Santiago- por Rosana Serena
O documentário
Um documentário classificado na teoria como performático de João Moreira Salles, impressiona!Correto e de qualidade do ponto de vista de estética própria de um documentário, impressiona muito mais pela história que revela. Contundente, comovente a história de um homem erudito que passa sua vida a servir uma família.
Santiago é o nome do filme e do personagem. Este poliglota que falava e escrevia em seis línguas era um erudito, que rezava em latim e tocava Beethoven ao piano solenemente vestido de fraque. Fascinado pela nobreza e suas histórias e conspirações de corte pesquisava e escrevia com a qualidade literária suas impressões que foram registradas em mais de trinta mil páginas.
Santiago Badariotti Merlo (1912-1994), argentino de origem espanhola viajado e refinadíssimo, põem toda sua alma a serviço da tradicional e rica família Moreira Sales a quem serviu por mais de 30 anos.
João Moreira Salles o realizador do documentário colhe as imagens do antigo mordomo de sua família em 1992, mas retoma e finaliza o projeto apenas treze anos depois, em 2005, que é apresentado ao público pela primeira vez em 24 de agosto de 2007.
O documentário mostra Santiago já aposentado em sua vida solitária em seu pequeno apartamento do Leblon, com ainda muito viva sua paixão por vidas e dramas de nobrezas e dinastias de todo o mundo. Solene, empertigado o personagem se esforça como verdadeiro artista submisso ao diretor que exerce sobre ele uma autoridade imperiosa, e com isso esconde nosso homem e sua passionalidade, por trás do personagem.
O filme é diacrônico, vemos Santiago hoje em seu pequeno apartamento e sua relação com o passado na casa vazia, onde em servidão absoluta ele foi mordomo de uma família. As cenas entre presente e passado parecem querer fazer uma ponte entre Santiago e a mansão dos Sales, ponte que não se constrói na medida em que Santiago é o que se destaca como uma personalidade extraordinariamente interessante. Um personagem de sua própria história que viveu em um universo paralelo criado pela sua prodigiosa intelectualidade. Viveu intensamente na vida de seus biografados, artistas, reis, rainhas e grandes personalidades.
Observava-se que com sua prodigiosa capacidade artística e intelectual ele poderia ter trilhado qualquer um desses caminhos com certo sucesso e elegância, e, no entanto põe toda sua competência a serviço de uma posição de servidão no sentido real da situação em que se põe como um eficiente mordomo.
Durante os dias de filmagens ele não consegue sair de tal posição, tenta servir “Joãozinho” como sempre fez. Dele mesmo e sua própria história de vida, nada se fala e não se mostra e, portanto pouco podemos dele saber, a não ser de sua clara posição tomada na vida.
João Moreira Salles insere em seu documentário uma cena de um filme de Iasujiro Ozu, um diálogo entre duas mulheres, em que uma pergunta a outra se a vida é uma decepção. A mesma pergunta feita a Santiago pelo diretor, ele responde com afirmação positiva e talvez por esta razão ele tivesse criado um universo imaginário onde convivia e conversava com reis e rainhas e de certa forma tornava-se tão importante quanto achava que eles eram.
Santiago uma única vez inventou uma confidência onde talvez de se revelasse algo de si, mas rechaçada a sua intenção e intimidado pela posição de “Joãozinho o filho do patrão”, ele recua até sua zona de segurança emocional e se dissipa como sujeito em sua posição de escravo.
Comovente, pungente a história de um homem intenso e passional que escolheu ser a sombra de si mesmo projetada em histórias de outras vidas!
A metáfora do senhor e do escravo em Hegel – desejo-
A metáfora do senhor e do escravo aparece na obra Fenomelogia do Espírito de 1807 do filósofo alemão Hegel. Ele traz uma sempre presente preocupação coma questão do sujeito e objeto para a ciência ressaltando que para ele filosofia equivale à ciência.
O que se segue é um resumo do trabalho de Marcio Gomes de Paula: A dialética do Senhor e do Escravo em Hegel e sua repercussão no marxismo e na psicanálise lacaniana.[1]
Há uma dupla face na fenomenologia a primeira é histórica, isto é, a ciência da experiência da consciência sempre ocorre numa determinada cultura e mesmo que ressaltemos a importância da subjetividade isso não pode ser negado. A segunda face é dialética, isto é, não se trata que de algo cronológico, mas sem algo que obedeceu a uma lógica que conduz ao momento fundador da ciência, ou seja, ao saber absoluto.
