O Planeta Melancholia – por Rosana Serena

O tempo estagnado se cristaliza numa imagem fotográfica de uma beleza angustiante onde somos capturados desde a primeira cena numa suspensão emocional indefinível, talvez, de uma certa sensação psíquica de sufocamento transcendental. Algo terrível está por vir, sem sabermos o que!…

O prólogo anuncia o impacto da obra, imagens de desmantelamento de aves mortas, cavalo que arria, se apresentam em uma sequência de um suposto non-sense onde Justine flutua presa a raízes.

Nesse estado de sublevação ansiosa onde estamos apreendidos, somos conduzidos pela trilha sonora de Wagner ao drama que se apresenta em dois atos:

1-      Justine

No primeiro ato, Justine, segue com o noivo para o castelo de sua irmã e cunhado em alguma bucólica região nórdica, onde nobres convidados aguardam os noivos para a festa de seu casamento. O pano de fundo é o casamento onde se desenrola o drama humano como cena principal.

Ressalta o esplendor frio do castelo, contrastando com a riqueza do cerimonial rígido de uma festa gélida, árida de emoção.

Sobrepõem-se sobre qualquer aspecto, os movimentos angustiantes de Justine a procura de si mesma, nesta cena de sua própria vida onde ela não se reconhece. Justine recua de protagonizar um drama que não reconhece como seu.

Fraturados laboriosamente os conceitos de que família, riqueza e amor, como aquilo que não pode trazer estabilidade ou equilíbrio emocional, as imagens de uma direção de fotografia genial e esplendorosa, levam o filme ao clima de elegia da triste e angustiada Justine. Justapõe-se para o espectador o clima de expectativa assombrosa!…

2-      Claire

O segundo ato nos traz Justine em desamparo sendo novamente recebida por sua irmã Claire no mesmo castelo. O clima aflitivo se exacerba quando o protagonista se torna o Planeta Melancholia, este, em rota de colisão com a terra, anuncia a destruição total de nosso planeta, que denuncia o desamparo do humano, diante do real da lei da natureza a que estamos todos submetidos. Apontado o fato científico aterrador, cada personagem seguirá no encaramento pessoal desta verdade, que anunciada será por cada um assimilada à sua maneira, onde cada qual a seu modo, reagirá ao inevitável deste encontro.

Claire, a irmã de Justine, tendo perdido todas as garantias e certezas que a circundavam entra em um desespero angustiado.

John, o marido de Claire, fiador das garantias familiares, agarra-se a um contra-discurso científico que alude o fato à alarmistas da ciência, cujos cálculos são mal engendrados.

O sobrinho de Justine, filho de Claire, afogado pelo desespero da mãe, procura apóio na tia que está calma diante do que para ela se prenuncia como inevitável.

De qualquer modo Claire acolhe e ampara os outros dois, por reconhecer no fato o que sempre soube e temeu, e para o qual, ela sabe, não haverá escapatória possível.

Diante da proximidade e colisão indiscutível do Planeta Melancolia com a terra, John evita o confronto final, fazendo sua saída estratégica de cena, suicidando-se.

O pequeno grupo das irmãs e o menino acolhem o momento final em uma “caverna mágica”, feita ao relento da desproteção de um verde campo. Claire, oferecendo aos outros sem acreditar, uma saída imaginária para o medo diante da condenação humana da finitude e mortalidade.

A cena final é assombrosamente devastadora, a tela cheia com a imagem do grande planeta anunciando sua etapa final de colisão, acolhendo definitivamente os personagens em sua vulnerabilidade. Claridade final sufocante!…

Melancholia, o filme do diretor dinamarquês Lars Von Trier é enigmático como são todos os seus filmes, é uma obra- prima sob os aspectos de forma e conteúdo. É esteticamente muito sofisticado com inspiração em pinturas pré- rafaelita, trilha sonora de Wagner que dão ao filme uma cor emocional de ensombramento lúgubre. Uma claridade final incidente do planeta Melancolia esparramada sobre a terra exacerbam os tons frios e áreas de claro e escuro e quase ao reverso da luz dão um peso obscuro as imagens que nos comprime o coração.

Desamparo humano, a descrença de quaisquer instituições como garantia, o sentido da vida e da morte são marcas presentes em toda a obra do genial diretor, e apontam sempre para a condição do humano como ser faltante, submetido à lei maior, da natureza.

