Senhor ou servo? – por Rosana Serena

E ele a todos atendia sem sequer pestanejar e era um tal de dar e comprar e as contas dos outros acertar, que só de olhar dava para bem cansar. Um a um, todos pediam e se serviam sem sequer se envergonhar, e ele com seus agradecimentos nunca se cansava de se ver adular e já tantos outros novos pedidos se via essa gente rogar para seu novos favores conquistar. Mas de graça é que não era, sua graça oferecida, pois no alto desse monte ele estava como grande deus a se ver por todos venerar. E não fizessem o que ele quisesse para vê-lo alguns com sua força contra a parede se ver jogar, ou no fogo se ver atirar ou ao inferno se ver condenar. E parece que é ele quem manda e que é tudo como ele quer, mas acontece que nesse jogo não se sabe bem quem creditar,...

Não posso te amar! – por Rosana Serena

Você me chamou e eu fingi que não ouvi… Você me olhou e fingi que estava cega… Virei às costas e sua imagem e voz foram comigo… Fugi apressada de mim mesma, fugindo do meu amor por você ou certamente te verei novamente arrombando portas. Você está como sempre tão carente tão confuso e suplicante que novamente quase me volto para te pegar no colo, querendo acreditar que dessa vez possa ser diferente, mas… _ Não, não te verei novamente arrombando portas! Lembro-me que em seus momentos de alegria você se faz lindo e fulgurante, mas sei que sua raiva súbita de sua destemperança emocional irromperá repetidamente em nossa existência familiar e porá nossas vidas de ponta cabeça e, portanto… _ Não, não te verei novamente...

E o príncipe virou sapo – por Rosana Serena

De família nobre, de nobre alma e posição na vida, dentre eles, ele nasceu bonito e muito amado. Sempre foi o bom filho, o bom irmão. Amparo da mãe e da irmã, na ausência do pai foi sempre àquele com quem todos podem contar. Era um nobre rapaz e não tinha quem pudesse disso duvidar!… E no galope do seu lindo mustang branco ele veio a lhe encontrar nas mais lindas pradarias daquele lugar. E ainda montado em seu cavalo ele parou para lhe olhar, a ela que distraidamente estava a passear. Em nenhum sonho de menina ela tinha ousado sonhar, e ela não podia acreditar que ele estava seriamente a lhe cortejar. Uma aldeã e um príncipe parecia impossível se acreditar realizar. Mas impondo-a na corte, ele a fez aceitar, e ela julgou que o mais belo sonho de...

No castelo do marquês – por Rosana Serena

Ele era forte, ele era bonito e valente. E em seu castelo de marquês estava sempre o seu reino ferozmente dominar. Alto grande e majestoso com suas negras vestes medievais, ele é uma figura imponente que chega a impressionar! Lá de fora em seus portões, montando em seus fogosos cavalos puro-sangue de um lado a outro está a marchar, ele irá com arrebatados discursos tentar te enfeitiçar para dentro do castelo convencer você entrar. E nesse aparente lindo castelo e nessa fala tão insidiosa e ardente, não entre, pois as trevas você irá enfrentar e o seu próprio mau, você irá encontrar. É preciso que não se deixe o seu lado fantasiador te levar, pois a sua morte subjetiva você certamente irá encontrar. Lá dentro com a chibata em punho ele está...

Nosso senhor, do Glória – por Rosana Serena

Ele era um sábio, sem saber que era como são todos os sábios! Cientista de formação e médico por vocação! Não se considerava um corajoso, mas o era na medida em que, em um tempo de fechamento total, abriu os portões de uma muralha inexpugnável e deixou entrar os jovens revolucionários porta adentro. Teve a ousadia de nesse grupo incluir alguns que outros guerrilheiros, de guerrilhas intelectuais que haviam sido expulsos de seu país de origem. Humanista que era, sem saber do seu real valor, inovou a orientação do momento, como tratamento daqueles considerado doentes mentais, para a terapia medicamentosa usando seu conhecimento científico. Criou o que na época ele chamava “três por um”, um composto medicamentoso para acalmar os grandes surtos...

La belle… – por Rosana Serena

Misteriosos seres voadores existem borboletas de todos os matizes. As multicoloridas que barulhentamente batem suas asas alegremente enfeitando a paisagem. As azuis como o céu que se apresentam alegremente com a mesma placidez celestial. E há um espécime especial que se reveste de dourado e cujo leve farfalhar de suas asas a torna um ser quase etéreo. Há ainda as da noite que são assustadoras e revoam esbaforidas no entorno de qualquer luz, muitas vezes deparando-se com seu trágico final. Mas todas elas têm em comum o fato de serem borboletas que são mágicos seres voadores, que vão e vem no suave bater de suas asas. Todas elas com grande maestria desviam-se prontamente do perigo eminente num rápido bater de asas. Borboletas lhes chamei para assim bem...

Gravidade – por Rosana Serena

Ela não soube precisar bem como ou quando, mas houve um momento em que dissociou-se de si mesma. Passeava pela vida, despreocupadamente quando de súpto, partiu-se em duas: a que ainda era, e a que não se reconhecia. Sentia-se despregada do chão, o corpo a flutuar num espaço sem gravidade, invertida e confusa na sua noção de tempo e espaço. Sua sensação de perda da realidade era inenarrável, não sabia bem do que, ou antes, era de tudo! Mas de tudo o que, se tudo ainda estava lá e todos estavam ali? Ela é que girava de ponta cabeça no entorno de si mesma. Fracionada em duas, dividiu-se em uma que a observava nesse estado de alma sem nada entender, e outra que presa nesses espaços interiores vagueava na solidão do seu próprio espaço sideral. Saiu...