A fenomenologia possui três significações fundamentais. A primeira é filosófica, isto é, ela questiona o que significa para a consciência experimentar-se e se a mesma e caminhar rumo à ciência. Já a segunda significação é a cultural, isto é, a consciência vive num determinado contexto e época. Já a terceira significação é histórica, ou seja, a consciência do indivíduo e da cultura caminha para uma ciência da história. Desse modo, somente a partir de tais cruzamentos podemos compreender a dialética do senhor e do escravo.
Hegel recupera para o sujeito a condição de fenômeno, que Kant havia colocado nos objetos. O problema aqui colocado é como o sujeito (subjetivo) pode pensar o objeto (objetivo) como é possível submeter à verdade do objeto à verdade do sujeito? Somente com a resposta para tais questões pode chegar a um saber absoluto.
Os três primeiros capítulos da Fenomenologia partem do sujeito cognoscente em nível elementar. O primeiro tipo de conhecimento elucidado aqui é a certeza sensível que, posteriormente caminha para algo denominado como supra-sensível. Por certeza sensível podemos entender aqui o conhecimento primeiro que a consciência faz do mundo, isto é, o conhecimento empírico. O segundo tipo de conhecimento do sujeito é denominado por Hegel de consciência de si. Por consciência de si podemos compreender a consciência que ultrapassou a esfera do senso comum e do empírico e se descobre enquanto tal. Há aqui um movimento dialítico.
Diferentemente de Fitche e de Descartes, que preconizavam uma primazia do sujeito, quer na teoria do cogito quer seja na teoria do eu = eu, Hegel tentará conciliar o mundo sensível (sentido por cada indivíduo) como o mundo da percepção (sentido pelo outro) tal coisa traria a unidade da consciência consigo mesmo. A consciência de um objeto se daria sempre a partir de si e isso seria a mola propulsora do desejo e da vida. Um ponto de destaque na Fenomenologia é o desejo. No entender heligiano, todo homem precisa conciliar sua vida natural com a história. Dessa junção de coisas, nasce segundo ele, a consciência de si. O eu que deseja, realiza sempre uma duplicação da consciência de si. Trata-se de um processo de reconhecimento do outro. Para Hegel, a passagem para a ciência implica num avanço da consciência de si para o espírito. Assim sendo, é aqui que se insere a dialética do senhor e do escravo na obra hegeliana, isto é, na passagem da dialética do reconhecimento.
Márcio nos informa que no capítulo quarto da primeira parte da Fenomenologia, Hegel tratará da consciência de si, num capítulo intitulado A Verdade da Certeza de Si Mesmo. A seguir, ele elenca afirmações contidas nos parágrafos de 178 a196 do capítulo quarto da primeira parte da Fenomenologia do item A intitulada, Independência e Dependência da Consciência de Si Dominação e Escravidão. Aqui destacaremos da 189 em diante, onde está referida a questão do Senhor e do Escravo.
1) 189 – A consciência de si imediata equivale a um eu simples. Segundo Hegel, tal coisa não se sustenta mais aqui. O senhor aparece aqui como a vida e o escravo como o ser para o outro, isto é, como coisa.
2) 190 – O senhor é para si. O escravo é um elo entre o senhor e o objeto de desejo, ou seja, ele é uma coisa, um gozo senhorial.
3) 191- O agir do escravo é desprovido de essência. Trata-se de pura negação. Seu reconhecimento é unilateral e desigual, visto que somente ele reconhece o seu senhor.
4) 192 – A consciência sem essência do escravo se afirma como verdade do seu senhor.
5) 193 – A consciência independentemente (do senhor) também se configura como consciência escrava.
6) 194 – A consciência escrava tem com consciência o seu senhor e teme pelo que ele pode lhe fazer.
7) 195 – O positivo: o escravo não tem um ser para si, mas encontra-se no trabalho. O trabalho é o seu desejo reprimido. O senhor entra em crise.
8) 196 – O negativo – o ser para si do escravo é o medo e a angústia (medo opressor).
O autor do artigo refere-se ainda Alexandre Kojève em sua obra Introdução a Leitura de Hegel e destaca a sua visão acerca da metáfora do senhor e do escravo, cuja citação ele destaca:
“O homem só atinge autonomia verdadeira, a liberdade autêntica, depois de ter passado pela sujeição, depois de haver superado a angústia da morte pelo trabalho efetuado a serviço de outro” [2]·.
O autor ainda destaca outro intérprete da filosofia hegeliana, o francês Jean Hyppolite e sua obra de 1946 Gênese e Estrutura da Fenomenologia do Espírito em Hegel, cuja citação segue:
“Com efeito, o escravo não é propriamente escravo do senhor, mas da vida, é escravo porque recuou diante da morte, preferiu a servidão à liberdade na morte, portanto é menos escravo do senhor do que na vida” [3].
