Ouvir Estrelas – Olavo Bilac
“Ora (direis) ouvir estrelas! Certo Perdeste o senso!” E eu vos direi, no entanto, Que, para ouvi-las, muita vez desperto E abro as janelas, pálido de espanto… E conversamos toda a noite, enquanto A via-láctea, como um pálio aberto, Cintila. E, ao vir do sol, saudoso e em pranto, Inda as procuro pelo céu deserto. Direis agora: “Tresloucado amigo! Que conversas com elas? Que sentido Tem o que dizem, quando estão contigo?” E eu vos direi: “Amai para entendê-las! Pois só quem ama pode ter ouvido Capaz de ouvir e de entender estrelas.” (Poesias, Via-Láctea, 1888.)
O maior ato de amor – por Rosana Serena
Recebo uma mensagem em forma de apelo desesperado. Ela perdia para doença aquele a quem tanto amava!… Havia passado horas intermináveis segurando aquelas mãos que dantes tão fortes foram! Nesse ato aflito tentava lhe segurar a vida! Essas mãos que entrelaçadas concretizavam diariamente um ato de amor intenso. Havia passado horas inconsoláveis lhe amparando os passos que dantes foram fortes e seguros. Horas incansáveis lhe buscando conforto não encontrado entre travesseiros macios. Foram horas terríveis escutando seus delicados gemidos que lhe traduziam a dor e sangravam seu coração. Nada na vida a havia preparado para isso! E ela vergava sob sua própria fraqueza e se envergonhava disso. Queria fugir, mas era preciso seguir adiante...
Menininha! – por Rosana Serena
E o que é que tinha vindo com aquela criança acontecer? Tão quieta ela era, que em um cantinho colocada não se via ela mexer. E quando assim fazia, de serem tão repetidos os sons e os gestos todos ficam sem entender. Seu lindo cabelinho, tão reto cortadinho, quase cobrira inteiramente aqueles olhinhos que em ninguém ela podia fixar. Porque é que com seus priminhos ela não se punha a brincar. E assim sempre tão sozinha estava a se isolar. E seus jovens pais tão assustados não podiam com ela se comunicar. Menina, menininha, porque é que você repete esses gestos tão estranhos sem nuca os poder parar. Menina, menininha, você que é tão lindinha o que está com você a se passar? E seus pais tão ansiosos esperavam sempre o sinal de uma evolução ver...
Nossos cadinhos!… – por Rosana Serena
Embevecido ele olha para aquele pequenino e tão magrinho, recém nascido serzinho, que de tão desgracioso chega a despertar certa ternura, pois que de fato da genética familiar ela era da mistura o bem pior. Mas ele, seu avô, em devaneios desvairados com um febril olhar azul delirante de emoção quase está a desfalecer. E lhe é tanta a comoção, que nas bordas do rico berçinho ele precisa firmemente se amparar. E com o sentimento, do mais profundo, repetidamente em voz alta ele diz sem com os outros se importar. – Minha linda princesa!… Com esta frase, estará assim assinalado para sempre o destino dessa bebezinha que de linda e princesa nada tem, mas com certeza ela terá bem cunhado no seu destino inconsciente esse ideal de...
Jasmine – por Rosana Serena
Pobre Jamine ricamente a se mostrar, nos mais nobres salões lindamente a rodopiar, e até seu nome próprio ela teve que idear! E das exigências sociais não queria se livrar e por isso teve que de sua família de origem se afastar. E era tanto o festar entre drinques e dançar que ela se sentia maravilhosamente se esgotar. Estava tão à sociedade venerar que nem sequer havia espaço para uma verdadeira família formar. E aquele seu marido cada vez mais ilicitamente a enricar. E era tanto o seu deslumbramento que nada disso parecia lhe importar. Sentia-se como uma grande dama a quem todos deviam reverenciar. Turvada pelo seu olhar à realidade a sua volta, a única que via era o centro, onde ela estava sempre a vicejar! Sua qualidade consistente era de com seus...
Maria das Dores – por Rosana Serena
Entre enjôos e mal-estares, ela sempre tinha uma outra coisa. Seu pai sem saber de teoria alguma a chamava legitimamente de Maria das Dores e tão pequena ela ainda era. Animada sempre era, mas entre vertigens e suas náuseas se lhe passou a adolescência, e seu pai ainda assim a lhe apelidar. Já mais moça muitas vezes não podia trabalhar, pois em crises de vertigens precisava se acamar, e seu pai sempre com seu apelido a lhe chamar. Mais velha, um tanto mais, começou a se assustar, pois se pôs a pensar que uma séria doença estava a lhe acompanhar. E até mesmo aos desconhecidos de suas dores estava sempre a reclamar. Já madura muito mais, foi aos médicos se consultar, mas nenhum deles lhe pode ajudar. Dentre os médicos consultados alguma coisa sempre...