Cidadão Kane: Uma Revolução Estética e Conceitual – Entrevista: Robertson Mayrink
Robertson Mayrink é publicitário, jornalista, especialista em Língua Portuguesa e mestre em Cinema pela UFMG. É professor da Faculdade de Comunicação e Artes da PUC Minas, onde leciona disciplinas como “Criação Publicitária” e “Cinema e Vídeo”. Na área publicitária, Robertson já trabalhou em grandes agências de Belo Horizonte e mantém o blog Criação Publicitária, onde discute o tema sobre amplas perspectivas. Como cinéfilo que se considera, Robertson contou suas impressões e opiniões “Cidadão Kane”, o clássico da história do cinema.
Quais são os principais aspectos técnicos e estéticos do filme?
O principal aspecto técnico, que reflete esteticamente, é o uso elaborado e frequente da profundidade de campo. Orson Welles trabalha com este recurso em várias cenas, redimensionando o espaço cênico. Isso faz com que o espectador tenha uma visão completa do ambiente, apesar de às vezes distorcida pelo uso de determinadas lentes. Por exemplo: a redação do jornal ganha uma profundidade irreal, alongada. Outro recurso é a câmera baixa. Para isso, o diretor cavava buracos no chão dos cenários, assim a câmera mostrava o ambiente de baixo para cima, impondo impressão de grandiosidade a personagens como Kane. Este recurso também “achatava” os tetos dos ambientes, provocando uma sensação de opressão. Diz-se que o cinema nunca havia mostrado tetos antes.
Quais são as maiores contribuições de “Cidadão Kane” para o cinema mundial?
Primeiro com relação a linguagem do cinema. O aprimoramento de recursos, usados com parcimônia até então, ganham uma nova dimensão. A profundidade de campo, ângulos baixos, travellings e fusões conceituais (na primeira cena, um travelling faz a câmera “ultrapassar” a grade, na qual a placa indicava “no trespassing”; a partir daí, uma sequência de fusões faz o espectador entrar na intimidade de Kane), uso intenso de flash back, uso de lentes especiais que distorcem ambientes de acordo com o perfil psicológico do personagem (a famosa cena em que Kane murmura rosebud, no início do filme).
O segundo aspecto é narrativo. Usando uma narrativa não-linear, o filme começa do fim, volta à infância de Kane, vai à velhice, volta à juventude e assim por diante. Essa narrativa é ditada por outra inovação, o ponto de vista alternado: a história é contada através do ponto de vista de cada personagem entrevistado.
Por que “Citizen Kane” é tão importante para o cinema mundial?
Pelas inovações técnicas/estéticas que imprimiu ao cinema a partir daí. Até Kane, o cinema tinha uma narrativa clássica, conservadora em certos aspectos: narrativa bem linear, uso moderado de planos e movimentos de câmera (isso para não confundir o espectador, fazer com que ele acompanhasse a história gradativamente e sem sobressaltos). “Cidadão Kane” exige muito mais que a participação do espectador, exige que ele entenda melhor as regras do jogo, as regras narrativas do cinema e como movimentos de câmera, ângulos e efeitos de montagem auxiliam neste entendimento.
Quais as principais influências do filme no cinema feito hoje?
A partir de Cidadão Kane os cineastas entenderam melhor o poder da câmera, a liberdade de usar com mais ousadia os recursos técnicos e narrativos do cinema. Pontos de vista passaram a ser mais ousados, a montagem mais irreverente e, principalmente, tem-se mais liberdade narrativa.
Quais são as principais obras que influenciaram “Cidadão Kane”?
Orson Welles assistiu a “No tempo das diligências” 29 vezes antes de começar a filmar. Lenda ou não, a história mostra que sua grande influência é John Ford, que já havia ousado em questões como profundidade de campo. O expressionismo alemão também é presença importante, principalmente na distorção de ambientes e no forte trabalho de caracterização psicológica dos personagens através da linguagem de cinema (a câmera baixa, o close exagerado e distorcido, tudo busca a psicologia dos personagens).
quinta feira, 29 de outubro de 2009.
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