Lacan reconhece a importância da obra hegeliana para a compreensão da metáfora, do senhor e do escravo, mas vai mais adiante, pois para ele Hegel fica no nível imaginário onde o desejo aparece como um reconhecimento de um outro, contrariado a máxima lacaniana de que o desejo e o desejo do Outro?[4]
A metáfora do senhor e do escravo – desejo em Lacan –
Na parte I do Seminário da Angustia Lacan pontua claramente diferenciando a noção de desejo em Hegel e em sua própria teoria:
“Com certeza se existe alguém que não é injusto quanto ao que introduziu a Fenomenologia do Espírito, sou eu mesmo. Mas há um ponto que é importante assinalar o progresso, para empregar esse termo-eu gostaria ainda mais de dizer “o salto” que nos caracteriza em relação a Hegel é justamente o que concerne à função do desejo.[5]”
Lacan segue afirmando que em Hegel o Outro é aquele que me vê[6] e para ele Lacan, “o Outro é como lugar do significante” [7]. Um pouco mais adiante nos afirma “desejo é desejo na medida em que sua imagem suporte é equivalente ao desejo do Outro”.
Ou seja, o que concerne ao desejo seu estatuto é ser inconsciente e marcado pela falta que põe em movimento de busca de preenchimento e que determina as ações do sujeito, mesmo que dele, ele nada saiba.
Lacan atribui à dialética do Senhor e do Escravo importância para aprofundamento dos conceitos de desejo e angústia e na clinica em particular para descrever a neurose obsessiva.
Vamos seguir com Lacan o percurso sobre o desejo no Seminário da (31 a 37).
1) O desejo do homem é o desejo do Outro.
2) O fantasma é o suporte do desejo.
3) O Outro é o lugar do significante.
4) O desejo de desejo no sentido lacaniano é o desejo do Outro.
5) O desejo aqui é o desejo, enquanto imagem suporte desse desejo, relação, pois, de d (a) ao que escrevi ao que não hesitarei escrever i (a).
6) É o fantasma que não hesito em recobrir por essa conotação de imagem espetacular.
7) Esse desejo é o desejo é desejo enquanto sua imagem suporte é equivalente do desejo do Outro.
8) O Outro conotado A porque é o Outro no ponto em que se caracteriza como falta.
9) Nos sujeitos do inconsciente, nossa falta pode ser desejo, desejo acabado, na aparência indefinida, porque a falta participando sempre de algum vazio, pode ser preenchida de várias maneiras, ainda que saibamos muito bem, porque somos analistas, que não a preenchermos de trinta e seis maneiras.
10) Com relação a esse Outro, dependendo desse Outro, o sujeito se inscreve como um quociente, ele é marcado pelo traço unário do significante no campo do Outro.
11) Há um resto, no sentido da divisão, um resíduo, é o a.
12) Esse resto, esse outro último, esse irracional, essa prova e única garantia, da alteridade do Outro.
Para Lacan o que está em questão não são a servidão e liberdade, mas o reconhecimento da assujeição ao desejo do Outro, a dependência do meu desejo ao desejante que é o Outro, cujos significantes me fundaram entanto sujeito e o qual eu respondo com a construção de um fantasma como suporte do meu desejo, para responder a uma falta em A.
O desejo no neurótico obsessivo – o desejo impossível –
A difícil relação de um obsessivo com seu desejo é o que trata o artigo de Alexandre Mendes de Almeida, intitulado: O Desejo no Neurótico Obsessivo.[8]
1) O inconsciente no obsessivo se manifesta claramente de maneira verbal.
2) O obsessivo vive uma fantasia de onipotência, ele tem o “dom” de supervalorizar seus pensamentos e sentimentos, sejam eles bons ou maus.
3) Na sua vida psíquica, isso lhe é possível (supervalorizar seus pensamentos) ao mesmo tempo em que ele desconfia dessa possibilidade.
4) O antagonismo no pensar e essa supervalorização de si, ao mesmo tempo em que dificulta suas relações, o mantém longe da realidade de seu desejo.
5) Freud busca destacar a origem da neurose obsessiva no Complexo de Édipo. Neste sentido destaca o conflito de sentimentos de amor e ódio.
6) O primeiro conflito remete a situação da escolha de objeto de amor.
7) O segundo conflito, o amor inicial antes da escolha objetal, passa a ser percebido como ódio, uma vez que o desejo insatisfeito converte-se, em parte, em ódio.