A condição de ser faltante é apontada por Lacan da seguinte forma:

“Duas faltas aqui se recobrem uma é da alçada do defeito central em torno do qual gira a dialética do advento do sujeito o seu próprio ser em relação ao Outro pelo fato de que o sujeito depende do significante e de que o significante está em primeiro no campo do Outro. Esta falta vem retomar a outra, que é a falta real, anterior, a situar no advento do vivo, quer dizer na reprodução sexuada. Esta falta é real, porque ela se reporta a algo de real que é o que o vivo, por ser sujeito do sexo, caiu sob o golpe da morte individual”.

(LACAN, J., “Os quatro conceitos fundamentais da Psicanálise- livro I  “,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1988, pag. 195)

 

Seria correto então afirmar que no entorno de uma falta radical decretada por sua mortalidade é que se erige a estrutura do sujeito engendrada em torno de seu próprio advento como sujeito!?

Organização do Sujeito

O Édipo é uma estrutura cujo correlato é o Complexo de Castração. Esse complexo é definido como sendo ligado à ausência ou presença do falo.[1]

Pelo mito do Édipo é possível se explicar como se opera a questão da falta, o que determinará a posição do sujeito, tomando como referência o falo.

A estrutura do sujeito é equivalente ao lugar de significação que o filho adquire muito antes dele nascer. A criança nasce em prematuridade biológica o que faz com que dependa totalmente de quem cuida dela. Ao atender as carências da criança a mãe o faz segundo seu código interno o que também proverá à criança o acesso ao simbólico.

No primeiro momento de vida da criança ela realiza uma identificação primordial na sua relação de alienação, especifica a mãe, o que se chamará o estádio do espelho, e este será o seu assujeitamento no nível imaginário.

A inscrição necessária ao registro simbólico se fará pela dialética dos três tempos do Édipo:

a)      No primeiro momento do Édipo a criança está na posição de objeto (falo) para completar o que falta à mãe, assujeitada ao desejo dela.  A mãe, no entanto submetida à sua própria ordem simbólica terá outros interesses para além da criança e a própria mãe será o agente de frustração da criança á respeito de ser o falo.

b)      No segundo momento do Édipo haverá uma intervenção na relação mãe-criança-falo,  agenciada por um pai imaginário. O pai aparecerá como objeto do desejo da mãe, portanto como aquele que é imaginariamente o falo. É uma intrusão necessária que privará  a criança de ser o falo, uma vez que há para a mãe um objeto a mais, que não é a criança ela própria.

Com esta descoberta verá um reconhecimento da lei do pai que privando a criança de ser o falo lhe da acesso à ordem do simbólico.

c)       No terceiro momento, o momento da castração, a criança deixará de ser o falo, para tê-lo ou não tê-lo. O menino identificado ao pai, que será aquele que possui o falo, renunciará a ser o falo, para ser o que o têm.

A menina identificada à mãe será aquela que não o terá, mas que buscará posteriormente tê-lo, através de um homem ou um filho para si.

 

A castração está ligada a intervenção do pai real e se a castração de que trata é sempre a de um objeto imaginário.[2]

Lacan afirma, “pode-se dizer que a castração é o signo do drama do Édipo, como também dela é ele o pivô implícito” [3] que aparecerá sempre como temor ou ameaça desse momento traumático que colocará a criança sobre a lei do desejo.

                As estruturas clínicas segundo a psicanálise se classificam em neurose, psicose e perversão e serão o modo como sujeito responderá à falta do objeto pela passagem do Complexo de Castração.

                Na estrutura psicótica a criança permaneceu na relação simbiótica e fusional com a mãe, ficando assujeitada a mãe, como o objeto de seu desejo, a saber, o falo. A mãe não frustrará a criança nesse seu intento e não permitirá a entrada do pai como terceiro termo, a se colocar entre ela e a criança. Não haverá pelo pai imaginário, aquele a quem a criança se remeterá como rival, uma privação de ser esse objeto imaginário. Não haverá uma lei, a lei do pai, que permitiria a criança o acesso ao simbólico. O nome do pai estará foracluído[4] o que condenará a criança a uma estrutura psicótica onde os delírios e alucinações serão a marca de um inconsciente que não se constitui sob o simbólico.

