Nossos cadinhos!… – por Rosana Serena
Embevecido ele olha para aquele pequenino e tão magrinho, recém nascido serzinho, que de tão desgracioso chega a despertar certa ternura, pois que de fato da genética familiar ela era da mistura o bem pior.
Mas ele, seu avô, em devaneios desvairados com um febril olhar azul delirante de emoção quase está a desfalecer. E lhe é tanta a comoção, que nas bordas do rico berçinho ele precisa firmemente se amparar. E com o sentimento, do mais profundo, repetidamente em voz alta ele diz sem com os outros se importar.
– Minha linda princesa!…
Com esta frase, estará assim assinalado para sempre o destino dessa bebezinha que de linda e princesa nada tem, mas com certeza ela terá bem cunhado no seu destino inconsciente esse ideal de perfeição!
A avó lhe brinca, com grandes brincos de brilhantes, que pareciam assim tanto bizarros naquelas tão pequeninas orelhinhas, e com esse ato estará nesse corpinho bem marcado, o símbolo de toda sua realeza!
A tia lhe vaticina uma missão celestial nesta vida tão terrena e assim, lhe estará bem designado uma predestinação espiritual.
Seus pais emocionados recebem as homenagens por terem sido agraciados, com toda essa grandeza!
Impossível, será que esta bebezinha junto com o seu leitinho não sorva todos esses amplos significados, destes, que ao redor deste bercinho, estão tanto assim, por si mesmos apaixonados, pois que como seres especiais com a mais linda princesinha haviam sido pelo divino presenteados.
Dalí, não tão longe, outra cena se passava, um lindo e vigoroso bebezinho não fora assim tão bem recebido. Nasceu como um pequeno estorvo a ser absorvido por aqueles que por ele não esperavam.
Belo, forte vigoroso esse bebê põe a boca no trombone como se de algum jeito, contra esse triste significado recebido, ele estivesse a se rebelar!
Os avôs desconfiados do futuro da família se entreolham preocupados!
E os pais tão jovenzinhos, tremiam desencorajados diante de tão grande responsabilidade encarar!
E assim em torno dele, todos naquela família pensavam, sem em voz alta dizer:
– Que problema!…
E assim será que entre as mamadas e os cuidados esses bebês sorverão todos esses afetos e emoções que lhe foram projetados.
E, em um e outro caso, esses bebês aparentemente alheios, certamente absorverão o desejo familiar tão claramente expresso e contido nessas imaginárias formulações.
O bebê aí estará como o cadinho, que como receptáculo receberá estas projeções do desejo familiar que farão o caldo precioso onde se fundirão todos esses significantes, criando a matriz inaugural de sua estrutura psíquica.
Dúvida não se tenha, que essas marcas para sempre assim estarão cravadas entre o corpo e a mente, e assim farão parte desse tal de inconsciente.
“Inicialmente, focaremos a função imaginária como condição de investimento na cria, pois o bebê não tem nada de majestoso em si mesmo. Sua existência torna-se inefável fica o lugar que o Outro lhe atribui, lugar construído a partir do narcisismo em que o bebê será tomado como objetivo de investimento libidinal, no lugar de um espelho que refletirá a imagem desejada. Nesse lugar, o Outro primordial criará para o bebê uma ficção sobre sua existência”.[1]
A isso se chamará de fantasia primordial do sujeito, que como ego ideal se fixará, lugar de sideração desde onde o sujeito estará para sempre bem pregado e cuja tarefa essencial será a de daí se desprender para encontrar-se saudavelmente com o seu próprio desejo!
[1] Ferrante, Baptista,V. Amar, cuidar, subjetivar – implicações educacionais na primeira infância, estilos da clinica, v.8 n.15, São Paulo, junho 2013, v.8, n.15
http://pepsic.bvsalud.org/scielo.php?pid=S1415-71282003000200005&script=sci_arttext
Nota: Outro é a função da mãe que na linguagem lacaniana recebe o nome de Outro.