Nos desfiladeiros da angústia – por Rosana Serena

E de repente acordei sobressaltada entre brumas: Onde eu estava?
E me tomou como de assalto. O céu abruptamente cinza, se refechou sobre mim. Estava às cegas, envolta por uma cerração fechada que me impossibilitava ver coisa alguma. Sabia que estava num vale sombrio e me agarrava à esperança vã, contida na oração, que me assegurava que mesmo que eu andasse pelo vale da morte, não deveria temer perigo nenhum, pois não estaria sozinha. Mas eu, vislumbrava no meio das sombras, apenas as paredes do grande desfiladeiro em cujo vale eu me encontrava: Que lugar era esse?
Ouvia ao longe, as vozes queridas de quem amava, mas as palavras débeis não se faziam formar. Via-lhes difusa e longinquamente a imagem amada, mas não lhes podia alcançar. Entrevia confusamente, suas mãos a mim em socorro estendidas, mas eu não lhes podia agarrar: Onde eles estavam?
Me mover não podia, encravada que estava em meu peito a gélida espada do anjo da morte! Não podia falar, e mesmo se voz houvesse não haveriam palavras que expressar pudessem o que eu não sabia como! Era esse, então o vale da morte que tantas vezes ouvi referir nas orações que menina aprendi: Mas se era, onde então estaria minha alma?
E pouco a pouco desistiram os que a mão me estenderam, pois não entenderam que eu diafanamente não as podia entrelaçar. E se calaram as vozes dos que me clamavam, pois não perceberam que eu não lhes podia falar. E dexei-me etereamente ficar, por que não havia vida que eu quisesse ou pudesse continuar. E neste meu simplesmente deixar-se ficar, esperava rezando fervorosamente, a sombra escura sobre mim se dissipar. Mas passavam lentamente apenas os dias e dias, de noites mal dormidas, e era sempre em negrume que me encontrava o despertar.
Presa no vale esculpido pelo desfiladeiro que me separava do resto da humanidade, só me restava deixar ficar no fundo deste vale sombrio e gélido em cujo vão eu me encontrava mortificada. Estava absolutamente só! Isolada de todos, e de mim mesma! Enclausurada na dor angustiante da existência de meu não-ser.
Esta é uma descrição de um pesadelo?
Esta é a fenomenologia de uma angústia que tem a descrição de um pesadelo. Experiência traumática que só pode ser compreendida nos consultórios de analista e reconhecida por quem por ela passou. Vivencia existencial que mudará para sempre a estória do sujeito. Dela sozinho não se acha saída!
Mas do que é feita uma angústia?
“A angústia é um afeto”1 , o único que não engana, pois aí está o sujeito, posto que se refere ao mais intimo de si mesmo. É um sinal visível, é uma referência propriamente tópica, ou seja, o sinal visível que aparece na consciência de uma tensão psíquica conflitiva. Tem, portanto uma conotação psíquica inconsciente, o que vale dizer que há uma estrutura por detrás na organização, desenvolvimento e aparição de uma angustia.
Não se trata, portanto de ingenuamente esperar ou fervorosamente rezar para cessar. É necessário refazer sua trajetória ao inverso, que não é tarefa fácil e que se possa fazer sozinho. É Necessário refazer sua trajetória desde o ponto de sua aparição ao seu início em busca de sua causação.
Mas é tarefa que precisa ser feita sob pena do sujeito esvanecer para sempre nos desfiladeiros de sua própria angustia!

1 Lacan, J. (1962-1963) O Seminário livro 10, A angústia, Rio de Janeiro, 2005, Jorge Zahar editor, p.28

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

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