O Fato Social como Sintoma – por Rosana Serena

Ensaio I
A nossa sociedade se organiza sob a repressão das pulsões, e o resultado disso, além da neurose, é um mal estar em nossa civilização. A falsa moral não é a causa do recalque e sim, mais uma defesa contra a demanda pulsional, ética em nome da qual se age, construindo uma educação voltada para a repressão da sexualidade. O acirramento do recalque é o resultado obtido, pois o que aí não pode ser realizado, mantém sua força, se potencializa, retornando como sintoma numa substituição significante. A sociedade em seu conjunto se empenha em manter a repressão em nome da suposta harmonia e equilíbrio social, e nesta tarefa, o que se fortalece é a estrutura superegóica, o centro de organização de sintomas. O sintoma como efeito de recalcamento surge quando o eu faz oposição à representação pulsional e a obriga a aceitar uma forma transformada de uma realização de tais desejos inconscientes. O sintoma, assim expresso, se constitui num compromisso de acordo entre as forças em ação. É, no “Desmantelamento da unidade imaginária que o eu constitui que o sujeito encontra o material significante de seu sintoma”(1) . É inquestionável, sob este aspecto, que pela transferência se chegue à redução do sintoma “por acréscimo” e, pelo desvelamento do fantasma que o recobre a uma mudança de posição subjetiva e, assim, obtenha a Psicanálise sua vitória sobre a neurose. Mas, poderia a Psicanálise triunfar sobre a tarefa de estudar o sintoma social, este, afinal, que foi organizado em nome do equilíbrio social?
O sintoma vem dizer do sujeito os significantes que o constituíram e, portanto, de seu desejo. O desejo humano, isso edifica o mundo de relações que temos por nossa realidade e, este fato, parece convocar a Psicanálise a constituir-se em estudo da realidade humana. Dada a prevalência da prática que comporta, seria correto pensar, como afirmam alguns, que acabou por reduzir-se a extensão de tal contribuição aos consultórios de analistas, e que a Psicanálise, como método de investigação da realidade, ficou por isso, atrelada à sua técnica? De fato, como em qualquer ciência autenticamente constituída, a prática analítica não poderia encerrar os segredos da Psicanálise, ela deteria somente uma parte de sua realidade, aquela que existe na prática. Apenas a teoria ‘ os encerra em si mesmo e, por isso, precisamos nos dirigir à Psicanálise para buscar aprender a teoria na qual todo o resto está contido por direito. Fábio Herrmann em, “Andaimes do Real”, afirma que: “A Psicanálise chegará ocupar o extenso campo que por direito é seu quando associada as demais ciências do homem, dedicar-se a reconhecer, isolar e estudar os estados intermediários da construção da realidade cotidiana, os andaimes que mediam entre o desejo e sua obra acabada, o real” (2) . A rigor, podem os supor que a Psicanálise em sua teoria poderia ou deveria responder a tal convocação?
“Não preexiste sujeito ao recalcamento, ele advém como sujeito no momento em que aparece sob o significante que passa a representá-lo” (3) .O recalque originário que funda o inconsciente é um conceito freudiano que Lacan escreve pondo barra sobre o sujeito e, portanto, só há um sujeito do qual podemos falar, sujeito barrado, sujeito do inconsciente, sujeito emergido a partir dos significantes mestres que o constituíram e passam a representá-lo. A verdade do sujeito só é possível entender a partir das formações do inconsciente: sonhos, chistes, atos falhos, sintomas. A ação humana só pode ser entendida como uma manifestação do sujeito, como todo sujeito é sujeito do inconsciente, então, toda ação humana deve ser entendida também, como uma manifestação do inconsciente, vale dizer, seu sintoma. No seminário (inédito) “de um discurso que não seria fingimento”, Freud é revolucionário, diz Lacan, por ter colocado no primeiro plano, como Marx, a função que trata os fatos como sintoma.” (4) Mas, teria a Psicanálise a tarefa sob tal aspecto de constituir-se num estudo da realidade humana?
As ciências humanas nascem, efetivamente, da deposição do sujeito pensante e os fenômenos humanos passam a ser objetos exclusivos de tais ciências. E o que podemos saber sobre a real idade humana? Sabemos que a realidade humana só pode ser apreendida em sua produção, em seus efeitos e que, todavia, não podemos compreender a ação humana a partir dela mesma. O modo de apreensão tem que ser a partir da discursividade do sujeito. Par a as ciências humanas que caminho seria esse que permitiria, interpretando o fato social como sintoma, perpassar o sentido até chegar à causa, inegavelmente inconsciente. Desde o impacto do desvelamento da descoberta freudiana, as ciências sociais procuram uma resposta. Para alguns, a questão é meramente retórica, pois seria a própria Psicanálise o único modelo de inteligibilidade possível a ser seguido, de modo que se introduza neste campo do saber, a verdade do sujeito do inconsciente. De fato, pensamos na impossibilidade de tal empreendimento devido ao caráter particular da verdade do sujeito, que somente surgirá pela via significante do sintoma ao ser articulado ao saber que o sujeito tem de si próprio. E, então, podemos falar de sintoma social, mas já não podemos pretender que a Psicanálise o trate. Não há como avançar na compreensão do que o humano, o homem tem sem a ética da Psicanálise, sob a pena de aí se dissolver o humano e decretar seu assassinato. Que alternativa teriam aqueles tantos que, diante das ações do sujeito as reconhecem como manifestações do inconsciente, senão a de responder esta questão com sua própria formação?

BIBLIOGRAFIA
1 FREUD, Sigmund. Obras Completas, Lecion XXIII. Vias de
Formación de Sintomas, v.II. Editorial Biblioteca Nueva.
2 MILLOTT, Catherine. Freud o Anti Pedagogo. Zahar, Rio de Janeiro, 1987.
3 MILLER, Alan Jacques. Percurso de Lacan, uma introdução. Zahar, Rio de Janeiro, 1988.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1MILLER, Gérard. Lacan. O sistema éo que muitas pessoas têm de mais real, p.72, Zahar, Rio de janeiro, 1989.

2HERRMANN, Fábio. Andaimes do Real, p.2.E.PU, São Paulo, sem data.

3BROUSSE, Marie Helene. Lacan, p.72, Zahar, Rio de Janeiro.

4MILLER, Alan Jacques. Percurso de Lacan, uma introdução. Zahar, Rio de Janeiro, 1988.

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