8) O amor e o ódio, no caso do obsessivo, num grau elevado de intensidade, mantêm-se em relação a uma mesma pessoa.
9) Uma luta de titãs em que não há vencedor. Resta o cansaço do obsessivo em buscar equilibrar esses sentimentos opostos.
10) O ódio recalcado no inconsciente está protegido e não pode ser vencido. O amor por sua vez, busca manter o ódio suficientemente recalcado.
11) Essa oposição de sentimentos de forças equivalentes desemboca nas conseqüências imediatas na vida do obsessivo, numa paralisia parcial da vontade e incapacidade para decisões em que estão envolvidos objetos de amor e desejo.
12) Essa incapacidade para decidir vai abraçar quase toda a vida do obsessivo.
13) Os sintomas da dúvida e da compulsão estão sempre presentes.
14) A busca de um constante regramento de uma vida ortodoxa a partir de medidas protetoras é o reverso de sua constante condição de dúvida, dúvida esta que remota ao que deveria ser mais certo: seu próprio amor.
15) O obsessivo pensa mais do que age, o pensar do obsessivo substitui o agir e o processo que inicialmente parece satisfatório acaba voltando-se contra ele e o seu pensar.
16) A vida passa, e o obsessivo imerso no seu mundo de dúvida sabe que o agir é necessário, o mundo externo a sua volta precisa, ser modificado e seu pensamento onipotente tornam-se impotente quanto a isso.
17) O obsessivo no seu caminho de tornar o desejo impossível goza na sua complicada forma de pensar.
18) Uma característica do obsessivo é a motivação a partir de desafios. No obsessivo, manifestam-se uma verdadeira compulsão as diferentes formas de competição.
19) No desafio, o obsessivo, revive a possibilidade de rivalizar-se com o Outro que lhe dita à lei e que lhe demonstra a castração.
20) O obsessivo vê no desafio, a possibilidade de responder ao o Outro, presumido imaginariamente na figura paterna que lhe interdita a mãe. “Este é o teu desejo, quanto a mim recuso essa limitação do meu”. (Paris, V, 2005 pag. 385).
21) O obsessivo busca o que consegue o perverso, o gozo, mas a lei é nele radicalmente marcada, o que lhe impossibilita o gozo.
22) Além do significante, há o objeto a que não é simbolizável e Lacan estabelecerá à relação do objeto a com o gozo.
23) Na sua posição de dúvida permanente mostra que seu sintoma de compulsão busca evitar aquele que lhe é seu, como resto de sua sujeição ao Outro.
24) No obsessivo, cuja fantasia está presa a fase anal, o objeto causa do desejo é o excremento em que é expelido cedido à mãe.
25) Esse objeto ao mesmo tempo em que se apresenta como dádiva a ser concedida tem a forma que lhe é anterior de dejeto, de algo ligado a necessidade de ser expelido.
26) O excremento, objeto causa de desejo no obsessivo, então é visto como parte sua – castrada, mas oferece a pessoa amada, sendo que por outro lado não seria parte sua uma vez que se trata de algo ruim que é preciso ser expelido.
27) Lacan aponta o objeto a delineando a estrutura obsessiva onde predomina a ambivalência desse sim e não, é de mim sintoma, mas, todavia não é de mim.
28) O obsessivo preocupa-se com sua imagem, pois é a partir desta que ele conseguirá se posicionar de forma a atender a demanda do Outro.
29) Lacan coloca a partir do Mito Individual do Neurótico um quarto elemento a se acrescentar na leitura do complexo de Édipo, que seria a morte.
30) Morte esta que estaria presente na constituição do eu a partir de uma imagem antecipada pelo Outro.
31) Morte que na vida psíquica do neurótico obsessivo lhe remete à principal questão: “Estou vivo ou estou morto”?
32) O neurótico obsessivo evita o seu desejo, e a partir dessa evitação, o sujeito se posiciona numa dimensão de ator que lhe permite desempenhar no drama de sua vida, alguns personagens como se estivesse morto. (Lacan, J. (1956-1957) 1995).
33) O obsessivo tem a tendência de procrastinar de renunciar a vida, de se fazer de morto. Ele aguarda o momento em que ocupará a posição do senhor.
34) O obsessivo anseia e aguarda a morte do mestre, sem perceber que na realidade ela já ocorreu – o pai que age e fissura a relação una mãe/ criança – é simbólico e como tal esta morto. Nesta posição de escravo de um senhor morto, o obsessivo se imobiliza.
