É possível ser Feliz? A função do amor para civilização.
Depois que o homem primevo descobriu que estava literalmente em suas mãos melhorar sua sorte na Terra, através do trabalho, não lhe pode ter sido indiferente que outro homem trabalhasse com ele ou contra ele. Esse outro homem adquiriu para ele o valor de um companheiro de trabalho com quem era útil conviver. Pode-se supor que a formação de famílias deve-se ao fato de ter ocorrido um momento em qual a necessidade de satisfação genital, se alojou como um inquilino permanente. Quando isso aconteceu o macho adquiriu um motivo para conservar a fêmea junto de si, ou em termos mais gerais, seus objetos sexuais, a seu lado, ao passo que a fêmea, não querendo separar-se de seus rebentos indefesos, viu-se obrigada, no interesse deles, a permanecer com o macho mais forte. Na família primitiva, falta ainda uma característica essencial de civilização. A vontade arbitrária de seu chefe, o pai, era irrestrito. Sobrepujando o pai, os filhos descobriram que uma combinação pode ser mais forte que um indivíduo isolado. A cultura totêmica baseia-se nas restrições que os filhos tiveram de impor-se mutuamente a fim de conservar esse novo estado de coisas. Os preconceitos do tabu constituíram o primeiro “direito” ou lei. A vida comunitária dos seres humanos teve, portanto um fundamento duplo: a compulsão para o trabalho, criada pela necessidade externa, e o poder do amor, que fez o homem relutar em privar-se de seu objeto sexual a mulher e a mulher em privar-se daquela parte de si própria que dela fora separada seu filho.
Eros e Ananke (Amor e Necessidade) se tornaram os pais também da civilização humana. O primeiro resultado da civilização foi que mesmo um número bastante grande de pessoas podiam agora viver reunidos numa comunidade. A descoberta feita pelo homem que o amor sexual (genital) lhe proporcionava as mais intensas experiências de satisfação, fornecendo-lhe na realidade, o protótipo de toda felicidade, deve ter-lhe sugerido que continuasse a buscar a satisfação da felicidade em suas vidas, seguindo o caminho das relações sexuais e que tornasse o erotismo o ponto central dessa mesma vida. Fazendo assim, o homem tornou-se dependente de uma forma muito perigosa, de uma parte do mundo externo, isto é, de seu objeto amoroso escolhido, expondo-se a um sofrimento externo, caso fosse rejeitado por esse objeto ou o perdesse através da infidelidade ou da morte.
Apesar de tudo, uma pequena minoria de pessoas acha-se capacitada, por sua constituição a encontrar felicidade no caminho do amor. Fazem-se necessárias, porém alterações mentais de grande alcance na função do amor. Essas pessoas tornam-se independentes da aquiescência de seu objeto, deslocando o que mais valorizam do ser amado, para o amar; protegem-se contra perda do objeto, voltando seu amor, não para objetos isolados, mas para todos, e do mesmo modo evitam as incertezas e as decepções do amor genital desviando-se de seus objetivos sexuais e transformando o instinto num impulso com finalidade inibida. Talvez São Francisco de Assis tenha sido que mais longe foi na utilização do amor para beneficiar um sentimento interno de felicidade.
O amor que fundou, a família continua a operar na civilização tanto em sua forma original em quem não renuncia a satisfação sexual direta, quanto em sua forma modificada, como afeição inibida em sua finalidade. Em cada uma delas continua a realizar sua função de reunir consideráveis quantidades de pessoas, de um modo mais intensivo do que o que pode ser efetuado através do interesse pelo trabalho comum. As pessoas dão o nome de “amor[1]” ao relacionamento entre um homem e uma mulher cujas necessidades genitais os levaram a fundar uma família, também dão esse nome aos sentimentos positivos existentes entre pais e filhos e entre irmão e irmãs de uma família, embora nos sejamos obrigados a descrever isso como “amor inibido em sua finalidade” ou afeição. Ambos o amor plenamente sensual e o amor inibido em sua finalidade estendem-se exteriormente a família e criam novos vínculos com pessoas anteriormente estranhas. O amor genital conduz a formação de novas famílias, e o amor inibido em sua finalidade, a amizades que se tornam valiosas, de um ponto de vista cultural, por fugirem a algumas limitações do amor genital, como, por exemplo, a sua exclusividade. No decurso do desenvolvimento, porém, a relação do amor com a civilização perde sua falta de ambigüidade. Por um lado o amor se coloca em oposição aos interesses da civilização, por outro esta ameaça o amor com restrições substanciais.
