Perdoe, ele não sabe o que faz! – por Rosana Serena
Perdoe, ele não sabe o que faz! Era o apelo de um pai cujo filho já havia passado todos os limites.
Um pai religioso que se inspira na máxima cristã do perdão para lançar repetidamente esse apelo para quem o filho seriamente prejudicou.
O que diríamos de um pai cujo filho está sempre a errar e ele sempre a lhe perdoar?
Acharíamos um verdadeiro exercício humano mais do que da paternidade, o do legítimo amor!…
Mas se mais atrás retrocedêssemos e víssemos esse filho sempre a errar e o pai sempre a lhe perdoar sem que o garoto conseqüência nenhuma de seus atos tivesse que enfrentar.
E se no tempo nos adiantássemos e víssemos esse filho sempre a desacatar todas as regras, do outro respeitar, e mesmo assim o pai este viesse sempre a descupabilizar.
E se ainda, pudéssemos bem observar, que este filho diligentemente a cada perdoar se põe ainda mais a arrebentar todos os mais divinos mandamentos do respeitar e amar.
E, se ainda assim pudesse constatar que esse pai, este filho estivesse sempre a poupar e desculpar.
Poderíamos acertadamente perguntar, porque é que esse pai ao seu filho não pede para ele parar de errar?
Porque é que tanto aos outros pede incansavelmente ao filho perdoar mesmo diante do que irremissível é?
Por acaso não seria que por ter sido tão perdoado ele não tinha aprendido a alguma coisa acertar?!
Porque são os outros que tem que lhe perdoar e não é ele que tem que acertar?
Facilmente podíamos afirmar que quando levamos em conta o superego podemos compreender o comportamento social deste sujeito, deste caráter que não existe ou fracamente parece existir.
Superego que Freud coloca como uma instância especial a diferenciar do Ego, que é a responsável por nos fazer abandonar certas satisfações prazerosas, quando não são por ela moralmente admitidas.
A mesma instância que se sucumbirmos ao prazer de fazer algo por ela não admitido, será a “voz da consciência” que nos punirá com censuras e remorso pelo ato.
Poderíamos então com certa precisão afirmar que neste sujeito na formação dessa estrutura super-egoíca algo falhou e que essa falha nos remeteria a um relaxamento de um código moral das figuras parentais, com grande destaque à figura desse pai.
Freud afirma que:
“O superego é para nós o representante de todas as restrições morais, o advogado de um esforço tendente a perfeição e em resumo, tudo o que podemos captar psicologicamente daquilo que é catalogado como o aspecto mais elevado da vida do homem”. Como remonta a influência dos pais, educadores, aprendemos mais seu significado se nos voltarmos para aqueles que são sua origem. Via de regra, os pais, e as autoridades análogas a eles, seguimos preceitos de seus próprios superegos ao educar as crianças.[1]
Após tais considerações, não seria talvez que devêssemos essa conversa com o final do livro de Saramago, o Evangelho Segundo Jesus Cristo, encerrar:
“Homens, perdoai-lhe, porque ele não sabe o que fez.”
Sentença cujos termos, com mesmo sentido podemos reescrever:
Perdoai o pai, porque ele não sabe o que fez!
[1] Freud, S. (1932-1936), Novas Conferências Introdutórias Sobre Psicanálise- A Dissecção da personalidade psíquica – Conferência XXXI, Edição standard das obras completas de Sigmund Freud. Rio de Janeiro, 1976, Imago editora, v.XXII, p.86