La belle… – por Rosana Serena

Misteriosos seres voadores existem borboletas de todos os matizes.

As multicoloridas que barulhentamente batem suas asas alegremente enfeitando a paisagem.

As azuis como o céu que se apresentam alegremente com a mesma placidez celestial.

E há um espécime especial que se reveste de dourado e cujo leve farfalhar de suas asas a torna um ser quase etéreo.

Há ainda as da noite que são assustadoras e revoam esbaforidas no entorno de qualquer luz, muitas vezes deparando-se com seu trágico final.

Mas todas elas têm em comum o fato de serem borboletas que são mágicos seres voadores, que vão e vem no suave bater de suas asas. Todas elas com grande maestria desviam-se prontamente do perigo eminente num rápido bater de asas.

Borboletas lhes chamei para assim bem marcar os desviamentos que fazem certas mulheres de um encontro com o real[1].

Para elas o perigo eminente pode ser encontrado em situações de confronto com o real, ou mesmo antes quando este  apenas se anuncia.

Agilmente desviam desse encontro, pois que ele pode ser desastroso para sua delicada estrutura corporal. Se machucam facilmente com pequenas defrontações e suas asinhas perdem a capacidade de voar. Vivem machucados esses serezinhos caprichosos! E estranhamente se mantém indiferentes, diante de uma grave injúria corporal.

As borboletas se disfarçam na aparente indiferença com seu vôo desviado e parecem estar sempre a evitar! Mas há algo de espanto em seus olhinhos que desmentem esse seu disfarce.

Na verdade, na verdade, e tão intensa a sua percepção de aproximação do real que a elas não é possível denegá-lo eficientemente. Evitar esse encontro com o real é o que elas fazem quando de jardim em jardim, de evitação em evitação, voam batendo suas asas. E atrás desse vai e vem, e desse véu de indiferença, seres mágicos se escondem, escondendo-se de si mesmas.

-Delicada borboleta, não adianta assim desviar o real aí sempre estará insistindo em se simbolizar, e se assim você não o suportar ele ficará a lhe incomodar!

-Pequena borboleta, porque é assim tão fugidia? De fugir tanto assim o seu mal você só irá agravar!

-Mágicas borboletas, seres únicos e especiais o real precisam encarar, para em humanos se metaforsear e parar de tanto desviar e disfarçar.

 

 


[1]  O real inventado por Lacan é o conceito principal na segunda clínica de Lacan porque do que se trata na direção do tratamento, é da abordagem do real. Há um saber real, e nesse saber que está à verdade, não no saber produzido pelo sentido.

http://www.marciopeter.com.br/links/ensino/letra/10_aula.pdf – A noção de Real no último Lacan

J.A.Miller: “El Monólogo de l’Apparole” -Márcio Peter de Souza Leite 17 de setembro de 1998

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