem, pois que não se perde o que nunca se teve, completude no real.
E de um passo a outro nessa elaboração ela não viu que entre uma e outra coisa, alcançava vôos elegantes, pois havia se transformado em uma linda e multicolorida borboleta, livremente a voar pelos jardins.
Da “cereja-crisálida” onde estava em uma especial e cristalizada posição narcísica, à passagem necessária de crisálida à borboleta, havia lhe deixado o gosto amargo da perda de um sentido.
Por todos reconhecida borboleta, a voar pelos jardins alegremente à enfeitar, ela ainda insiste ingenuamente de flor em flor a perguntar:
-Qual o sentido?
E em sussurros múltiplos, trazidos pelo vento, ressoando como ecos ela pode escutar:
-Minha querida, borboletas são para voar e encantar!
BIBLIOGRAFIA:
Godino, Cabas, A. Curso e discurso da obra de Jaques Lacan. Trad. Maria Lúcia Baltazar. São Paulo: Editora Morais, 1982. (Biblioteca Freudiana Brasileira), p. 140 e 159
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