Sou a agulha que passa e não a linha que fica – por Rosana Serena
“Sou agulha que passa e não a linha que fica”, que implicações tem essa frase que inúmeras vezes ouvi como uma lamúria? Ele era bonito, bem apessoado, incrivelmente bem composto em seus trajes irrepreensivelmente bem arrumados. Estava sempre à vanguarda dos acontecimentos intelectuais, pelo menos em pensamentos. Pensava muito! Sempre as voltas com grandes projetos. Vivia numa atividade mental incessante, como é toda dedicação ao trabalho dos workaholics. Mesmo seus momentos de lazer tendiam a obedecer à lógica da produtividade na medida em que os planejava metodicamente. Estava sempre em movimento frenético que o fazia estar em toda parte, mas era visível que não sentia pertencer a nenhuma, na medida em que se preparava sempre para o próprio...
O Fato Social como Sintoma – por Rosana Serena
Ensaio I A nossa sociedade se organiza sob a repressão das pulsões, e o resultado disso, além da neurose, é um mal estar em nossa civilização. A falsa moral não é a causa do recalque e sim, mais uma defesa contra a demanda pulsional, ética em nome da qual se age, construindo uma educação voltada para a repressão da sexualidade. O acirramento do recalque é o resultado obtido, pois o que aí não pode ser realizado, mantém sua força, se potencializa, retornando como sintoma numa substituição significante. A sociedade em seu conjunto se empenha em manter a repressão em nome da suposta harmonia e equilíbrio social, e nesta tarefa, o que se fortalece é a estrutura superegóica, o centro de organização de sintomas. O sintoma como efeito de...
A questão epistemológica da cientificidade atual – por Hilton Japiassú
Na visão ocidental da antiguidade, o mundo era entendido a partir de um esquema de um Cosmos organizado hierarquicamente no interior de um espaço fechado, pensamento este, traduzido pela síntese aristotélica O mundo formava um Cosmos físico e bem ordenado, criado e garantido por Deus. A terra ocupava o centro do Universo sendo o homem o centro e causa da criação divina. Ao homem cabia ser o expectador da criação divina e não lhe era dado o direito de intervir nas questões da natureza. Cabe à Renascença, enquanto movimento de revisão de uma época e não só movimento nas artes, o mérito de ter destruído essa síntese. Despojado das coisas em que acreditava, o homem acossado pela dúvida foi dominado pela credulidade. Porém a destruição da...
A Vida – por Henfil
Por muito tempo eu pensei que a minha vida fosse se tornar uma vida de verdade. Mas sempre havia um obstáculo no caminho, algo a ser ultrapassado antes de começar a viver, um trabalho não terminado, uma conta a ser paga. Aí sim, a vida de verdade começaria. Por fim, cheguei a conclusão de que esses obstáculos eram a minha vida de verdade. Essa perspectiva tem me ajudado a ver que não existe um caminho para a felicidade. A felicidade é o caminho! Assim, aproveite todos os momentos que você tem. E aproveite-os mais se você tem alguém especial para compartilhar, especial o suficiente para passar seu tempo; e lembre-se que o tempo não espera ninguém. Portanto, pare de esperar até que você termine a faculdade; até que você volte para a faculdade; até...
O que a gente permite! – por Rosana Serena
Ouço muito, estrondosamente rompendo o discurso das queixas diversas de problemas no relacionamento; alguém da pequena platéia de ouvintes interrompendo o queixoso com a seguinte interpelação: _ O outro só faz com a gente o que a gente permite! E eu, nem sempre silenciosamente, penso admoestando, de que serve essa popular e selvagem interpretação, dita assim tão abruptamente. Esse outro que sofre, sofrerá ainda mais ao ouvir externalizada a acusação que já se faz: _ Você permite! É sempre em um jogo amoroso que ele se vê assim, como que capturando nas redes subjetivas desse outro a quem ele ama fervorosamente. Por que se permite ser magoado? Por que está tão assim submetido aos desejos e vontades do outro? Porque acima de todos os porquês, sabe...
Florbela Espanca “A Mensageira das Violetas” – por Neno Lima Lima
Perdi meus fantásticos castelos Como névoa distante que se esfuma… Quis vencer, quis lutar, quis defendê-los: Quebrei as minhas lanças uma a uma! Perdi minhas galeras entre os gelos Que se afundaram sobre um mar de bruma… – Tantos escolhos! Quem podia vê-los? – Deitei-me ao mar e não salvei nenhuma! Perdi a minha taça, o meu anel, A minha cota de aço, o meu corcel, Perdi meu elmo de ouro e pedrarias… Sobem-me aos lábios súplicas estranhas… Sobre o meu coração pesam montanhas… Olho assombrada as minhas mãos vazias… Neno Lima Lima
Poema em Linha Reta – Fernando Pessoa (Álvaro de Campos)
Poema em linha reta – Fernando Pessoa (Álvaro de Campos) Nunca conheci quem tivesse levado porrada. Todos os meus conhecidos têm sido campeões em tudo. E eu, tantas vezes reles, tantas vezes porco, tantas vezes vil, Eu tantas vezes irrespondivelmente parasita, Indesculpavelmente sujo. Eu, que tantas vezes não tenho tido paciência para tomar banho, Eu, que tantas vezes tenho sido ridículo, absurdo, Que tenho enrolado os pés publicamente nos tapetes das etiquetas, Que tenho sido grotesco, mesquinho, submisso e arrogante, Que tenho sofrido enxovalhos e calado, Que quando não tenho calado, tenho sido mais ridículo ainda; Eu, que tenho sido cômico às criadas de hotel, Eu, que tenho sentido o piscar de olhos dos moços de fretes, Eu, que tenho feito...