Pollyana – por Rosana Serena

Nunca em tantos anos a ouvira dizer que algo lhe ia mal. Vive feliz e saltitante sem que esse ritmo ela nunca perca.

Se briga com alguém, diz que foi melhor acabar assim com uma falsa amizade,  e por isso está contente!

Se um filho seriamente adoece, diz que poderia ter sido muito pior, e por isso está contente!

Se o emprego ela perde, diz que mesmo assim perdendo muita coisa, isto é bom, pois agora pode descansar e por isso está contente!

Se lhe morre um ser querido diz que foram bons os anos de convívio, e por isso está contente!

Se os problemas se acumulam em acontecimentos desastrosos ela diz animadamente, que isso é vida, e por isso está contente!

Sua própria doença ela encara muito bem, pois diz que é bem tratável e por isso está contente.

Pollyana é um romance de Eleanor H. Poter, publicado em 1.913, um clássico da literatura infanto-juvenil, a tradução é de Monteiro Lobato com seu lançamento em 1934, no Brasil.

Pollyana nos ensina o “jogo do contente” que consiste em procurar em tudo o que há e o que acontece, alguma coisa que nos faça contentes. Ensina que na pior das adversidades você pode encontrar alguma coisa, qualquer coisa que a faça boa, mesmo que seja o de não ter sido o pior ainda mais.

Com nossa Pollyana sempre assim vai tudo bem, e parece ter aprendido com outra jogar. De alguma forma, entretanto essa negociação consigo mesma não funciona muito bem, pois que esta nossa personagem é portadora de uma séria e severa doença auto-imune, que podemos situar no campo das doenças psicossomáticas.

“Existe uma personalidade psicossomática, o doente não é um neurótico e nem um psicótico e nem perverso, é alguém que funciona de uma maneira particular, ele é desligado de seu inconsciente e seus afetos se traduzem em acting in corporal energia pulsional indiferenciada se desencadeado sobre o corpo e lesando órgãos.” [1]

“A doença psicossomática é a expressão de uma tentativa de hiperadaptabilidade.” [2]

Há algo nesse “jogo do contente” que de racionalização em racionalização, não parece funcionar, pois é certo que impede alguma coisa,  se anunciar!

E nesse “jogo do contente”, não nos vale à pena apostar, pois há algo aí bem fixado, que não está metonimicamente[3] a deslizar.

E desse imaginário assim posto, tão concreto no real, a metaforização[4] não se permite, tornando assim impossível o real se simbolizar, deixando a nossa querida saltitante Pollyana a mercê de seu trágico destino.

Querida Pollyana, eu te quero tanto bem, mas não paro de pensar que destino tão cruel estar assim alienada de seu próprio inconsciente!

 

 

 


[1] Streleski, P. – A assinatura o fenômeno psicossomático – O sintoma charlatão. Campo Freudiano no Brasil: Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro 1998 – p. 175

[2] Streleski, P. – A assinatura do fenômeno psicossomático – O sintoma charlatão – Campo Freudiano no Brasil: Jorge Zahar Editor – Rio de Janeiro 1998 – p. 176

[3]  [4] Metáfora e Metonímia são duas figuras de linguagem. Lacan foi quem introduziu os conceitos em psicanálise. Para ele o inconsciente tem uma estrutura de linguagem e os significantes são os elementos que articulados em um encadeamento são chamados de cadeia significante.Metonímia é o puro deslizamento de significante.Metáfora é uma justaposição de significante e através desses processos é que se torna possível interpretar o inconsciente.

 

 

3 Comentários

  1. Roberta
    maio 7, 2014

    Um texto mais lindo que o outro! Orgulho!!

  2. sandra
    maio 20, 2014

    Conheço uma Pollyana na minha vida,realmente ela está sempre feliz e saltitante. Adoro seus textos,sempre identifico alguém. Como fico orgulhosa em ler,e pensar.
    bjosss

  3. seo fiverr
    abr 8, 2016

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