O Sintoma Social – por Rosana Serena

Ensaio III A nossa sociedade se organiza sob a repressão da pulsão. A moral dominante, não é a causa do recalque e, sim, mais defesa contra a demanda pulsional, ética em nome da qual se age construindo uma educação voltada para a repressão da sexua1idade. O acirramento do recalque é o resu1do obtido, pois desde aí, o que não pode ser simbolizado, mantém força, de certa forma se potencializa e retorna como sintoma, numa substituição significante. A sociedade em seu conjunto se empenha fortemente em manter a repressão em nome da suposta harmonia, equilíbrio social e, nesta tarefa, o que se fortalece é a estrutura super-egóica, o centro de produção do sistema. O sintoma, ‘ efeito do recalcamento, surge quando o eu faz oposição valorativa à...

Disjunções no Discurso – por Rosana Serena

Com Freud e Lacan podemos dizer que o “bem estar” do sujeito nem sempre está onde está seu desejo. Que este, o desejo, se apresenta para o sujeito como um estranho, em nome do qual o sujeito age, mesmo que nada saiba sobre isso. E, é nesse sentido que a psicanálise é subversiva porque ela não busca o bem comum.O único bem que interessa à psicanálise é que o sujeito tenha acesso a sua verdade inconsciente. Em uma análise, há somente um interlocutor, o sujeito do inconsciente. Não é possível estabelecer regras de leitura e interpretação do inconsciente para se dominar o discurso. O inconsciente é construído na história própria de cada um, portando signos e representações que são particulares a cada um. Se o sujeito quiser saber da sua...

Canção do exílio – Gonçalves Dias

Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá; As aves, que aqui gorjeiam, Não gorjeiam como lá. Nosso céu tem mais estrelas, Nossas várzeas têm mais flores, Nossos bosques têm mais vida, Nossa vida mais amores. Em cismar, sozinho, à noite, Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Minha terra tem primores, Que tais não encontro eu cá; Em cismar — sozinho, à noite — Mais prazer encontro eu lá; Minha terra tem palmeiras, Onde canta o Sabiá. Não permita Deus que eu morra, Sem que eu volte para lá; Sem que desfrute os primores Que não encontro por cá; Sem qu’inda aviste as palmeiras, Onde canta o Sabiá. Coimbra – julho 1843.

Canção do Tamoio – Gonçalves Dias

I Não chores, meu filho; Não chores, que a vida É luta renhida: Viver é lutar. A vida é combate, Que os fracos abate, Que os fortes, os bravos Só pode exaltar. II Um dia vivemos! O homem que é forte Não teme da morte; Só teme fugir; No arco que entesa Tem certa uma presa, Quer seja tapuia, Condor ou tapir. III O forte, o cobarde Seus feitos inveja De o ver na peleja Garboso e feroz; E os tímidos velhos Nos graves concelhos, Curvadas as frontes, Escutam-lhe a voz! IV Domina, se vive; Se morre, descansa Dos seus na lembrança, Na voz do porvir. Não cures da vida! Sê bravo, sê forte! Não fujas da morte, Que a morte há de vir! V E pois que és meu filho, Meus brios reveste; Tamoio nasceste, Valente serás. Sê duro guerreiro, Robusto, fragueiro, Brasão...

O Problema da Percepção Originária – (Texto base: A Dúvida de Cézanne – Merleau-Ponty) – por Jul Leardini

Quando Merleau-Ponty coloca a existência de uma percepção originária que já se constituiria numa criação, numa expressão, e que ao tentarmos expressá-la novamente, haveria duas expressividades em jogo, me acorre ao pensamento que, na realidade, nesse fenômeno, deve haver três expressividades em jogo e não apenas duas. Vamos tentar aqui mostrar o porquê. “Quando Cézanne pinta uma maçã, não pinta o exterior da maçã, pinta a maçã com sua carne, pinta seu diálogo com as outras maçãs, seu lugar na composição.” (1) Cézanne olhava para a paisagem e para os objetos e queria ver mais do que um homem condicionado pelo olhar morto vê. Ele queria ver o mundo, queria sentir o movimento das células, dos átomos, da vida em constante...