No fio da navalha – por Rosana Serena

Tão aparentemente despreocupada, a fashionista e sempre altiva jovenzinha à minha frente, displicentemente jogada no sofá, me surpreende lançando de chofre uma pergunta, e travará comigo uma espécie batalha intelectual:
– O qual o melhor sistema ideológico – filosófico para governar um país?
Sinto o golpe e me preparo para o embate alinhando-me na poltrona para um longo passeio sobre o tema, antevejo que não sairemos ilesas desse confronto…
Iniciamos o trajeto com uma parada reflexiva sobre o capitalismo como sistema político-econômico, como uma alternativa de organização para o crescimento, nascido com a era industrial nas sociedades ocidentais, e, seu fracasso na intenção de uma sociedade melhor, uma vez intrinsecamente que trouxe a exploração pela acumulação do capital nas mãos de alguns…
Fizemos um ponto de parada pelo marxismo surgido como uma alternativa, como ponto de basta da exploração do homem pelo homem, supostamente contida no capitalismo, mas que levou a outras formas de exploração…
Nos encaminhamos na direção do “capitalismo selvagem” como continuidade perpetuada e exacerbada do poder do capital, inimaginavelmente mais cruel, desmentindo a previsão dos socialistas de que ele, o capitalismo, se esgotaria em si mesmo…
Sobrevoamos sobre as alternativas socialistas, fascistas surgidas como contraponto e busca do suposto e idealizado equilíbrio e igualdade social e seus fracassos retumbantes…
Passeamos um tanto ainda, pelo mundo oriental com suas monarquias, comunismos e potentados um tanto incompreensíveis pela nossa ocidentalização, mas igualmente falhado no êxito da paz entre os homens de bem…
Olhamos o horizonte, para globalização como movimento mundial como quebra das fronteiras entre países e o risco da perda da privacidade!…
Uma vez que ela insiste incisivamente em saber por que nenhum sistema funciona como processo civilizatório para promover a igualdade, fraternidade e bem aventurança entre os homens, chegamos finalmente, por conclusão de raciocínio ao ponto certeiramente indubitável, ao substrato de qualquer sistema político-econômico, que é o homem.
E sendo ele, o ponto comum e repetido a todos os sistemas começa a ficar claro que é ele que falha. O homem, (a) invariante dentre as variantes de qualquer sistema. O homem, determinante causal do fracasso!
Eis aí o nosso ponto definitivo de parada!
Diante da assustadora conclusão, para alguém ainda tão confiante na vida e no mundo, entre assombrada e solene ela lança preocupadamente a sua pergunta:
– Mas então qual é a saída, para um mundo melhor?
E tão solene quanto à pergunta de minha interlocutora, lhe dirijo com a mesma seriedade que requer esse embate, a resposta que julgo correta:
-Educar!
-Educar é a saída, lhe afirmo como maneira de lhe responder e apaziguar sua enorme preocupação, transformada agora em minha.
Ainda não convencida desta fácil equação, pronunciada em apenas uma palavra, ela me encurrala intelectualmente mais uma vez, antecipando sua preocupação materna sobre o tema para daqui alguns anos e dispara a queima roupa:
-Educar como? Ela ataca firmemente no combate final.
Sua pergunta ecoa e se junta a tantas vozes outras, que ressoam em minha mente. Emparedada no muro de minhas próprias convicções fujo do paredão emocional, reportando-me intelectualmente a um livro que a partir das descobertas psicanalíticas, levam a um questionamento sobre educação proposto pela própria autora, e que assim esta posto como centro de sua obra:
“Seria possível uma educação analítica que evitasse o excesso de repressão que levaria ao mal-estar individual em forma da neurose e ao mesmo tempo funcionasse como organizadora da moral que evitasse a perversão está ainda mais destrutiva para a sociedade humana?”
Millot, Catherine- Freud Antipedagogo, Jorge Zahar Editor, Rio de Janeiro, 1987, pg. 7

