O Sintoma Social – por Rosana Serena

Ensaio III
A nossa sociedade se organiza sob a repressão da pulsão. A moral dominante, não é a causa do recalque e, sim, mais defesa contra a demanda pulsional, ética em nome da qual se age construindo uma educação voltada para a repressão da sexua1idade. O acirramento do recalque é o resu1do obtido, pois desde aí, o que não pode ser simbolizado, mantém força, de certa forma se potencializa e retorna como sintoma, numa substituição significante. A sociedade em seu conjunto se empenha fortemente em manter a repressão em nome da suposta harmonia, equilíbrio social e, nesta tarefa, o que se fortalece é a estrutura super-egóica, o centro de produção do sistema. O sintoma, ‘ efeito do recalcamento, surge quando o eu faz oposição valorativa à representação pulsional e a obriga a aceitar um forma transformada de uma realização de tais desejos inconscientes. O sintoma, vem dizer do sujeito, os significantes que o constituíram e, portanto, de seu desejo.
O desejo humano, isso que a psicanálise nunca deixou de investigar, edifica o mundo que temos por nossa realidade e, por isso mesmo, o homem que o constrói não se reconhece como seu autor. Vista sob essa ótica, a sociedade como tal, se organiza tal como um sintoma. Resta-nos perguntar, se o sintoma social é analisável pela psicanálise. A teoria psicanalítica, invocada e convocada pelas ciências sociais, parece oferecer-nos material suficiente para aventurar-mo-nos nesta direção.
O sintoma contudo, traz a problemática da dimensão terapêutica em psicanálise – a questão da sua cura. A elaboração do sintoma se faz sob transferência, é pois, que sem a transferência não se pode saber como o sintoma está estruturado. O sintoma está estruturado em termos significantes, “é o significante do real”(1) , “representa o retorno do real que concerne a causa do desejo.”(2) Não se pode por isso, apegar ao sentido do sintoma, é preciso esvaziar toda a significação imaginária para se aferrar ao significante. E, então, é necessário que o sujeito fale, que fale seu sintoma! Que fala da verdade do sujeito do inconsciente. É preciso rearticular, pela via do significante, o saber que o sujeito tem de si, a sua verdade inconsciente.
Temos também, que a psicanálise nos ensina a olhar para além do sintoma, além do bem estar do sujeito e, desse modo, a ética da psicanálise se contrapõe subversivamente à ética social.
A partir de Freud, no entanto, não se pode desprezar o inconsciente, o que no campo das ciências sociais, constitui a face oculta e interna das ações humanas. Para dar conta desse fato científico, o fato do sujeito do inconsciente, as ciências ditas humanas, propõem como uma estratégia para uma saída honrosa desse seu embaraço epistemológico, construir uma metodologia, segundo os moldes da inteligibilidade psicanalítica. É um mau arranjo, um mau acordo, porque como um arranjo forçado para dar conta do imaginário de uma significação fálica, acaba produzindo mais um sintoma, o sintoma da ciência.
No campo das ciências sociais, a psicanálise não pode, a
lógica do significante impede, constituir-se em uma teoria que aplicada seria capaz de dar unidade e consistência ao saber de tais disciplinas. Pode apenas funcionar como “contra-ciência”(3) no sentido de pôr em questão tal saber.

BLIBLIOGRAFIA
1 FREUD, Sigmund. Obras Completas, Lecion XXIII. Vias de Formación de Sintomas, v.II. Editorial Biblioteca Nueva.
2 MILLER, Jaques Alan. Percurso de Lacan. uma introdução. Zahar, Rio de Janeiro, 1988.
3 MILLOT,Catherine. Freud o Anti Pedagogo. Zahar, Rio de Janeiro, 1987.

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
1 CLASTRES, Guy. Clinica e Estrutura, Letras da Coisa, v.9, p.103. Associação Coisa Freudiana, Curitiba, 1990.
2 CLASTRES, Guy. Ibidem, p.
3 JAPIASSÚ, Hilton. Nascimento e Morte das Ciências Humanas, p.215, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982.

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