Essa incompatibilidade entre amor e civilização parece inevitável a sua razão não é imediatamente reconhecível. Expressa-se a princípio como um conflito entre família e comunidade maior a que o individuo pertence. Já percebemos que um dos principais esforços da civilização é reunir as pessoas em grandes unidades. Mas a família não abandona o individuo, quanto mais estritamente os membros de uma família se acham mutuamente ligados, com mais freqüência tendem a se apartarem dos outros e mais difícil lhe é ingressar no circulo mais amplo da cidade. Separar-se da família torna-se uma tarefa com que todo jovem se defronta, e a sociedade freqüentemente o auxilia na solução disso através de ritos de puberdade e iniciação.
Além do mais, as mulheres logo se opõem a civilização e demonstram sua influência retardante e coibitória. As mulheres representam os interesses da família e da vida sexual. O trabalho da civilização confronta o homem com tarefas cada vez mais difíceis e tem de realizar suas tarefas distribuindo convenientemente sua libido. E em grande parte tal tarefa o extrai das mulheres e da vida sexual, tal tarefa muitas vezes os alienam inclusive dos deveres de marido e pai. Dessa maneira a mulher se descobre relegada a segundo plano pelas exigências da civilização e adota uma atitude hostil para com ela.
A primeira fase totêmica, da civilização já traz com ela a proibição de uma escolha incestuosa do objeto, o que constitui talvez a mutilação mais dramática que a vida erótica dos homens já experimentou. Os tabus, as leis e os costumes impõem novas restrições, que influenciam tanto homens quanto mulheres.
Aqui a civilização esta obedecendo às leis da necessidade econômicas, visto que uma grande quantidade da energia psíquica que ela utiliza para possíveis fins tem que ser retirada da sexualidade. Com relação a isso, a civilização se comporta diante da sexualidade da mesma forma que um povo, ou uma de suas camadas sociais procede diante de outras que estão submetidos a sua exploração. O temor a uma revolta por parte dos elementos oprimidos a conduz a utilização de medidas de precaução mais estritas. Uma comunidade cultural acha-se do ponto de vista psicológico perfeitamente justificada em começar por proscrever as manifestações da vida sexual das crianças. Quanto ao individuo sexualmente maduro, a escolha de um objeto restringe-se ao sexo oposto, estando às satisfações extragenital, proibidas como perversões. A exigência, demonstrada nessas proibições, de que haja um tipo de vida sexual para todos, não leva em consideração as dessemelhanças inatas ou adquiridas, na constituição sexual dos seres humanos, cerceia, um bom numero deles, o gozo sexual, tornando-se assim fonte grave injustiça. O próprio amor genital heterossexual, que permaneceu isento de proscrição e restringido por outras limitações, apresentadas sob a forma da insistência na legitimidade e na monogamia. A civilização atual deixa claro que só permite os relacionamentos sexuais na base de um vinculo único e indissolúvel entre um só homem e uma só mulher, e que não e de seu agrado a sexualidade como fonte de prazer por si própria.
Apenas os fracos se submeteram a uma usurpação tão ampla de sua liberdade sexual, e as naturezas mais fortes só o fizeram mediante uma condição compensatória. A sociedade civilizada viu-se obrigada a silenciar sobre muitas transgressões que, segundo os seus próprios princípios deveria ter punido. A vida sexual do homem civilizado encontra-se não obstante severamente prejudicada, dá às vezes, a impressão de estar em processo de involução enquanto função. Provavelmente, justifica-se supor que sua importância enquanto fonte de sentimentos e, portanto na realização de nosso objetivo na vida diminuiu sensivelmente. Às vezes, somos levados a pensar que não se trata apenas da pressão da civilização, mas de algo da natureza própria da função que nos nega satisfação completa e nos incita a outros caminhos.
Bibliografia:
FREUD, S. (1927-1931). O futuro de uma ilusão (o mal-estar na civilização e outros trabalhos). Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Iamgo Editora Ltda., 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XXI p. 105-118).