Sabemos que o processo civilizatório exige a renúncia pulsional, o que certamente compromete a capacidade de ser feliz do indivíduo pela própria renúncia de sua satisfação individual pelo bem do coletivo, e, qualquer tentativa de educar há que resolver concretamente o conflito inerente de conciliar a exigência da civilização do bem comum com a exigência de satisfação de cada um com seu próprio bem.
Essa antinomia estará no centro de qualquer questão educacional desafiando pais e educadores. A educação terá que procurar equilibrar a possibilidade de realização de certa satisfação pulsional, de certas disposições infantis fazendo uma função repressora, de modo que garanta o desenvolvimento da criança e preserve a sociedade, na qual ela desempenhará o seu papel social como adulto capaz.
Outrossim, o excesso de repressão, a coerção da pulsão por agentes externos, os pais, por exemplo, não culmina com a desaparição da pulsão, mas sim à disposição à neurose, e assim as práticas educacionais que tem como única meta a repressão das pulsões, neurotizam nossas crianças. No entanto, outro lado, o do livre acesso e permissão da satisfação pulsional, teríamos no avesso da neurose, à perversão, que traz sérias implicações e complicações tanto para o indivíduo, bem como para sociedade. São esses dois pólos antagônicos em questão na tarefa do educar, aos quais correspondem, um a perspectiva da permissão à satisfação pulsional, e o outro à ação repressora dos pais.
Ambas, a neurose e a perversão serão consideradas como um resultado das falhas do processo de desenvolvimento pelas quais passa a criança. O que corresponderá aos pais o gume de uma navalha, desde onde contemplam assustados as manifestações pulsionais de seus filhos, sem saber a medida certa de suas ações de coerção e permissão.
A eficácia educacional passaria pela possibilidade de interiorização das exigências e proibições morais, asseguradas pelo superego, o código moral do próprio indivíduo construído em sua passagem edipiana, sendo então o Complexo de Édipo, o verdadeiro organizador da evolução libidinal do indivíduo, o que daria o balizamento apropriado entre as oposições.
Complexo de Édipo como educador?!…
Antes de mais nada, para seguir nessa linha argumentativa, é preciso se reconhecer conceitualmente que uma família é uma estrutura organizacional recebedora e organizadora do sujeito cujos papéis e funções são bem estabelecidos a cada um dos participantes. Seja a mãe que como desejante, projetou nesse filho o mais puro de sua feminilidade; seja o filho que veio para exatamente caber como preenchimento no espaço desse projeto familiar; seja o pai que em sua função mediará e arbitrará sobre a relação dual mãe e filho, todos estão numa dinâmica relacional, onde o Complexo de Édipo é a mecânica que determinará a história pulsional do sujeito.
Roda que gira, girando na lei do desejo de cada elemento em jogo, história que determinará a marca constitutiva do sujeito, e com a qual ele se colocará no mundo, sem possibilidade de ser nenhum um outro, a não ser exatamente este, cuja marca o organizou e constitui.
Em seu artigo, Interesse Científico da Psicanálise, no item h, O Interesse Educacional da Psicanálise Freud afirma que:
“Somente alguém que possa sondar as mentes das crianças será capaz de educá-las, e nós pessoas adultas, não podemos entender as crianças, porque não mais entendemos nossa própria infância”.
FREUD, S., (1913-1914). Thotem e Tabu: Edição standard brasileira das obras psicológicas Completas de Sigmund Freud. XIII. Rio de Janeiro: Imago, pg. 224

Caberia pensarmos que poderíamos ter uma pedagogia que voltada para a teoria psicanalítica e ou dirigida por ela, nos pudesse como manual educacional nos nortear para um educar eficiente e exitoso?
Ou antes disso, deveríamos guiados pelos mesmos princípios conhecer a nós mesmos e penetrarmos nos recônditos do desejo familiar para sabermos como a partir dali, o legislamos com um filho? Recônditos de nossos próprios desejos como pais, de nós mesmos, de quem somos e o que desejamos; barreira quase inexpugnável que poucos alcançam transpor, sendo esse o verdadeiro desafio do educar!
De qualquer modo, o que sabemos com certeza e que não é possível educar com uma cartilha na mão, e que não haverá manual de instrução capaz de certeiramente nos fazer exitosos na educação de um filho.
E, finalmente eu pude responder à jovenzinha algo sobre como educar!
Certamente conhecendo-nos como pais e o que o desejamos de nossos filhos e para eles, sem esquecer que se refere a nosso próprio desejo inconsciente, que exigirá peremptoriamente um reconhecimento para a tarefa do bem educar.

2 Comentários

  1. Rosangela
    dez 11, 2014

    O seu desejo com certeza sempre foi o bem educar.

  2. eebest8
    abr 8, 2016

    Im grateful for the article post.Thanks Again. Will read on…

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