É possível ser feliz? Teoria psicanalítica dos instintos.

De todas as partes lentamente desenvolvidas da teoria analítica, a teoria dos instintos foi a que mais penosamente progrediu. No que constituía a princípio minha completa perplexidade tomei como ponto de partida uma expressão do poeta filósofo Schiller: “são a fome e o amor que movem o mundo. A fome podia ser vista como representando os instintos que visam preservar o indivíduo, ao passo que o amor se esforça na busca de objetos e sua principal função, é a preservação da espécie. Assim de inicio, os instintos do ego e os instintos objetais se confrontam mutuamente. Foi para denotar a energia destes últimos, que introduzi o termo “libido[1]. Assim, a antítese se verificou entre os instintos do ego e os instintos libidinais do amor que eram dirigidos a um objeto, um desses instintos objetais, o instinto sádico, destacou-se  do restante, pelo fato de seu objetivo estar muito longe do ser o amor. Ademais ele se encontrava obviamente ligado, sob certos aspectos, aos instintos do ego, pois não podia ocultar sua estreita afinidade com os instintos de domínio que não possuem propósito libidinal. Mas essas discrepâncias foram superadas, afinal de contas, o sadismo fazia claramente parte da vida sexual, em cujas atividades a afeição podia ser substituída pela crueldade. A neurose foi encarada como resultado de uma  luta entre o interesse de autopreservação e as exigências da libido, luta  da qual o ego saiu vitorioso ainda que ao preço de graves sofrimentos e renúncias.

Todo analista admitirá que, ainda hoje, essa opinião não soa como erro hora muito tempo abandonada. Não obstante, alterações nela se tornam essenciais, à medida que nossas investigações progrediram das forças reprimidas para as repressoras, dos instintos objetais para o ego. O decisivo passo a frente constitui na introdução do conceito de narcisismo, isto é a descoberta de que o próprio ego se acha catequizado pela libido, de que o ego na verdade, constitui o reduto original dela e continua ser, até certo ponto, seu quartel general. Essa libido narcísica se volta para os objetos, tornando-se assim libido objetal, e podendo transformar-se novamente em libido narcísica.

O conceito de narcisismo possibilitou à obtenção de uma compreensão analítica das neuroses traumáticas, de várias afecções fronteiriças a psicose, bem como destas últimas. Não foi necessário abandonar nossa interpretação de neuroses de transferências como se fossem tentativas feitas pelo ego para se defender contra a sexualidade, mas o conceito de libido ficou ameaçada. Como os instintos do ego também são libidinais, pareceu por certo tempo, inevitável que tivéssemos de fazer a libido coincidir com a energia instintiva em geral. Meu passo seguinte foi dado em mais além do princípio do prazer (1920g) quando pela primeira vez, compulsão para repetir-se e o caráter conservador da vida instintiva atraíram minha atenção. Partindo de especulações sobre o começo de vida e paralelos biológicos, conclui que o lado do instinto para preservar a substância viva e para reuni-la em unidades cada vez maiores, deveria haver outro instinto, contrário àquele, buscando desenvolver essas unidades e conduzi-las de volta a seu estado primevo e inorgânico. Isso equivalia a dizer que, assim como Eros, existia também um instinto de morte. Os fenômenos da vida podiam ser explicados pela ação concorrente ou mutuamente opostas, desses dois instintos. Não era fácil, contudo, demonstrar as atividades desse suposto instinto de morte.  As manifestações de Eros eram visíveis e bastante ruidosas. Poder-se-ia presumir que o instinto de morte operava silenciosamente dentro do organismo no sentido de sua destruição, mas isso, naturalmente, não constituía uma prova uma idéia mais fecunda era a de que uma parte do instinto é desviada no sentido do mundo externo e vem a luz como um instinto de agressividade e destrutividade. Dessa maneira, o próprio instinto podia ser compelido para o serviço de Eros, no caso do organismo destruir alguma outra coisa, inanimada ou animada, ao invés de destruir o próprio eu (self). Inversamente qualquer restrição dessa agressividade dirigida para fora estaria fadada a aumentar a autodestruição, a qual, em todo e qualquer caso, prossegue. Ao mesmo tempo, pode-se suspeitar, a partir desse exemplo, que os dois tipos de instintos raramente talvez nunca aparecem isolados um do outro, mas que estão mesclados em proporções variadas e muito diferentes, tornando-se assim irreconhecíveis para nosso julgamento. No sadismo, a muito tempo de nos conhecido como instinto componente da sexualidade teríamos a nossa frente um vínculo desse tipo particularmente forte, isto é, um vínculo entre as tendências para o amor e o instinto, destrutivo, ao passo que sua contrapartida o masoquismo, constituiria, uma união entre a destrutividade dirigida para dentro e a sexualidade.

