Gravidade – por Rosana Serena
Ela não soube precisar bem como ou quando, mas houve um momento em que dissociou-se de si mesma.
Passeava pela vida, despreocupadamente quando de súpto, partiu-se em duas: a que ainda era, e a que não se reconhecia. Sentia-se despregada do chão, o corpo a flutuar num espaço sem gravidade, invertida e confusa na sua noção de tempo e espaço.
Sua sensação de perda da realidade era inenarrável, não sabia bem do que, ou antes, era de tudo! Mas de tudo o que, se tudo ainda estava lá e todos estavam ali? Ela é que girava de ponta cabeça no entorno de si mesma.
Fracionada em duas, dividiu-se em uma que a observava nesse estado de alma sem nada entender, e outra que presa nesses espaços interiores vagueava na solidão do seu próprio espaço sideral.
Saiu da nave, destinada a vaguear pela escuridão da noite espacial, vendo a nave-mãe longinquoamente, como um ponto aonde não podia retornar
Não se reconhecia, se buscava, na referencia com os quem se havia sempre se conectado. Conexão interrompida, pois entre ela e seus antigos pares, havia um abismo intransponível.
Fugiu de todo o contato para preservar o tênue laço que debilmente ainda ao outro estava atada, pois teve medo que percebessem que ela no espaço flutuava, sem estar com ninguém, e com nada realmente conectada.
Não se reconhecia, mas também não se desconhecia totalmente nessas flutuações siderais.
Sentia-se flutuar abandonada no escuro infinito espacial!…
Presa apenas por uma linha que como um balão se prende fragilmente a uma mão humana, ou como um astronauta preso por um fio recondutor à nave espacial.
O resto era um terror absoluto de solidão e horror de desenlaçamento total. De incomunicabilidade com o planeta terra.
Queria, mas não podia à nave regressar. Resistia, mas não podia parar de flutuar e a nave retornar. Ouvia o apavorante silêncio infinito celestial!
Horror sem fim que durou séculos, ou teria sido um átimo de segundo?!
Não há registro de tempo no inconsciente! Esse tempo que não existe, onde todos de uma existência podem coabitar no espaço interno de um ser, simultaneamente e ao mesmo tempo, junto com a criança que se foi, e o adulto que se é.
E como não há registro de impossibilidade, lá se é possível coabitar com os que nos habitam, é possível com eles conversar, conversando consigo mesma, no passado e no presente.
Lá também não há registro de perda ou separação ou dor!
De onde viria então essa estranheza de si mesma e essa dor inelutável. De onde viria esse mal-estar em forma de desamparo? Esse medo em forma de horror? E de onde viria essa ruptura da unidade psíquica, que dela mesma fez o que?
E na solidão desses espaços infinitos é possível para sempre desprendida ficar perdida de todos que amamos girando à deriva em cosmos assustadores.
É possível, no entanto, no fio condutor tão fragilmente ligado ao outro nos firmarmos com segurança e lentamente nesse espaço onde não existe a consistência material da gravidade irmos em direção à cápsula espacial salvadora, capaz de nos levar de retorno à terra.
É preciso lutar contra a força da gravidade psíquica, é preciso querer!
A gravidade é o fenômeno natural da Terra que confere peso aos objetos. É uma das quatro forças fundamentais da natureza!
A unidade da consciência é uma mera ilusão, por estrutura há uma divisão no psiquismo.
Há no sujeito humano uma divisão entre a consciência e um núcleo de representações inconscientes separado dela. Esse núcleo é autônomo e separado dela. E coabitam no espaço psíquico em relação profunda que transitam entre si, mas sempre mantendo sua divisão estrutural.
O fenômeno da dissociação é um fenômeno psíquico, e em algumas ocasiões o psiquismo tem a possibilidade de mostrar esta dissociação da qual é composta. Por isso a sensação de estranheza quando estamos sob seu efeito e podemos sentir que não somos nós atuando naquele momento.
Tomando em consideração ambos os fenômenos, o filme[1] parece nos servir bem como metáfora por excelência da sensação de estranheza que nos toma de assalto em alguns momentos de nossa vida, quando nos sentimos, como que perdendo o peso que nos mantém firmemente ao chão sentimo-nos gravitacionar no imenso e desconhecido espaço sideral de nosso próprio psiquismo.
[1] No filme Gravidade Alfonso Cuarón, cria uma narrativa angustiante em meio à vastidão do espaço. A Dra. Ryan Stone (Sandra Bullock) e o astronauta Matt Kowalsky (George Clooney), sofrem um acidente em sua missão espacial, sua nave principal é destruída deixando os dois num ambiente de total escuridão sem qualquer ligação com a terra e sem esperança de qualquer ação de resgate.
Logo ela perde o parceiro, ficando em uma situação de desesperadora solidão humana na imensidão do infinito universal.
Sem oxigênio, sem esperança, sem sequer a gravidade para lhe dar direção, ela tem que lutar desesperadamente para encontrar a nave secundária que a traria de retorno à Terra. É uma luta solitária e angustiante, o percurso é extenuante até o momento da reconexão.