Quem é o Sujeito da Ciência Humana- por Rosana Serena
Ensaio II
A nossa sociedade se organiza sob a repressão das pulsões, e o resultado disso além da neurose é um mal estar em nossa civilização. A falsa moral (moral dominante) não e a causa do recalque e sim mais uma defesa contra a demanda pulsional, ética em nome da qual se age,construindo uma educação voltada para a repressão da sexualidade principalmente a infantil, pela coibição e ação corretiva culminada pela punição até mesmo do que a criança fala de si mesma. O acirramento do recalque é o resultado obtido, pois sabemos que o que não pode ser falado não pode ser simbolizado, mantém sua força se potencializa retomando como sintoma numa substituição significante. De qualquer modo, a sociedade em seu conjunto se empenha fortemente em manter a repressão em nome da suposta harmonia e equilíbrio social e, nesta tarefa o que se fortalece é a estrutura super-egóica, o centro de produção de sintomas. O sintoma como efeito de recalcamento surge quando o eu faz oposição a representação pulsional e a obriga a aceitar uma forma transformada de uma realização de tais desejos inconscientes, O sintoma assim expresso se constitui num compromisso de acordo entre as forças em ação. E é no desmantelamento da unidade imaginaria que o eu constitui que o sujeito encontra o material significante de seu sintoma que esta na ordem da linguagem. Inquestionável, sob qualquer aspecto, a aplicação pratica da psicanálise, ou seja, de que pela transferência se chegue à redução do sintoma (por acréscimo) e como objetivo, pelo desvelamento do fantasma que o recebe, a uma mudança de posição subjetiva e assim obtenha sua vitoria sobre a neurose e. Importante grifar que o sintoma vem dizer do sujeito os significantes que o constituíram e, portanto de seu desejo. O desejo humano isso que a psicanálise nunca deixou de investigar edifica o mundo de relações que temos por nossa realidade e este fato a psicanálise a constituir-se em estudo da realidade humana. Contudo dada a prevalência da prática terapêutica que comporta seria correto pensar que acabou por reduzir-se a extensão de tal contribuição aos consultórios de analistas, pois como afirmam alguns, a psicanálise como método de investigação da realidade ficou atrelada a sua técnica.
A primeira palavra de Lacan é para dizer que em princípio Freud fundou uma ciência. Entanto ciência é ciência de um objeto próprio; o inconsciente; ela e também ciência porque possui uma teoria e um método próprio que permitem o conhecimento transformação de seu objeto em uma prática específica. Como cm qualquer ciência autenticamente constituída a prática é uma resultante da interação dessas três condições epistemológicas básicas. A prática analítica não poderia encerrar os segredos da psicanálise, ela detém somente uma parte da sua realidade, aquela que existe na prática. Apenas a teoria os encerra em si como em qualquer outra disciplina científica e precisamos nos dirigir à psicanálise buscar e aprender nela a teoria da qual. todo resto compreende direito, pois sê ela permitia compreensão da realidade humana.
Não preexiste sujeito ao recalcamento, ele “advém conto sujeito no momento em que possa a representá-la”. O recalque originário que fundo o inconsciente é um conceito freudiano que Lacan escreve pondo barra sobre o sujeito, e, portanto só há um sujeito do qual podemos falar, sujeito barrado, sujeito do inconsciente, sujeito emergido a partir dos significantes mestres que o constituíram e passam a representá-lo. A verdade do sujeito, só é possível entender a partir das formações do inconsciente: sonhos, chistes, atos falhos, sintomas. Assim sendo a ação, pode ser entendido como todo sujeito do inconsciente, então toda ação humana, deve ser entendida também como uma manifestação do inconsciente, então toda ação humana, deve ser entendida também como uma manifestação do inconsciente vale dizer seu sintoma. ”Tratar os fatos como sintoma Freud e fez revolucionariamente diz Lacan no seminário inédito de um discurso que não seria fingimento, e então sob o peso de tais considerações, mesmo no campo das ciências sociais, não é mais possível mesmo que se queira deixar impactar-se pela revelação da descoberta freudiana.
