O que me falta? – por Rosana Serena

E tudo está lhe indo tudo bem! Muito bem!

Sozinha criando os filhos e enfrentando as contrariedades e os reveses, jamais esmoreceu. Sempre acreditou que tinha forças para seguir adiante, e em frente e firme era sempre o seu rumo, e ela havia chegado aonde se propusera!

Teve grandes perdas pessoais, mas não vacilou no enfrentamento da dor e do luto, e seguiu adiante corajosamente!

Na carreira profissional no início colheu amargas derrotas até porque aos parceiros profissionais fazia sombra, mas jamais recuou do sucesso!

Aos seus, não lhes faltava nada, pelo menos não que lhe causasse desconforto e aflição por não poder lhes atender.

Os filhos encaminhados, o marido gentil parceiro, a essa altura da vida era seu esteio amoroso de amparo afetivo!

Sociável ela havia construído uma vida de boas e algumas sólidas amizades pessoais!

Profissional de sucesso em sua área havia alcançado as honrarias e validações de seu grupo profissional!

Acima de tudo ela sempre soubera na vida a direção certa a tomar!

É uma jovem senhora, bonita e extremamente saudável. Esta satisfeita com a beleza, própria da sua idade.

Agraciada pela vida, dorme feliz, por essas preciosas conquistas que lhe comemoram a idade e a vida.

Dormira tranquila suas noites de bom sono, até que certa noite ela sonhara não sabe com o que, e acordara com uma estranha sensação de mal-estar, de coisas mal resolvidas e arranjadas. Uma estranha sensação de mal-estar difuso e aflitivo que lhe chegara mansamente, mas definitivamente, sem sinais de ir embora. Aflição, insignificância, irrelevância, resiliência de emoções controversas.

Olhava agora para frente, como sempre houvera olhado, mas a certeza da direção na vida já não tinha mais, ou mesmo não via mais direção.

Houvera lutado muito na vida para chegar a esse estágio de resolução de destino dado à sua vida!

Houvera se pautado na vida materna pela teoria de que a boa mãe é aquela que se torna dispensável…

Houvera criado seus filhos para a independência familiar e de vida, e colhia na prática os frutos de seu plantio. Nunca quisera ser como as mães que não deixam os filhos crescerem para validarem-se a si próprias. E plena de seu sucesso materno tem agora essa sensação de absoluta irrelevância…

Houvera colecionado louros e comendas profissionais que estavam bem guardados na memória e no coração, mas não tinha mais a certeza de que era indispensável…

Houvera conquistado amizades preciosas, dentre estas, algumas que se foram por querer, outras por não poder ficar. Aceitava o fato calmamente, mas todos há seu tempo lhe fazia falta…

Houvera sabido fazer do marido o parceiro e companheiro de toda uma vida, mas via atualmente com realismo que ele tinha suas próprias parcerias em que ela não contava como parte…

Houvera amealhado bens, que lhe garantiam a boa casa e a boa mesa, mas tais conquistas que lhe davam tanto prazer, hoje não têm o mesmo significado…

Nunca houvera em todos esses enfrentamentos uma vacilação de si! Ela sabia o rumo, a direção e o sentido de sua vida! Quanto maiores às demandas, fora maior a vitória. Sentira-se apta, segura e relevante.

Entre aturdida e confusa ela me pergunta, insistentemente querendo entender os estranhos sentimentos de agora!…

_ Mas o que me falta? Uma vez que reconheço que nada me falta a esse momento. O que me falta para estar bem há este tempo em que todas as demandas foram atendidas?

No percurso de Lacan[1], vamos as pistas na tentativa de elucidação de tal mistério.

Lacan lança as questões:

1)      O que é uma angústia?

2)      Descartemos que se trata de uma emoção e para introduzi-la direi é um afeto.

3)      Trata-se do desejo, e o afeto por onde somos solicitados.

4)      Eu lhes disse: o desejo do homem e o desejo do Outro.

5)      É o outro como lugar do significante.

6)      É o fantasma que não hesita em recobrir por essa notação de imagem especular.

7)      Em relação a esse Outro, o sujeito se inscreve como um quociente.

8)      Há um resto, no sentido da divisão, um resíduo, é o a.

9)      Esse objeto a, é dele que se trata em todo lugar onde Freud fala do objeto quando se trata da angústia.

10)   Se de repente não falta, criam-me, tentem aplicar isso a bastantes coisas é nesse momento que começa a angústia.

Na continuidade desse percurso nos encontramos com o questionamento lacaniano sobre o que causa a angústia:

1)      O que provoca a angústia?

2)      Contrariamente ao que se diz, não é o ritmo nem a alternância da presença-ausência da mãe e, o que prova é que este jogo presença ausência a criança se compraz em renová-la, esta possibilidade de ausência, isto é a segurança da presença.

3)      O que há de mais angustiante para a criança é que justamente esta relação sobre a qual ela se institui pela falta que a faz desejo, esta relação é mais perturbada quando não há possibilidade de falta.

4)      O que é a angústia em geral na relação com o objeto do desejo, que é que nos ensina aqui a experiência, senão que ela é tentação, não perda do objeto, mas justamente a presença disto, que os objetos não faltam.

5)      O que isto, senão o que é temido é o êxito e sempre, “isto não falta”.

O desejo do Outro me constitui e fundou entanto sujeito, e nessa relação na qual ele me legitima e valida pelo seu assentimento, eu construo o meu fantasma que responderá por mim, ao interpretado desejo do Outro como a cavilha perfeita a preencher perfeitamente o buraco que no Outro aparece cavado pelo meu desejo.

Me concebo, eu meu fantasma construído imaginariamente, a me oferecer como àquilo que falta ao Outro, e que só eu posso ofertar!

Mas se ao Outro nada falta, como aí me oferecer com o que acredito que sou?

Seria correto afirmar que quando essa falta não aparece no Outro, para o qual fico impossibilitado de responder com o meu fantasma, então eu perco minha direção na vida, porque já nada mais sou do que imaginava ser, e então nesse lugar aparecera à angústia.

Poderia agora responder a pergunta da jovem senhora acometida pela angústia que a acometeu, com outra pergunta?

_ O que me falta?

Faltaria a falta, como suporte do desejo, desde onde com o fantasma se situaria como sujeito, e se tornaria apta para respondendo ao Outro responder à vida, sem perder a direção?…

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 


[1] LACAN, J., (1960-1961) “O seminário – livro X– Angústia “,Jorge Jahar editor ,Rio de Janeiro, 1ª edição, pg. 25 a 65

 

1 Comentários

  1. fiverr backlinks
    abr 8, 2016

    Thanks so much for the article. Awesome.

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