Maria das Dores – por Rosana Serena

Entre enjôos e mal-estares, ela sempre tinha uma outra coisa. Seu pai sem saber de teoria alguma a chamava legitimamente de Maria das Dores e tão pequena ela ainda era.

Animada sempre era, mas entre vertigens e suas náuseas se lhe passou a adolescência, e seu pai ainda assim a lhe apelidar.

Já mais moça muitas vezes não podia trabalhar, pois em crises de vertigens precisava se acamar, e seu pai sempre com seu apelido a lhe chamar.

Mais velha, um tanto mais, começou a se assustar, pois se pôs a pensar que uma séria doença estava a lhe acompanhar.

E até mesmo aos desconhecidos de suas dores estava sempre a reclamar.

Já madura muito mais, foi aos médicos se consultar, mas nenhum deles lhe pode ajudar.

Dentre os médicos consultados alguma coisa  sempre supunham, mas aqueles sintomas estranhos não podiam diagnosticar, pois que nenhum exame tais suposições pudessem confirmar, e nauseada até hoje ela está sempre a enjoar.

Estranhos sintomas que fazem dela um caso enigmático para a medicina que nenhuma doença física pode precisar, embora desses males ela padeça e cuja as dores estão no corpo seriamente a lhe molestar, pois então ouçamos alguém que nos pode elucidar:

“Há a ocorrência de incompatibilidade na vida ideativa, isto é o ego (eu) foi confrontado com uma experiência, uma idéia ou um sentimento que suscitavam um afeto tão aflitivo que o sujeito decidia esquecê-lo” [1].

“A tarefa que o ego se coloca em sua atitude defensiva, de tratar a representação incompatível como non-arrivé, não pode ser cumprida. Tanto os traços de memória como afeto referente à idéia lá estão uma vez por todas e não podem ser erradicados. Mas é possível chegar a um cumprimento aproximado da tarefa, se o ego logra tornar fraca essa poderosa idéia, privando-a de afeto-a-soma de excitação do qual ela está carregada – a idéia fraca não terá então virtualmente nenhuma exigência a fazer quanto ao trabalho de associação. Mas a soma de excitação que tenha sido retirada dela tem que ser utilizada de outra forma.”[2]

…“Na histeria a idéia incompatível é tornada inócua pelas transformações da soma de  excitação em alguma coisa somática, para isto gostaria de propor o nome conversão”.[3]

E seu pai que da teoria nada sabia, sabia bem de sua filha, que no corpo ela sofria  dos males  da agonia que em sua alma à estavam atormentar!

 


[1] Freud, S (1893-1899) Primeiras Publicações Psicanalíticas, Artigo, As neuropsicoses de defesa,Edição Standard das obras completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, 1976, Imago Editora ltda. v.III, p. 59 e 60

[2]  Freud, S (1893-1899) Primeiras Publicações Psicanalíticas, Artigo, As neuropsicoses de defesa,Edição Standard das obras completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, 1976, Imago Editora ltda. v.III, p.  61

[3] Freud, S (1893-1899) Primeiras Publicações Psicanalíticas, Artigo, As neuropsicoses de defesa,Edição Standard das obras completas de Sigmund Freud, Rio de Janeiro, 1976, Imago Editora ltda. v.III, p.  61

 

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