35) Neste jogo, a agressividade e o ímpeto de destruição revertem-se ao próprio sujeito.
36) Para Lacan a relação mortal do obsessivo consigo, reflete a angústia diante do Outro. (Lacan, J. (1962-1963)2004), face a isso ele se faz de morto diante do objeto de seu gozo para fugir a suposta cólera do Senhor.
37) Neste sentido, nada do que acontece tem verdadeira importância para o obsessivo.
Concluindo:
O sujeito obsessivo é aquele que recebeu um investimento particularmente intenso como objeto do desejo de sua mãe. Ele se vê aprisionado a uma situação de satisfação ao desejo da mãe como objeto capaz de satisfazer plenamente este desejo. Ele será aquele que tudo fará em busca de manter sua posição fantasmática,ser absoluto, tal posição o levará a uma atitude de servidão, servir ao outro servindo ao Outro!…
Na relação com o outro, o obsessivo se propõe a oferecer o atendimento de todas as suas necessidades para que a esse outro nada falte, pois a confrontação com essa falta no outro o poria em relação direta com sua própria falta. O obsessivo nesta forma de servir incansavelmente ao outro, neste serviçalismo ilimitado tenta anular o desejo neste outro na medida em que procura reduzir o desejo a uma necessidade, pois é certo que se do outro houver demanda, esta o colocará em risco, risco de ter que se confrontar com sua própria castração e perder seu status fálico.
Mas lei a do pai, sua intrusão e corte na relação da criança com a mãe, já se instaurou e lhe mostra a impossibilidade de seu desejo de ser absoluto, desejo impossível de ser concretizado, pois ser o objeto que satisfaça plenamente o desejo da mãe implica na morte e destruição do pai, morte esperada e impossível, porque este pai é simbólico e como tal, comporta sua ubiquidade. Será uma luta interminável em que para anular a lei ele tentará fazer desaparecer ao Senhor, e paradoxalmente buscará que o Senhor não deixe de ocupar sua posição, pois com seu desaparecimento ele mesmo se dissiparia como sujeito desejante.
Ele espera a morte do pai, daí sua culpa infindável, para ocupar o seu lugar de Senhor e como tal é impossível, ele não conseguirá ascender à posição de Senhor e estará condenado a se manter na sua posição de servo.
Luta invencível, mas que fará o obsessivo recuar a uma posição de gozo protegido onde como escravo ele se faz de morto diante de seu gozo censurado à mãe, para fugir ao castigo do senhor.
Santiago, o mordomo, aquele que vemos, literalmente na posição de servo…
Santiago, o sujeito, aquele que não vemos, e do qual nada ficamos sabendo no documentário, só aparece se escondendo como personagem de sua própria história de vida, e acaba por esse fato revelando mais do que quer…
Seu servilismo exagerado em anos de dedicação exclusiva e corretíssima à vida de outros… Servindo ao Outro…
Sua posição marginal à própria vida…
Sua vida vivida em histórias de outros…
Sua exacerbada intelectualidade…
Sua intensidade verbal…
Sua prodigiosa e inútil obra literária…
Sua posição de servo, reconfirmada diante de Joãozinho, o sempre filho do patrão…
Escondendo o mais que pode, corroborado por um “senhor” que dirige a cena, Santiago acaba por mostrar a sua própria subjetividade.
Sentido literal da servidão, “ser um mordomo”, selando seu destino de ser um mordomo que virou documentário.
Agora, talvez possamos vislumbrar o homem por detrás do documentário…
…Tão somente e apenas vislumbrar quando se fala do humano.
[1] www.psicanaliseebarroco.pro.br/revista/revistas/15/, julho 2010.
[2] KOJÈVE, A. Introdução à leitura de Hegel. 1ª edição Rio de Janeiro: editora Contraponto, 2002, pg.29
[3] HYPPOLITE, J. Gênese e estrutura da Fenomenologia do espírito de Hegel. 19 ed. São Paulo: Discurso Editorial, 1999, pg. 188
[4] LACAN, J., (1962-1963) “O seminário – livro X – A angústia “, Jorge Jahar editor, Rio de Janeiro: 2005,pg.31
[5] LACAN, J., (1962-1963) “O seminário – livro X – A angústia “, Jorge Jahar editor, Rio de Janeiro: 2005,pg.32
[6] LACAN, J., (1962-1963) “O seminário – livro X – A angústia “, Jorge Jahar editor, Rio de Janeiro: 2005,pg.33
[7] LACAN, J., (1962-1963) “O seminário – livro X – A angústia “, Jorge Jahar editor, Rio de Janeiro: 2005,pg.35
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