Ao descobrir o inconsciente Freud não tocou apenas neste ou naquele ponto da filosofia idealista do sujeito pensante, vigente naquela época, mas no conjunto do projeto filosófico. Tratava-se de uma filosofia apegada à certeza absoluta, princípios intangíveis e a verdade total e acabada tido sob o pretexto de salvaguardar a pureza do sujeito consciente. A consciência partir de tal descoberta já não e mais o lugar da verdade. O homem já não é mais aquele que se crê, certo de si mesmo para alem da duvida metódica. A consciência perde seu estatuto de verdade elevado universalidade da razão. Nasce um novo problema, o da mentira. No entanto não podemos reduzir essa critica a filosofia idealista do sujeito pensante, símbolo da identificação do homem como a consciência de si, a uma questão puramente filosófica estranha a existência das ciências humana e as suas questões próprias de epistemologia.
As ciências humanas nascem efetivamente da deposição do sujeito. pensante e os fenômenos humanos tornaram-se objeto exclusivo tais ciências. As ciências ditas humanas vieram colocar o seguinte problema: “O que podemos saber sobre a realidade humana? A realidade humana pode ser apreendida em sua produção, em seus efeitos, todavia não podemos compreender a ação humana a partir dela mesma. O modo de apreensão ó indireto a partir da discursividade do sujeito. E então que caminho seria esse que permitiria a um sujeito interpenetrar os efeitos (pela ação) e atingir sua causa (inconsciente) e afinal compreender a ação humana de um outro sujeito (objeto)? A questão epistemológica central atual das ciências humanas consiste em definirem seu método e seu objeto, ou seja, construir seu próprio modelo de inteligibilidade. Para alguns a questão meramente retórica, pois seria a Psicanálise o único modelo de inteligibilidade possível a ser seguido de modo que se introduza nesse campo do saber a verdade. Mas nós nos perguntamos sobre a possibilidade de tal empreendimento devido ao caráter particular da verdade do sujeito que pela via do significante pode ser articulado ao saber que o sujeito tem de si próprio e então tal verdade sempre surpreendera o sujeito.
E, sobretudo a partir desses questionamentos õ preciso perguntar quem e o sujeito da ciência?
O sujeito aquele que fala o lugar de toda enunciação. Ele não pode ser concebido como uma entidade única titular, mas como efeito de uma divisão que o constituiu. Apesar de terem se desenvolvido a partir da deposição da filosofia idealista, as ciências humanas cada vez mais perde de vista o humano, pois o sujeito só aparece como ausência. A distinção proposta por Lacam entre psicologia e psicanálise vem elucidar um pouco essa questão, segundo ele toda inserção de análise num sistema das ciências do consciente em reduzi-lo a uma psicologia, vale dizer a uma teoria do individuo. Quando a psicanálise, o que ela introduz uma teoria do sujeito, E então não ha mais saído, no campo das ciências humanas a psicanálise funciona como “contra ciência” no sentido de por em questão o saber de tais disciplinas, pois em que lugar vamos encontrar o sujeito em tais paragens? No lugar do morto, daquele que não fala se fala não pode ser ouvido, entanto tal esforço não considera seu inconsciente, ou pelo menos o inconsciente ao qual se refere não é o desvelado pela descoberta freudiana. O que vale dizer como compreender o homem sem o seu inconsciente e como fazer isso sem a ciência que o toma como seu objeto de estudo? Não há como avançar na compreensão do que de humano o homem tem sem a psicanálise, sem o risco de ai: se dissolver o humano e decretar seu assassinato. Por outro lado como a psicanálise poderia cumprir sua função crítica sem que ela mesma se dissolva na ideologia das relações sociais que caracterizam tais disciplinas?
Que alternativa teriam aqueles tantos que não pretendendo ser psicanalistas defrontam-se diariamente em seu exercício profissional com as ações do sujeito e as entendem como manifestação do inconsciente e que reconhecem ser a Psicanálise em seu caminhar o que pode permitir a compreensão de tais ações, sem, no entanto em tal disposição, não corromper, fragmentar ou desvirtuar a Psicanálise?
BIBLIOGRAFIA
1 MILLOT,Catherine. Freud o Anti Pedagogo. Zahar, Rio de Janeiro, 1987.
2 MILLER, Alan Jacques. Percurso de Lacan, uma introdução. Zahar, Rio de Janeiro, 1988.
3 JAPIASSÚ, Hilton. Nascimento e Morte das Ciências Humanas, Francisco Alves, Rio de Janeiro, 1982
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