A estrutura perversa nos remete a uma saída da criança da relação fusional com a mãe, no entanto sem dar uma saída adequada para a sua posição de se constituir como o falo materno, o objeto do desejo da mãe. A mãe não referenda o pai, ela o destitui, apesar dele estar lá, não haverá para a criança um reconhecimento do pai como aquele que detém o falo que a mãe deseja. A criança reconhecerá que a mãe não possui o falo, mas que para além do pai ela deseja algo mais do que isso. Haverá uma admissão da castração no nível simbólico, mas concomitante uma recusa dela, o que em psicanálise se chamará de desmentido[5]. Da castração. Tal organização esgota o sujeito em desmentir exaustivamente a castração utilizando todos os dispositivos a fim de evitar a angústia inerente à própria castração. A única lei que o perverso reconhecerá será a lei imperativa de seu próprio desejo. Ele transgredirá a norma e a lei como forma de sustentar o desmentido de sua própria castração.

A estrutura neurótica será aquela em que a criança confrontada com a frustração agenciada pela mãe de não ser o falo, e tendo tido como agente um pai, rival e privador, foi aquela que pela intervenção do pai real ascendeu ao nível simbólico de não ser o falo para tê-lo, diferenciadamente para o menino e a menina.

Conclusão:

A ameaça sempre crescente e inevitável da colisão do planeta com a terra nos toma emocionalmente como nossa própria confrontação com o momento aterrador, tal é a maestria do diretor em sua orientação de fotografia, cenário e encenação dos personagens.

Não apenas somos convidados a sermos espectadores, bem mais que isto, à sermos partícipes emocionais do drama que se desenrola para cada um a partir do evento cósmico.

Essa captura tem um além da genialidade da obra, que é a captura emocional de um drama ou um evento traumático que se deu para cada um de nós e se passa em nossa cena do inconsciente.

Em cena o Planeta Melancholia, como o que anuncia as duas faltas referidas por Lacan, uma retomando a outra, funcionará como um objeto fóbico que prenuncia e ao mesmo tempo evita e protege contra a angústia[6] de castração.

O encontro com a castração embora estruturante é sempre traumático e será sempre temido pelo sujeito, pois é ameaça à sua sensação de completude e deixará suas conseqüências cunhando a estrutura do sujeito.

Cada personagem indicará o seu caminho de possibilidade quanto à sua própria operação de acesso ao simbólico:

Justine gravitacionando o tempo todo denegando[7] em torno de sua angústia de castração, chega ao ponto de uma sucumbência do inevitável, para ela sempre antecipada pela própria angústia.

Claire, bem instalada em sua alienação ao Outro em sua posição de servilidade a John, o marido provedor de todas as certezas e cauções na vida, vê desfazer sua organização sintomática obsessiva e faz sua entrada na angústia, pois já não sabe mais onde está.

O discurso de John, invalidando o fato, e não admitindo em momento nenhum a evidência criando sua teoria própria de anulação da lei, desmente a castração. Para John não há enquadramento possível, sai de cena em um suicídio metafórico de desmentido.

A criança, Tim, tal como o psicótico foracluí o fato, criando uma saída delirante, protegido pela Caverna Mágica, a céu aberto, em uma exposição alucinatória.

O momento final, o encontro com a castração a que todos estamos subordinados, faz deste filme uma verdade inerente e intrínseca ao humano e fazem dele extremamente aflitivo.

É um drama, do qual podemos não gostar, mas não podemos deixar de certeiramente sermos atingidos por ele, uma vez que remete ao drama pessoal de cada um.

De qualquer modo uma falta recobrindo a outra, Melancholia é a metáfora do final inevitável para o humano, e do qual não há fuga.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 



[1] VALAS, P., As dimensões do gozo. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2001. pag. 51

 

[2] LACAN, J., “A relação de objeto – Livro IVI“,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1995, pag. 37

[3] LACAN, J., “A relação de objeto – Livro IVI“,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1995, pag. 221

[4] Foraclusão: mecanismo básico da psicose

[5] Desmentido: mecanismo básico da perversão

[6]  A angústia é correlativa do momento em que o sujeito está suspenso entre um tempo em que ele não sabe mais onde está, em direção há um tempo onde ele será alguma coisa na qual jamais poderá se reencontrar. – LACAN, J., “A relação de objeto – Livro IV“,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro,1995, pag. 231

 

[7] Denegação: mecanismo básico da neurose

1 Comentários

  1. JUL LEARDINI
    out 19, 2014

    Parabéns, Rosana, gostei bastante.

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