A afirmação da existência de um instinto de morte ou destruição deparou-se com resistências, inclusive em círculos analíticos; estou ciente que existe, uma inclinação freqüente a atribuir o que é perigoso hostil no amor a uma bipolaridade original de sua própria natureza. Não posso mais pensar de outra maneira, para mim elas são muito úteis, de um ponto de vista teórico que quaisquer outras fornecem aquela simplificação, sem ignorar ou violentar os fatos pelo quais nos esforçamos no trabalho científico. Sei que no sadismo e masoquismo sempre vimos diante de nos manifestações do instinto destrutivos (dirigidos para fora e para dentro) fortemente mesclados ao erotismo, mas posso entender como foi que podemos entender como foi que pudemos ter desprezado a ambigüidade da agressividade e da destrutividade não erótica e falhada em conceder-lhe o devido lugar em nossa interpretação de vida. Que outros tenham demonstrado, e ainda demonstrem a mesma atitude de rejeição, surpreende menos, pois “as criancinhas não gostam[2]” quando se fala da inata inclinação humana para a ruindade, a agressividade e a destrutividade e também para crueldade.

O nome “libido” pode mais uma vez ser utilizado para demonstrar as manifestações do poder de Eros, a fim de distingui-las da energia do instinto de morte. E no sadismo onde o instinto de morte deforma o objetivo erótico em seu próprio sentido, embora, ao mesmo tempo satisfaça o impulso erótico que conseguimos obter a mais clara compreensão interna de sua natureza e da sua relação com Eros. Contudo, mesmo onde ele surge sem qualquer intuito sexual, na mais cega fúria de destrutividade não podemos deixar de reconhecer que a satisfação do instinto se faz acompanhar por um grau extraordinariamente alto de fruição narcísica devido ao fato de presentear o ego com a realização de antigos desejos de onipotência. O instinto de destruição, moderado e domado, e, por assim dizer inibido em sua finalidade, deve quando dirigido para objetos, proporcionar do ego a satisfação de suas necessidades vitais e o controle sobre a natureza.

Em tudo que se segue, adoto, portanto o ponto de vista de que a inclinação para a agressão constitui, o homem, uma disposição instintiva original e auto-subisistente, e retorno a minha opinião de que é o maior impedimento a civilização.

A civilização constitui um processo a serviço de Eros (amor), cujo propósito é combinar indivíduos humanos isolados, depois famílias e depois ainda raças, povos e nações numa única grande unidade, a unidade da humanidade. Mas o natural instinto agressivo do homem, a hostilidade de cada um contra todos e a de todos contra cada um, se opõe ao programa da civilização. Esse instinto agressivo é o derivado e o principal representante do instinto de morte, que descobrimos lado a lado de Eros, e que com este divide o domínio do mundo.

Agora, penso eu, o significado da evolução da civilização não mais nos é obscuro. Ele deve representar a luta entre Eros e a morte, entre o instinto de vida e o instinto de destruição, tal qual ele se elabora na vida humana. Nessa luta consiste essencialmente toda vida, e, portanto a evolução da civilização pode ser simplesmente discreta como a luta da espécie humana pela vida.

 

 

 

 

Bibliografia:

FREUD, S. (1927-1931). O futuro de uma ilusão (o mal-estar na civilização e outros trabalhos). Trad. Sob a direção de Jayme Salomão. Rio de Janeiro, Iamgo Editora Ltda., 1974. (Edição Standard Brasileira das Obras Psicológicas Completas de Sigmund Freud, v.XXI p. 129-138).

 

 

 



[1] Grifo do autor

[2] Citação do poema de Goethe.

Comentar

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *